
Em 1999, “American Pie – A Primeira Vez é Inesquecível” fez sucesso nas bilheterias trazendo piadas grosseiras envolvendo sexo com uma torta e ejaculação precoce com transmissão via webcam. Acontece que nem tudo ali era apelação. A história trazia toda uma áurea que marcou comédias oitentistas, como as franquias “Porky’s” e “A Vingança dos Nerds”, abordando a insegurança dos personagens adolescentes, cujos estilos destoavam dos estereótipos sensuais, em lidar com suas vidas sexuais.
Depois de duas boas continuações e quatro produções lançadas diretamente no mercado home vídeo com a marca “American Pie Apresenta” (cujos filmes eram praticamente pornôs e ofensivos aos originais), todo o elenco do primeiro se reúne neste reencontro. E é agradável ver que o espírito da franquia original foi mantido, garantindo uma boa diversão, além de um ar de nostalgia.
O principal acerto do roteiro escrito pelos também diretores Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg é saber trabalhar o paralelo entre a juventude da turma nos primeiros filmes e os dias atuais, quando estão bem mais velhos e precisam lidar com diferentes tipos de dilemas. Assim, ver que aqueles jovens desajeitados estão crescidos, mas ainda sem a maturidade suficiente e com problemas mal resolvidos facilita a identificação do espectador (cujo público majoritário é aquele com idade semelhante a dos personagens).
Resgatar os sonhos da adolescência, deslumbrando empregos perfeitos e casamento com a pessoa amada, até se deparar com a realidade do presente, marcada pelo conformismo com a rotina, trabalhos monótonos e crises de relacionamento mostra uma certa maturidade da trama, não se apoiando apenas nos apelos sexuais. Os paralelos entre os dias de ontem e hoje também são abordados de maneira eficiente (com direito até a uma boa piada envolvendo Ricky Martin), de modo que, se a juventude no começo dos anos 2000 era alucinada, a atual está quase rumando para a total perdição.
Em meio a essa crise do envelhecimento, o elenco é bem sucedido, sendo beneficiado pelo bom trabalho dado aos personagens. Jason Biggs volta com a cara de bobalhão que Jim Levenstein sempre teve, mas com uma aparência mais cansada de quem tem um filho para criar e passa por ausência de sexo no casamento. Chris Klein, que interpreta Oz, é o que mostra a aparência mais desgastada, encarnando aquele que tinha tudo para ser um esportista, mas acabou virando comentarista e leva consigo o fardo de ser uma sub-celebridade por participar de uma “Dança dos Famosos”.
Thomas Ian Nicholas e Eddie Kaye Thomas, que vivem Kevin e Paul Fich, retomam a simplicidade de cada um, de modo que o primeiro lida com a rotina ao lado da esposa que ama (mas sempre mantendo um carinho grande pela ex-namorada, a bela Vick, vivida por Tara Reid) e o segundo vive um mundo de ilusão, alegando ser uma espécie de “nômade” que vive perambulando por países de América do Sul.
Destaque novamente para as interpretações de Alysson Hannigan, como Michelle, e Eugene Levy, o pai de Jim. A primeira mostra ser a personagem que mais se desenvolveu, continuando com a cara e os trejeitos de ingênua, mas sem o espírito pervertido de outrora, abrindo mão de certos prazeres em nome do amor à família. Já o pai de Jim continua tendo boas cenas com o habitual constrangimento alheio, mas desta vez o roteiro o utiliza ainda melhor ao abordar a questão da solidão na terceira idade.
Além deles, todos (todos mesmo!) os personagens de relevância do primeiro filmes retornam, mesmo que apenas para dar as caras rapidamente. Uns até foram promovidos de quase figurantes a coadjuvantes de luxo, como o japonês sem nome vivido por John Cho e os amigos do time de Lacrosse.
Mas no fim das contas, os melhores momentos, de novo, ficam ao encargo de Steve Stifler, vivido com maestria por Seann William Scott (que por sinal, foi o ator que mais se destacou fora da franquia). Ele não só é responsável pelas melhores cenas cômicas como é, de longe, o personagem melhor trabalhado pelo roteiro. Muito do seu comportamento non sense, sem o menor pudor e sempre promovendo festas loucas para chamar atenção é explicado através da figura extremamente carente, subordinada à mãe bonitona, sem o carinho de amigos de verdade e com um emprego deprimente. Seus atos são reflexos de seus traumas, e o ator retoma as caras e bocas típicas do personagem, que luta em aceitar que a adolescência ficou para trás há anos.
Ah, as piadas fortes estão lá aos montes, com direito a gags envolvendo excrementos, uma desnecessária exibição de órgão genital, seios à mostra, e sexo. Os risos estão garantidos, para a alegria dos antigos apreciadores da franquia e da nova “geração ‘Se Beber, Não Case'”.
No fim das contas, o novo “American Pie” é divertido como um reencontro de amigos de longas datas. Amigos que passaram por inúmeras situações constrangedoras juntos, seguiram seus rumos individualmente, mas ao sentarem numa mesa de bar para tomar uma cerveja e bater um papo, mostram que são os mesmos desajustados e carismáticos de sempre.
Nota: 8,0