
Depois de muita divulgação, “Área Q” chega aos cinemas com a promessa de estreitar os laços entre o interior cearense e o resto do mundo, trazendo no pacote uma abordagem espiritualista (principal marca da produtora Estação Luz). Alternando entre erros e acertos, o longa consegue cumprir a tarefa de apresentar as regiões de Quixadá e Quixeramobim, abordando também mensagens humanistas.
A história apresenta o americano Thomas Mathews (Isaiah Washington), um jornalista de Los Angeles que tem sua vida mudada quando seu filho desaparece. Após mais de um ano sem notícias do herdeiro, recebe a proposta de viajar a uma cidade do interior do Ceará para cobrir casos de contatos imediatos do primeiro grau. No Brasil, ele investiga histórias sobre os avistamentos de aliens, incluindo o misterioso caso de João Batista, (Murilo Rosa), um morador de Quixadá. Aos poucos, grandes descobertas passam a marcar sua viagem.
O roteiro de Julia Câmara, juntamente com o diretor Gerson Sanginitto (“The Morgue”), consegue manter um ar de curiosidade durante a maior parte da projeção. A quantidade de novos fatos e personagens que surgem o tempo todo e se cruzam de maneira misteriosa foi trabalhado com eficiência, de modo que o espectador em nenhum momento ache algo óbvio demais. No fim das contas, mesmo mensagens clichês como “vamos preservar o planeta” e “pratique o bem com o próximo” se encaixam sem parecer forçadas. O mesmo não se pode dizer das críticas direcionadas ao Governo dos Estados Unidos.
Mas a missão de apresentar a peculiaridade das regiões do Sertão Cearense acaba se tornando um dos pontos mais agradáveis de “Área Q”, atraindo olhares, mesmo deixando claro que se trata de uma zona sem desenvolvimento. Só quem conhece de fato os municípios de Quixadá e Quixeramobim sabe que as histórias envolvendo abduções, aparições de OVNIs, a enigmática Pedra do Ouro e poderes místicos são assuntos recorrentes entre os moradores há décadas.
As “fofocas” e temores colhidas pelo personagem principal entre os habitantes acontecem de forma natural (por mais estranho que alguém de outro Estado possa achar), com direito a boas passagens de humor através dos sotaques típicos interioranos (uma característica bastante presente nas obras do produtor Halder Gomes). Sim, o humor está bem presente, com direito até a piada envolvendo uma humana grávida, possivelmente de um alien, depois de uma abdução. Assim, a linha entre o que é verdade e o que é mito (seja por inocência do povo ou para atrair turistas) acaba sendo também um ponto alto do longa.
Nessa tarefa de apresentar a região, o diretor Gerson Sanginitto é bem sucedido ao focar o lado belo – independente de seus defeitos e lendas urbanas – com fotografias aéreas captando os grandes vales rochosos, sempre com a predominância do tom vermelho do sol. Claro que os pontos turísticos não ficaram de fora, como a Pedra da Galinha Choca, o Centro Cultural Rachel de Queiroz, a Igreja Matriz de Quixeramobim. Por outro lado, a direção não obtém sucesso ao incluir, repentinamente e em vários momentos, uma música de piano com o intuito de criar um clima dramático, ou fechando em demasia o foco no rosto dos atores para criar um clima de tensão.
Não há como negar que “Área Q” traz consigo um teor espiritualista através de vertentes como reencarnações, curas mediúnicas e mesmo as mensagens positivistas. Mas ao se misturar com o suspense da existência ou não de alienígenas, esses fatores ficam apenas induzidos, deixando margem para a interpretação do espectador. Por esse fato, o filme não possui cunhos doutrinadores da religião.
Falando nos extraterrestres, como o mistério prevalece durante a maior parte da projeção, foi possível para os realizadores a utilização de efeitos especiais discretos. Claro que, com um orçamento reduzido se comparado a uma grande produção, não se podia esperar nenhum show tecnológico. Dentro das limitações, Márcio Ramos (responsável pela ótima animação “Vida Maria”) faz o que pode e o resultado é aceitável.
Levando na bagagem a experiência de já ter trabalhado com grandes diretores como Clint Eastwood e Spike Lee, o protagonista Isaiah Washington não consegue destaque por atuar sempre no modo automático, algo inconveniente para a enorme carga dramática que o seu personagem possui. Murilo Rosa encarna um misterioso João Batista de modo satisfatório, o mesmo se repetindo quando vive um segundo personagem.
Tânia Khalil está correta, esboçando até um bom inglês, apesar de sua Valquíria aparecer um tanto deslocada na trama. Mas é Ricardo Conti, vivendo o divertido intérprete Eliosvaldo, quem rouba a cena. Carioca, o ator capta com perfeição o sotaque cearense, presente até no inglês propositalmente rasteiro, e é responsável pelos principais momentos de alívio cômico.
Seres de outro universo estimulando a recuperação da fé e praticando atos radicais em nome de um bem maior para os terráqueos já foi abordado em diversas outras produções, como “Sinais” e “O Dia em Que a Terra Parou”, o que pode o tornar “Área Q” sem maiores atrativos. Mas é visível a dedicação da equipe realizadora na condução das suas ideias. Depois de “Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito” e “As Mães de Chico Xavier”, a Estação Luz apresenta aqui o seu melhor filme.
Nota: 5,0