
Não tem como negar que o seriado “24 Horas” e a trilogia Bourne (estrelada por Matt Damon, excluindo o quarto longa com Jeremy Renner), deram início a uma nova geração de filmes sobre superespiões, adotando um estilo de direção mais sério e até “realista”. Ditou o rumo das novas produções de 007, vieram “Salt”, “Busca Implacável”, entre outros. Tom Cruise também resolveu entrar na moda com “Jack Reacher – O Último Tiro”, adaptação da obra “Um Tiro” (do britânico Lee Child) e, apesar da enorme pretensão, acaba se mostrando apenas mais uma boa produção do gênero.
O longa já começa com a execução de um crime brutal, cometido por um atirador de elite contra cinco pessoas ao mesmo tempo. Preso logo em seguida, ele cita durante o interrogatório apenas o nome de Jack Reacher (Tom Cruise), um ex-combatente com inúmeras condecorações, dado como desaparecido para o governo e autoridades. Jack aparece do nada e resolve investigar por conta própria o tal mistério. Sua teoria é que existe uma ligação entre as mortes e o verdadeiro responsável tem outros interesses, procurando desviar a atenção.
O diretor Christopher McQuarrie (roteirista do ótimo “Os Suspeitos” e diretor do mediano “A Sangue Frio”) mostra logo na cena inicial um tom estiloso ao girar horizontalmente a câmera a partir da mira do atirador procurando as suas vítimas, de modo a fazer o expectador imaginar quem irá morrer em seguida. Mas a pouca experiência atrás das câmeras faz o cineasta cair em uma série de clichês. Para começar, cria uma áurea de mistério para lá de exagerada para a primeira aparição do protagonista, algo desnecessário para um personagem ainda desconhecido do grande público.
Armadilhas de filmes do gênero que já não impressionam e nem divertem mais ninguém, como o personagem explicar passo a passo como irá arrebentar um qualquer momentos antes de fazê-lo, estão lá. Flashbacks completamente desnecessários, também. E o que dizer de Jack Reacher sendo atacado por dois capangas trapalhões que não conseguem atingi-lo pois só batem entre si acidentalmente? Algo digno de uma comédia pastelão que em nada combina com a proposta do longa metragem, contribuindo para o mesmo se perder ao longo da projeção.
Mas McQuarrie mostra que tem alguma qualidade que pode render bons frutos com o amadurecimento. A boa cena de perseguição de carros, com fotografia escura e destruição de tudo o que há pele frente, lembrando até o jogo de vídeo game Grand Theft Auto (GTA), é muito eficiente, assim como o movimentado clímax, com ação e humor dosados na medida certa. Mesmo os momentos de tensão em que prevalece o silêncio, como a do tiro ao alvo, a proposta consegue ser transmitida.
O roteiro, escrito pelo próprio cineasta, contribui para o ritmo não cair. Apesar do contexto simples por causa de todo o longa se desenrolar em cima de apenas um incidente, o filme tem reviravoltas nos fatos e mistério em cima do caráter de cada personagem. Nada que surpreenda em demasia ou nos faça rever tudo a fundo como em “Os Suspeitos”, mas garante o entretenimento pelos 130 minutos.
No fim das contas, o que garante a graça de “Jack Reacher” é a construção do personagem título. Além do estereótipo de “homem misterioso que age pelos próprios princípios”, o veterano de guerra mostra um diferencial por não ter escrúpulos, não temer a morte de qualquer ser humano e, principalmente, um sarcasmo ímpar ao lidar com quem se insinua de qualquer maneira para ele (seja em tom de ameaça ou um flerte). Ele não é um espião, não obedece a ninguém, apenas tem habilidades e carisma suficiente para levar uma produção nas costas.
No papel principal, Tom Cruise se mostra bem à vontade sempre com a cara fechada, apesar de ser difícil não imaginar que é Ethan Hunt, de “Missão: Impossível” em cena. Um elenco coadjuvante de peso, como o ótimo Richard Jenkins, além de participações do alemão Werner Herzog e o veterano Robert Duvall (divertidíssimo em cena) ajudam a tirar a produção do fracasso. Por outro lado, Rosamund Pike (“O Retorno de Johnny English”) surge um tanto apática para um papel feminino principal, independente de existir ou não uma química com o protagonista, já que o mesmo é frio por natureza.
“Jack Reacher – O Último Tiro” chega com uma proposta de instalar uma nova franquia, mas não apresenta força suficiente para ganhar fãs por si próprio, devendo ficar sempre à sombra de outros filmes que seguem o mesmo estilo. Se fizer bonito nas bilheterias, uma sequencia será inevitável, que servirá apenas para entreter o público com um personagem interessante e reforçar a conta bancária de Tom Cruise.
Nota: 6,0