
Desde que Daniel Craig assumiu o cobiçado papel do espião 007, no excelente “Cassino Royale” (2006), a mais longínqua série do cinema ganhou ares de renovação, ou mesmo de recomeço. O estilo ficou mais “realista”, com cenas de ação cruas, embaladas pela influência da franquia Bourne. Após o bom, mas confuso e atropelado “Quantum os Solace”, a nova fase chega ao terceiro filme na melhor forma possível. “007 – Operação Skyfall” segue a tendência atual, mas resgata com muito primor a áurea dos longas clássicos do agente britânico.
A trama começa com o roubo de um HD contendo informações valiosas sobre a identidade de diversos agentes, infiltrados em células terroristas espalhadas ao redor do planeta. Durante perseguição pelas ruas de uma cidade na Turquia, James Bond (Craig) acaba baleado por conta de uma ordem imprudente da sua chefe M (Judi Dench) e é dado como morto pela MI6, organização em que trabalha. Vivendo em um vilarejo distante, o espião resolve “renascer das cinzas” quando descobre que a MI6 sofreu um ataque terrorista e os outros agentes correm perigo. De volta à ativa, ele precisa lidar com um misterioso vilão (Javier Bardem) com habilidades à altura dele.
A presença de um diretor de credibilidade como Sam Mendes (“Beleza Americana”, “Estrada Para Perdição”) leva a “007 – Operação Skyfall” um diferencial para a fraquia, que tinha a tradição de usar cineastas de pouco prestígio. Mendes sabe o que faz e modela a sua obra quase como uma escultura, dando continuidade ao processo de renovação da série, mas aos mesmo tempo, faz do novo filme uma bela homenagem aos filmes clássicos, estrelados por Sean Connery, Roger Moore, Timothy Dalton, etc. O roteiro do próprio Mendes, ao lado de John Logan, passeia com primor entre essa linha do velho e do novo.
Ao mesmo tempo em que se inicia a transição para a vinda de um M do sexo masculino (assim como nos filmes antes da era Pierce Brosnan), é apresentado um Q (o inventor das armas de Bond) como um jovem magro e de aparência nerd (o ótimo Ben Whishaw), diferente do velhinho dos anteriores vivido por Desmond Llewelyn e, posteriormente, a versão atrapalhada vivida por John Cleese. E se o armeiro rejuvenesce, a marca “realista” da nova série não perdeu a vez: a arma continua sendo o velho revólver Walther PPK, com algumas pequenas artimanhas, além de um rádio. E ainda tem piada sobre essa alternância de tempo: “O que esperava? Uma caneta que explode? Não fazemos mais isso.”
Durante os longos 145 minutos, há um festival de referências às marcas que caracterizaram a série, como cena de ação pisando em cima de um animal exótico (assim como Roger Moore em “Com 007 Viva e Deixe Morrer”), vilão com face deformada, além da aparição do carro Aston Martin, presente em nada menos que oito filmes de 007, desde a fase Connery. Ah, a música-tema está muito bem presente e James Bond superou a fase sentimental de “Cassino Royale”. Agora ele é aquele velho conhecido que não perde a oportunidade de levar uma bela mulher para a cama e ponto final. Mas a liberdade criativa está lá, nítida, a começar por abordarem o passado do protagonista, algo que vinha sido mantido em mistério há 50 anos.
Detalhe também para a boa maneira como é abordada a relação de amor e ódio entre Bond e a chefe M (a sempre eficiente Judi Dench, desta vez com participação bem maior), que mais se aproxima a de uma mãe com um filho. Na condução das cenas de ação, Sam Mendes também mostra que tem talento, sem necessariamente copiar o estilo de alguém. Desde a movimentada sequencia inicial em uma perseguição que inclui motos e um trem, ele não cai na armadilha de deixar o espectador tonto com tantos cortes e exagero de imagens. O mesmo vale para o rústico clímax, em que prevalece a tensão aos estouros em si.
Daniel Craig se mostra cada vez mais seguro no papel de James Bond, sem necessitar mudar a feição sempre fechada e omissa dos sentimentos. Mas é Javier Bardem quem rouba a cena no papel do peculiar vilão Silva. O ator espanhol consegue captar o mesmo ar perturbador de “Onde os Fracos Não Tem Vez”, mesmo com ar afeminado e uma mandíbula bizarra. Em cena, herói e protagonistas são os opostos, também conflitando a marca do velho e do novo que marca a película. Se por um lado Bond é retrô, faz a barba com navalha e usa espingarda e faca em meio a um tiroteio, o espanhol conta com a tecnologia como a sua principal arma.
“007 – Operação Skyfall” pode não ser o melhor, mas é, de longe, o mais autoral da franquia, mostrando que ela pode ainda render muito nos cinemas. Sam Mendes prova que é possível renovar, sem necessariamente apagar tudo o que consagrou uma marca ao longo de décadas. O legado está vivo, diverte e ainda pode divertir muito.
Nota: 9,0