
É um péssimo sinal quando um filme é vendido como “uma das maiores franquias depois de ‘Crepúsculo’ e ‘Harry Potter’”, transmitindo a impressão de ser apenas mais um produto com cunhos meramente comerciais. Mas o lado bom é que, tirando o fato de também se basear em uma série de livros (de Suzanne Collins), “Jogos Vorazes” em nada se assemelha às outras sagas e se mostra bem mais sério e eficiente do que propagado.
A história se passa num futuro distante, depois da extinção da América do Norte, quando a população é dividida em 13 distritos. Anualmente, dois jovens representantes de cada distrito são sorteados para participar de um reality show mortal. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) é um deles, que se vê obrigada a participar da competição para salvar sua irmã e conseguir a liberdade de seu povo. Ao seu lado, o escolhido é o adolescente Peeta Mellarck (Josh Hutcherson), com quem precisa aprender a conviver.
Os roteiristas Billy Ray e Gary Ross conseguem adaptar de maneira uniforme e eficaz os três atos do livro: a apresentação dos personagens e seus dilemas internos; o treinamento e a etapa de divulgação do programa; e os jogos em si, quando a ação toma vez. Por mais que o segundo ato pareça demorado, ele se mostra necessário para captar a essência do longa. O roteiro só derrapa ao forçar a inclusão de um triângulo amoroso, já que um dos envolvidos tem pouca participação na história, deixando o mote para uma continuação e a subtrama fica um tanto deslocada neste primeiro episódio. Mas de um modo geral, os longos 144 minutos passam de maneira rápida, devido o entretenimento garantido.
A referência a “Crepúsculo” em sua divulgação chega a ser quase uma heresia, visto que o grau de maturidade de “Jogos Vorazes” dá um banho na saga dos vampiros e lobos sentimentais. Chega a ser surpreendente a brutalidade mostrada durante o terceiro ato (principalmente por sabermos que são jovens em ação). O competente diretor Gary Ross (“A Vida em Preto e Branco”, “Seabiscuit – Alma de Herói”) faz um trabalho correto ao tentar não inovar através de edições mirabolantes e adrenalina desenfreada, apostando no estado de tensão constante. Se por um lado algumas cenas de ação deixam a desejar, Ross compensa com momentos silenciosos e angustiantes, transpondo o estado de espírito dos personagens.
Em tempos em que reality shows são garantias de audiência, não deixa de ser interessante o fato de o filme estar enraizado na vida real e contenha uma profunda crítica à sociedade contemporânea, apesar da trama fantasiosa. Toda a preocupação pelo “show business” em detrimento às pessoas físicas está muito bem retratada na figura de grandes empresários, que mudam as regras do jogo a todo instante e não poupam interferências para manipular o resultado. Até o apresentador que esbanja hipocrisia ao insinuar que se emociona ou se preocupa com algum participante, está lá. Enquanto adolescentes se matam, o público de casa vai ao delírio e instituições lucram absurdamente com patrocinadores. Um retrato um tanto familiar…
Quanto ao elenco, a protagonista Jennifer Lawrence não tem a chance de mostrar sua forte veia dramática vista em “Inverno da Alma” e “X-Men: Primeira Classe”, mas convence no papel da mulher forte, pós-moderna, mas sem perder o feminismo. Josh Hutcherson está bem na pele do inseguro Peeta, mas também sem muitos momentos de destaque. A participação de nomes conhecidos como Stanley Tucci, Woody Harrelson, Wes Bentley, Donald Sutherland, Elizabeth Banks e até o músico Lenny Kravitz, todos muito eficientes em cena, é outro ponto alto.
“Jogos Vorazes” pode não ser inovador, já que temos outros filmes com temática semelhante, como o japonês “Battle Royale” e até “O Sobrevivente”, longa de ação estrelado por Arnold Schwarzenegger nos anos 80. Mas só em termos um blockbuster com a proposta de “agradar a todas as idades” sem infantilizar o seu público, merece todo o respeito. Que venha a continuação.
Nota: 8,5