Crítica: ‘Ted’ brinca com o grotesco de uma maneira inteligente e divertida

O humor politicamente incorreto existe há séculos, e só quem o absolve “de cabeça aberta” enxerga o seu verdadeiro valor. Levando em conta que ele não pretende denegrir a imagem de ninguém ou fazer apologias aos seus aspectos negativos, a graça ganha vez ao fugir dos padrões “bonitinhos” da sociedade. “Ted” utiliza muito bem esses conceitos (mas sempre há um Protógenes Queiroz para se ofender…) e, com uma série de outros elementos de muita categoria, surge como uma das melhores comédias do ano.

A trama começa em um Natal, quando o pequeno John Bennett, uma criança sem amigos, pede que seu ursinho de pelúcia, Ted, ganhe vida. O garoto fica surpreso ao perceber que seu pedido foi atendido e logo eles ficam muito unidos. Eles crescem juntos e o urso se torna bastante mal humorado, mulherengo e adepto de uma vida sem pudores. Já adulto, John (Mark Wahlberg) precisa decidir entre manter a amizade de infância ou o namoro com Lori Collins (Mila Kunis).

Quem vai assistir a “Ted” necessita ter um conhecimento prévio do tipo de humor do diretor/produtor/roteirista/dublador Seth McFarlane. No seriado animado “Uma Família da Pesada” (“Family Guy”), ele critica o padrão de vida americano através de uma família totalmente desprovida de inteligência, com destaque para um bebê maléfico, drogado e pervertido. Agora em seu primeiro longa para o cinema, as piadas visuais envolvendo o ursinho fofinho usando drogas (das mais fortes) e fazendo insinuações sexuais estão lá aos montes, mas nada que muitos filmes adolescentes derivados de “American Pie” já não fizeram parecido. E sim, muitas são bem divertidas, se captada a ideia do quão absurdo é tudo que está em cena.

Mas o grande mérito do roteiro escrito por McFarlane é não se aproveitar apenas do teor absurdo das cenas grotescas, mas também acahar espaço para inúmeras tiradas com referências à cultura pop em geral. Desde ícones do passado como Flash Gordon, “007 Contra Octopussy”, Corey Feldman, Frankie Muniz (o eterno Malcom), até celebridades contemporâneas como Justin Bieber, Norah Jones, Katy Perry, Taylor Lautner, Brandon Routh e Susan Boyle ganham espaço para piadas criativas. Afinal, a desconstrução de mitos é uma das marcas fortes desse humor ousado e McFarlane sabe muito bem usar esse recurso.

Ele ainda encontra espaço para trazer lições humanas, de modo que o espectador crie uma afinidade (e até pena em muitas ocasiões) do urso. É clichê, mas funciona bem em “Ted”, deixando o produto final com contrapontos necessários pois, no fim das contas, se trata de um filme sobre amizade e nem tudo é só baixaria. A mensagem, que muitos relutam em enxergar, de que é preciso conciliar diversão com a maturidade para os compromissos sérios da vida parece bem clara. Inclusive, o longa poderia muito bem existir com um ser humano normal (desleixado, é claro) no lugar do urso, mas seria apenas um produto comum, perdendo valor ao não brincar com a aparência carismática e infantil do protagonista.

Contando ainda com um bom elenco que inclui Mark Wahlberg (convincente como um homem quase quarentão, mas com hábitos de adolescente e fã de coisas das décadas passadas), Mila Kunis (linda como sempre), Giovanni Ribisi (encarnando um “vilão” bizarro e exagerado propositalmente) e Joel McHale (mantendo o mesmo ar orgulhoso, porém, abobalhado do seu personagem na série “Community”). McFarlane se destaca ao levar a voz grave e sarcástica de Peter Griffin de “Uma Família da Pesada” ao urso Ted (inclusive, há uma menção a isso). Vale destacar: há duas participações especiais, sendo uma delas responsável pela cena mais hilária da projeção.

Polêmicas à parte, quem for assistir a “Ted” já preparado para o que vier, certamente terá 106 minutos de boas risadas. Em meio a tantas comédias que surgem semanalmente e caem na mesmice, fugir dos padrões dos demais filmes do gênero não mata ninguém.

Nota: 8,0

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