
Se Ben Affleck tem o seu potencial como ator constantemente questionado por muitos críticos, atrás das câmeras ele tem mostrado um talento impressionante. Após a estreia no bom “Medo da Verdade” e a consolidação no excelente policial “Atração Perigosa”, ele mostra em “Argo” o seu trabalho mais maduro, onde trabalha com liberdade com os detalhes estíliscos que permeiam a indústria cinematográfica ao longo das últimas décadas. Com a premissa de narrar uma história real que ficou em sigilo por muitos anos, ele entrega um dos melhores filmes do ano.
A trama se passa em 4 de novembro de 1979, quando a revolução iraniana atinge seu ápice, militantes atacam a embaixada dos EUA e tomam 52 americanos como reféns. Em meio ao caos, seis pessoas conseguem escapar e se refugiam na casa do embaixador canadense. Sabendo que é apenas questão de tempo até serem encontrados e mortos, o especialista da CIA em “exfiltração”, Tony Mendez (o próprio Affleck), arquiteta um arriscado plano em que finge a realização de um filme de ficção científica para tirá-los do país. Para isso, ele conta com a ajuda do produtor Lester Siegel (Alan Arkin) e do premiado maquiador John Chambers (John Goodman), que conhecem bem como funciona Hollywood.
É fato que o longa-metragem é beneficiado pela história verídica, que por si só, já é um roteiro de cinema. Mas o texto do pouco experiente Chris Terrio, em cima do artigo de Joshuah Bearman, por mais previsível que seja, abre espaço para críticas governamentistas e referências à cultura pop. Por trás de tudo, há a exclamação pelo fato de os Estados Unidos oferecerem inúmeros bloqueios a um plano (e mesmo depois de concluído ser mantido em segredo) que, por causa da dimensão da sua bizarrice e da grande possibilidade de fracasso, pode transformar a imagem de um país em vergonha nacional.
Mas é a condução de Affleck que torna “Argo” diferenciado desde a introdução, onde contextualiza o cenário político em uma animação que mais parece um início de filme de super-herói. Mas o ritmo é alternado, de modo que lidamos a maior parte dos 120 minutos com uma obra pretensiosa. Utilizando com primor imagens reais de TV da época, diálogos irônicos e pouco som ambiente, a projeção decorre como um típico longa de espionagem de tempos passados, como “Todos os Homens do Presidente” (de Alan J.Pakua, 1976) e “Intriga Internacional” (de Alfred Hitchcok, 1959).
Vale destacar o excepcional trabalho de direção de arte, digno de Oscar, que remete ao fim dos anos 70 com perfeição. Desde o visual dos personagens, barbas, bigodes, penteados, óculos com armação grande, até a contextualização do ambiente, com telefones e aparelhos de TV rústicos, burocracias absurdas para conseguir algo que hoje é simples, a atenção é grande. Basta reparar na semelhança dos personagens reais, mostrados nos créditos finais, com os atores que os interpretam, para ver o tamanho do cuidado com a produção.
Mas o diretor, ao mesmo tempo, sabe deixar a sua obra leve. A fase de planejamento do falso filme, com direito a robôs e figurinos exagerados, rende bons momentos de diversão. Além disso, quando o plano finalmente está sendo executado, Affleck consegue criar uma tensão forte, de modo que até o segundo final, o espectador sente o temor de cada personagem que está em perigo. Mas a ação é claramente cinematográfica e divertida, mais parecendo um dos mirabolantes planos do grupo de Danny Ocean de “11 Homens e Um Segredo”.
A força do elenco é outro ponto que contribui para o sucesso do longa. Affleck, atuando, pode não ser um ter o potencial dramático de um Daniel Day-Lewis, mas não faz feio. Mas John Goodman, na pele do simpático maquiador John Chambers, e Alan Arkin, na pele do desbocado produtor Lester Siegel, roubam a cena sempre que aparecem. Bryan Cranston (do seriado “Braking Bad”) também está eficiente, assim como Victor Garber e os “refugiados” Tate Donovan, Clea DuVall, Rory Cochrane, Christopher Denham e Scoot McNairy.
Há espaço para uma boa homenagem ao cinema em geral, com destaque para as obras de ficção como “Star Wars” e “O Planeta dos Macacos”, que certamente vai emocionar quem cresceu assistindo a esse tipo de arte. Os momentos finais deixam claro a intenção do realizador de mostrar que foi a magia do cinema, a imaginação, quem alimentou a esperança pela vida naquelas pessoas em risco. E é por mostrar que não só aprecia, mas sabe colocar na prática esta metalinguagem, Ben Affleck merece muito respeito no cenário atual.
Nota: 9,0
Desculpe meu caro, mas esse filme é uma colcha de retalhos de clichês acobertando uma visão distorcida sobre a realidade do Irã. Assista a Abbas Kiarostami antes de falar que Ben Affleck é um diretor maduro.
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