Crítica: ‘Bling Ring’ é um desfile morno de erros e acertos

Sofia Coppola já pode ser considerada uma diretora cult, daquelas cujos apreciadores de filmes ditos “alternativos” correm para as salas de cinema só ao saberem que seu nome está nos créditos. Em Bling Ring – A Gangue de Holywood (Bling Ring, 2013), a cineasta parece forçar a própria fama de visionária e entrega o seu projeto mais irregular, mas mesmo assim, eficiente.

A trama, baseada em fatos reais, apresenta Nicki (Emma Watson), Marc (Israel Broussard), Rebecca (Katie Chang). Sam (Taissa Farmiga) e Chloe (Claire Julian), adolescentes fascinados pelo mundo glamouroso das celebridades. No intuito de ganharem visibilidade, eles começam a fazer pequenos furtos na casa dessas pessoas. Cada vez mais empolgados com “os ganhos”, o volume dos saques logo desperta a atenção das autoridades.

Artigo

A história é adaptada de um artigo publicado na revista Vanity Fair, de Nancy Jo Sales, inspirado nos roubos que aconteceram entre outubro de 2008 e agosto de 2009, totalizando US$ 3 milhões em joias, dinheiro e objetos de grife. O diferencial de Copolla é que, ao invés de transformar o caso em uma história policial (algo bastante plausível para o cinema), ela aborda do jeito que sabe melhor: uma obra sobre seres humanos e suas personalidades vulneráveis ao meio em que vivem.

Sociedade

Desse modo, os roubos são apenas detalhes para as críticas à sociedade atual, explorando a necessidade de jovens em alavancar o próprio status, jogando para escanteio qualquer indício de personalidade própria. Como um reflexo da sociedade de consumo, em que celebridades são tomadas como modelo de glamour e respeito, os protagonistas são traçados como adolescentes fúteis, que consomem drogas o tempo todo e, literalmente, invadem às vidas alheias para transformar as próprias.

Características

Com essa proposta, Sofia mantém a sua condução característica, com tom intimista, um ar de melancolia, diálogos prolongados e câmeras estáticas. Mas claro, sempre deixando claro que os personagens consistem apenas em “respirar” celebridades como Paris Hilton, Kirsten Dunst, Lindsay Lohan, Rachel Bilson (de The O.C), Orlando Bloom, e destilar marcas como Chanel, Tiffany, Dion Yves, Saint Laurent e Rolex pelas redes sociais. Uma verdade há de ser dita: sua estética é louvável.

Mas, se por um lado a filha de Francis Ford Coppola exibe o seu próprio traço, o longa-metragem perde ao não abordar mais a fundo uma história tão interessante. No fim das contas, todos os roubos soam fáceis em demasia (reza a lenda que Paris Hilton realmente deixava a chave de casa em baixo do tapete, mas mesmo assim…), a ponto de descobrir o endereço de qualquer celebridade pesquisando no Google. Os depoimentos ao longo dos 90 minutos de projeção são completamente desnecessários.

Detalhes curiosos, como o fato de o único homem do grupo ter sido o “traidor” e ter revelado as principais peripécias durante os roubos para a polícia, além de uma das jovens ter dividido a prisão com Lindsay Lohan após praticar um golpe contra a própria, são apenas citados. A relação dos pais com os filhos, que deveria ser essencial para a crítica à formação de caráter dos personagens, também é trabalhada de forma vazia, se resumindo a uma mãe (vivida por Leslie Mann) perguntando para as filhas quais são as qualidades de Angelina Jolie.

Elenco jovem

Para completar, a cineasta tira dos atores a oportunidade de conferir uma maior profundidade, tornando-os tão superficiais quanto às pessoas que eles interpretam. No fim das contas, só se vê em cena os esterótipos: a líder da quadrilha (Katie Chang), a mais falsa e ambiciosa de todas (Emma Watson, a eterna Hermione da saga de ‘Harry Potter’), sua meia-irmã que apenas segue os seus passos (Taissa Farmiga), o jovem com tendências homossexuais que vê no grupo um refugo (Israel Broussard) e uma que se destaca apenas pela beleza (Claire Julien).

É normal que todo fã de Sofia Coppola aguarde um novo Encontros e Desencontros (2003), de longe o seu melhor trabalho. Bling Ring funciona, mas, por insistir em demasia nas próprias pretensões, a cineasta acaba por entregar um projeto que visivelmente poderia ser melhor trabalhado. Inferior ao ótimo As Virgens Suicidas (1999), o bom Um Lugar Qualquer (2010) e mesmo ao regular Maria Antonietta (2006), Bling Ring, mesmo com muitas qualidades, deixa a desejar.

Nota: 6,0

Deixe um comentário