Crítica: ‘Antes da Meia-Noite’ mantém sua aura poética

Não tem como negar que Jesse e Celine são um dos casais mais queridos da História do cinema. Afinal, através de uma proposta diferente e realista, nos encantamos com aqueles jovens que se conheceram em Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) e torcemos por eles em Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004). Agora, no terceiro, “Antes da Meia-Noite” (Before Midnight, 2013), é triste constatar que o tal “encanto” da série é quebrado. Mas a qualidade cinematográfica continua fantástica.

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) vivem juntos em Paris, ao lado das filhas gêmeas. Ele é frustrado por não conseguir dar a atenção que queria ao filho adolescente que teve com a ex-esposa e que mora em Chicago com a mãe. O casal resolve viajar para a Grécia a passeio e, nesse contexto, ele segue tentando se tornar um romancista de sucesso, enquanto que ela considera a possibilidade de aceitar um emprego junto ao governo francês.

Antes de tudo, é preciso falar um pouco sobre a franquia em si, cujos três filmes são comandados com habilidade por Richard Linklater, diretor de sucessos de bilheteria (Escola de Rock, 2003) e obras extremamente artísticas (Waking Life, 2001) . Em cada episódio, acompanhamos um dia da vida do casal, em diferentes fases. Aos invés de tramas com exageros de romantismos, a história de Jesse e Celine prima pela simplicidade e com a condução “pé no chão”. Os clichês do gênero dão vez a boas conversas sobre assuntos os mais variados possíveis, entre duas pessoas em que a sintonia surgiu desde o primeiro contato.

O modelo continua o mesmo: repleto de diálogos prolongados, em planos contínuos, que podem até soar entediantes para quem não é acostumado. Mas em cada fala, há uma profundidade, sempre soando natural, por mais que o roteiro do diretor Linklater, com intervenções dos atores Hawke e Delpy, seja minimamente estudado. A diferença é que agora há um ar de amargura e até niilismo no ar, mesmo no momento de descontração, quando passeiam pela vegetação, quando observam o pôr-do-sol, até o ápice da cena no quarto do hotel.

Assim como se passaram nove anos entre o primeiro e o segundo, o mesmo intervalo acontece do segundo para o terceiro. Aqueles jovens na casa dos 20 anos hoje são adultos maduros e colhem as dificuldades da vida. Entre as muitas falas, pode-se destacar o tocante momento em que uma idosa explica porque tudo na vida é passageiro. Ou mesmo quando Jesse chega a conclusão de que “é preciso ser iludido para se ter alguma motivação”. Mas eis onde entra a beleza do terceiro episódio: a vertente do realismo está mais forte do que nunca.

Por mais que Jesse e Celine se completem, eles têm diferenças. E o amor não é perfeito! Concessão é uma palavra essencial para o sucesso de qualquer relacionamento. Orgulho, o instinto natural do ser humano de sempre pensar que o próximo é quem estar errado é uma barreira constante e perigosa. Com o casal de protagonistas não é diferente. A vida real é bem diferente do que um conto de fadas, ou mesmo dos livros escritos por Jesse sobre eles próprios. É interessante ver a reação incomodada de Celine, sempre quando questionada sobre as obras por aqueles que acreditam que elas são 100% verídicas.

Jesse tem um filho nos EUA que ama e abriu mão de morar junto para viver uma nova vida com Celine em Paris. Ela, por sua vez, está mais do que habituada à cidade onde nasceu, almeja um bom emprego por lá, e abriu mão de muitos prazeres da vida, como a paixão pela música, para se dedicar à família. Não há certo ou errado. E no fundo, eles estão lá: o jovem sonhador que vive os sonhos, e a mulher, um tanto insegura, apesar de bastante idealista. Acho que falar que as atuações de Ethan Hawke e Julie Delpy continuam primorosas chega a ser uma redundância.

Muitos fãs imaginaram que o final subjetivo do segundo filme, deixando em aberto o destino do casal, foi perfeito. Afinal, era melhor o terceiro filme não ter existido, deixando o encanto na mente de cada um? Talvez. Mas o longa-metragem, em sua genialidade, mostra que Jesse e Celine são muito mais humanos do que podíamos imaginar, fechando (ou não!) uma das melhores franquias do cinema. “Antes da Meia-Noite” tem menos romantismo, porém, dependendo do ponto de vista, pode ser o mais romântico de todos. No fim das contas, a vida não é perfeita, ela é cheia de dúvidas, mas tudo é superável.

Nota: 9,0

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