Crítica: “Kick-Ass 2″ é inferior ao primeiro, mas ainda eficiente

“Kick-Ass – Quebrando Tudo” (Kick-Ass, 2010) foi um sucesso de críticas ao adaptar com primor para as telonas a HQ de Mark Millar e John Romita Jr, trazendo super heróis nerds, sem poderes, numa peculiar mistura de humor com violência gratuita. A continuação, “Kick-Ass 2″, perde em qualidade com a ausência de Matthew Vaughn na direção, mas mantém a essência que transformou o anterior em um novo cult.

Na história, o ato do adolescente Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) em se vestir como o super-herói Kick-Ass serviu de inspiração para pessoas agirem de modo semelhante. Enquanto ele está afastado da vida dupla, a garota Mindy (Chloë Moretz) divide o tempo entre o colégio e defendendo os inocentes sob a alcunha de Hit-Girl. Paralelo a isso, os novos heróis se juntam a uma equipe liderada pelo Coronel Estrelas e Listras (Jim Carrey) e o vilão Chris D’Amico (Christopher Mintz-Plasse) prepara uma vingança, agora sob o nome de Motherfucker.

Mudança de comando

A principal qualidade de Matthew Vaughn é que ele tem uma visão diferenciada em um projeto que conduz, principalmente se for inspirado em histórias conhecidas. Foi assim com “Stardust: O Mistério da Estrela” (Stardust, 2010) e “X-Men: Primeira Classe” (X-Men: First Class, 2011). No primeiro “Kick-Ass”, a piada de ver jovens desengonçados usando fantasias ridículas funcionava, aliada a grandes cenas de ação, recheadas de sangue. Um verdadeiro deslumbre nerd, como se Quentin Tarantino assumisse uma adaptação alternativa “Watchmen”.

Optando por retornar apenas como produtor executivo, Vaughn passou o bastão para o limitado Jeff Wadlow, de “Quebrando Regras” (Never Back Down, 2008), que assumiu também o roteiro. Sem a entrega “de coração” e, muito menos, o talento do diretor anterior, Wadlow opta por se manter na zona de conforto, apenas copiando o estilo. Pela falta de tato, é muito mais perceptível na sequencia a existência de diálogos rasteiros e redundantes, além da inclusão de cenas desnecessárias (uma delas, por sinal, grotesca envolvendo excrementos humanos).

Espírito fiel

Se antes era divertido ver o jovem Dave Lizewski sem a menor vocação para ser herói e a garotinha Mindy era uma atração à parte por ser uma ninja em um corpo de uma meiga criança, agora não há mais novidade. Ela está crescida e Kick-Ass continua o mesmo, de modo que os personagens ainda são prejudicados pela trama pouco criativa. Mas que uma coisa fique clara: o espírito está lá, com diversão garantida para os que simpatizaram com os personagens.

Assim, os ingredientes foram mantidos: Hit-Girl deferindo socos e chutes, Kick-Ass tentando se enturmar com um bando de seres esquisitos e o vilão vivido por Christopher Mintz-Plasse (o eterno McLovin, de SuperBad, 2007) garantindo boas tiradas cômicas, etc. Referências diversas ao universo nerd, como Stan Lee e os próprios Mark Millar e John Romita Jr (autores da HQ), e lembranças do Big Daddy, personagem de Nicolas Cage do primeiro, nos lembram que a franquia está viva.

Ação e humor

O humor ainda funciona, mesmo que se segure apenas no visual – como o uniforme sadomasoquista de Motherfucker ou o corpo musculoso da Mãe Rússia – e nos nomes propositalmente nonsense dos personagens (tem a Night Bitch, o Tumor, e por aí vai…). Há até uma gag envolvendo um tubarão “quieto” que garante bons risos.

As cenas de ação estão ainda mais grandiosas e sanguinolentas (às vezes até em exagero…). Algumas são bem interessantes, como o ataque à gangue de mafiosos chineses e a do resgate na van em movimento. E é preciso assumir: Jeff Wadlow sabe conduzir bons combates, com conhecimento nas artes marciais mistas.

Personagens divertidos

Mais uma vez, a carismática Chloë Grace Moretz rouba a cena como a Hit-Girl, mantendo as mesmas feições inocentes, agora no auge da insegurança da adolescência. Dentro da proposta de trazer personagens reais em situações bizarras, ela é a que mais se sente à vontade com o roteiro abordando a sua dificuldade em se relacionar com garotas fúteis da sua geração, que pensam apenas em sexo e deslumbram por cantores teens.

Se Aaron Taylor-Johnson pouco mudou em relação ao original (agora com maior maturidade), e Christopher Mintz-Plasse está exagerado de propósito para garantir o timing cômico do vilão, Jim Carrey se destaca como o Coronel Estrelas e Listras. Chamado para ser o “nome de peso” do elenco, o humorista diverte no pouco tempo que aparece como um um ex-integrante da máfia, agora evangélico, falando com voz grossa e dentes sujos.

Um terceiro episódio de “Kick-Ass” ainda é uma incógnita por causa da recepção desse segundo episódio, visto injustamente com o olho torto por muitos fãs do original. Há defeitos, mas a franquia mostra que tem pano na manga para garantir mais divertimento.

Nota: 7,0

Deixe um comentário