Crítica: ‘Somos Tão Jovens’ vale apenas para apreciar a obra de Renato Russo

Independente de gostar ou não das músicas de Renato Russo, é inquestionável que o músico tem uma mente peculiar e uma criatividade, no mínimo, admirável. Sendo assim, um filme sobre uma das mais marcantes figuras da música brasileira era algo mais do que justo e esperado por uma legião (sem trocadilhos) de fãs. Acontece que esse “Somos Tão Jovens” (Brasil, 2013) tem muito som a ser apreciado, sim. Mas como obra de cinema, derrapa em muitos aspectos.

A trama começa em 1973, quando Renato, recém chegado a Brasília, começa a se encantar pela música. Compositor nato, desperta interesse pelo punk rock e se envolve no cenário musical da cidade após se recuperar de problemas de saúde. Desde cedo, chamava atenção pelo comportamento diferente dos demais, sempre crítico à sociedade em que vivia. Nesse contexto, ganha projeção com a bandaAborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana.

O principal problema da produção é que ela é muito mais uma obra de exaltação à figura de Renato Russo do que uma cinebiografia propriamente dita. Ao invés de nos aprofundarmos na personalidade do protagonista, temos uma projeção da juventude da época, embalada ao som de muito Sex Pistols e pensamentos anárquicos, que não são novidades para ninguém. Repleto de frases de efeito, a pretensa cinebiografia sofre do mal de muitos filmes nacionais: se dividisse em três episódios, seria perfeitamente uma minissérie global ou um especial sobre Renato Russo.

Inserções de trecho de músicas em diálogos casuais, como “- Festa estranha! – Gente esquisita!”, ou bordões clichês como “Eu quero mudar o mundo” e “Somos uma Legião” tornam a produção artificial, tirando a pureza e emoção que uma história sobre Renato Russo poderia evocar.

Tudo bem que nos créditos é explicado que se trata de uma “obra de ficção inspirada em fatos relatados”, mas a interação entre os personagens é apresentada de forma forçada, em que todos estão claramente ditando as falas decoradas. Não dá para soar como natural ver o adolescente entrando na sala de casa e iniciando uma confusão porque seus pais estão assistindo a “mentiras” no telejornal.

O roteiro de Marcos Bernstein (do ótimo “Central do Brasil”, 1998) chega a incomodar com a série de fatos que surgem atropelados. A rara doença óssea de Renato é abordada com uma simples queda de bicicleta (já com 20 anos!) e, depois, o médico explica para os seus pais: “a lesão foi por causa da epifisiólise”. Pronto, tudo certo!

Depois, os integrantes do grupo Aborto Elétrico começam a “cair do céu”, um por um. O mais irritante é o punk sul africano Petrus (primeiro caso homossexual de Russo, o que não é mostrado), vivido por Sérgio Dalcin, que não se decide se fala português ruim ou inglês ruim. A bissexualidade do protagonista é tratada de maneira discreta, mas sem omissão.

Mesmo assim, o longa dirigido por Antonio Carlos da Fontoura (dos terríveis “Uma Aventura de Zico”, 1998; e “Gatão de Meia Idade”, 2006) tem seus muitos lados positivos, justamente quando vemos a essência de Renato Russo em cena. Curiosidades como o gosto por astrologia, o apego por artistas de rock como se fossem irmãos (como na cena em que descobre a morte de John Lennon), a estranha mania de gravar as conversas para auxiliar na composição, atenuam a vontade de conhecer mais sobre o ícone. Além disso, não deixa de ser interessante ver a importância que nomes que fazem sucesso até hoje, como Herbert Vianna e Dinho Ouro Preto, tiveram naquele contexto.

Os fãs de Legião Urbana certamente irão balançar a cabeça e cantar junto durante boa parte dos 104 minutos de projeção. De fato, é impossível não curtir na tela grande sucessos como “Fátima” (depois adotado pelo Capital Inicial), “Tempo Perdido”“Geração Coca-Cola”“Faroeste Caboclo”, entre muitos outros. Sem falar que o longa-metragem induz possíveis inspirações para clássicos como “Eduardo e Mônica” e “Ainda É Cedo”, deixando para imaginação de cada um. Assim, quem colocar o show à frente do filme em si na lista de prioridade vai ter diversão garantida.

Apesar dos personagens soarem artificiais, é importante frisar que não é culpa dos atores. Thiago Mendonça (que já viveu Luciano no filme “2 Filhos de Francisco”, 2005) se entrega ao papel principal, seja ao engatar o espírito revoltado no início da carreira ou a serenidade misturada com emoção na fase mais madura.

Destaque também para Laila Zaid, na pele da Claudinha, melhor amiga e talvez único amor da vida do músico. Apesar da loucura de toda roqueira da época, ela transparece a meiguice e serenidade necessária. Apesar de pouco ser exigido, não deixa de ser interessante ver Nicolau Villa-Lobos vivendo o próprio pai, o guitarrista Dado Villa-Lobos.

Impossível não comparar com o ótimo “Cazuza – O Tempo Não Para” (2004), quando mostrava de fato o espírito devasso, sujo e elétrico de outro ícone da música.“Somos Tão Jovens” é inferior e deixa a desejar justamente por faltar mais do próprio Renato Russo. Cobrar mais drama seria demais, até porque a obra não se propõe a mostrar o trágico fim da vida do músico. Mas ele merecia algo menos novelesco! No fim das contas, nunca é demais conhecer um pouco (só um pouco) mais sobre a sua vida e apreciar as suas empolgantes e eternizadas obras.

A esperança agora está em “Faroeste Caboclo”…

Nota: 6,0

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