
Filmes musicais e rock’n’roll são dois estilos que ou se ama ou se odeia. Caso contrário, a pessoa no máximo pode conferir as obras sem incômodo, mas nunca entenderá os reais sentimentos ali presentes. Sendo assim, quem for assistir a “Rock of Ages – O Filme”, adaptação para o cinema do famoso musical da Broadway, precisa já estar ciente do que irá ver. Se estiver preparado para uma verdadeira viagem por clássicos do Hard Rock e Love Metal, estrelada por carismáticos personagens, a diversão é garantida.
A trama apresenta Sherrie (Julianne Hough), uma jovem que chega de uma cidade pequena na grande Hollywood e se depara com um cenário musical em plena ebulição com muitas bandas de rock e com todos os excessos da vida dos grandes músicos. Lá, ela conhece Drew (Diego Boneta), um aspirante a roqueiro por quem se apaixona e lhe arruma um emprego no mais famoso bar da cidade. Em meio a esse cenário, o arrogante rock star Stacee Jaxx (Tom Cruise) vive crises internas enquanto tenta iniciar carreira solo e é idolatrado por toda uma legião.
É bom deixar claro que a história é bem rasteira, sem criatividade, típicas de algum filme que futuramente vai passar no turno da tarde na TV. Mas mesmo assim, o roteiro escrito por Justin Theroux, Allan Loeb e Chris D’Arienzo (criador do musical original) consegue a difícil tarefa de reunir tantos personagens de maneira orgânica, cada um com seus devidos momentos de destaque, e compensar a trama boba com muito bom humor. Ao parodiar e homenagear, ao mesmo tempo, os elétricos anos 80, muitas situações divertidas são apresentadas, garantindo os risos do espectador. Destaque também para a boa direção de arte e figurinos, que retratam fielmente o brilho daquele universo, que soariam brega (ah, as roupas de couro…) se não fossem tão icônicos.
E se no fim das contas tudo não passa de desculpa para a inserção dos números musicais, estes são a força motriz do longa-metragem, cada um encaixado muito bem dentro de cada contexto. Para quem curte o bom e velho rock’n’roll, o filme passeia por canções famosas, desde o final dos anos 70 até o começo dos anos 90, cuja grande maioria exalta o próprio estilo. Os números são muito bem comandados pelo diretor Adam Shankman (que vale frisar, evoluiu na condução de um musical se comparado ao regular remake de “Hairspray”), que também tratou de criar as coreografias.
Desde músicas mais ‘underground’ como “Hit Me With Your Best Shot” (Pat Benatar), passando por baladas românticas como “More Than Words” (Extreme) e “Waiting For a Girl Like You” (Foreigner), às instigantes “I Wanna Rock” (Twisted Sister), “Heaven” (Foreigner), “Here I Go Again” (Whitesnake), até hits populares como “Paradise City” (Guns ‘n’ Roses), “I Love Rock’n’Roll” (Joan Jett), “Wanted Dead or Alive” (Bon Jovi) e o quase hino ressuscitado pela geração atual (muito graças ao amado e odiado seriado “Glee”), “Don’t Stop Believen” (Journey), as canções são executadas de maneira eficientes pelos seus intérpretes. Particularmente não gosto dos mash-ups (mistura de duas ou mais músicas em um mesmo número), mas há muitos que apreciam, sendo assim, eles estão presentes atendendo a um gosto geral.
Se o casal de protagonistas acaba sendo a subtrama mais desinteressante, muito até pela inexperiência de ambos (o mexicano Diego Boneta se mostra um ator extremamente inexpressivo, enquanto Julianne Hough é só aquela bonitinha que canta bem e não compromete), os coadjuvantes garantem o bom nível da obra. A dupla Alec Baldwin e Russell Brand, como os proprietários do Bourbon Bar, trazem muitos momentos divertidos, com direito a uma bizarra interpretação de “I Can’t Fight This Feeling Anymore”, do REO Speedwagon. Catherine Zeta-Jones, na pele da esposa do prefeito que tenta banir a todo custo o rock, cumpre o papel ao agir de maneira forçada propositalmente. O mesmo se aplica a Paul Giamatti, como o empresário de Stacee Jaxx, bastante caricato, a partir do visual. Afinal, o objetivo dali é tirar a graça de tudo.
Mas o principal destaque vai mesmo para Tom Cruise. O astro, aos 50 anos, mais uma vez mostra que é um grande ator ao conferir um ar maluco e deslumbrado de Stacee Jaxx, sempre com falas sem sentido e olhos perdidos, algo como uma mistura de monge espiritual com Axl Rose na fase mais louca. Conseguindo aplicar o ar de galã mesmo em um personagem tão autodestrutivo, ele ainda não faz feio ao cantar a elétrica “Pour Some Sugar on Me”, do Def Leppard, e a romântica “I Want To Know What Love Is”, do Foreigner, ao lado de Malin Akerman (outra caricata de maneira proposital, na pele de uma repórter da revista Rolling Stone) em um dos momentos mais engraçados da projeção.
Aquelas pessoas que consideram ridículo o fato de os personagens saírem cantando em momentos inapropriados e acham que rock’n’roll é apenas barulho, não devem nem gastar o dinheiro indo assistir a “Rock of Ages – O Filme”. Desconsiderando esses, o longa é um verdadeiro passeio nostálgico por uma época peculiar, embalado pelo transcendental estilo musical.
Nota: 7,5