
Quando escrevi sobre o primeiro “Jogos Vorazes” (The Hunger Games, 2012), destaquei que a nova série de adaptações de livros de sucesso recentes (de Suzanne Collins) se diferenciava bastante de modinhas, como “A Saga Crepúsculo”, por não infantilizar o seu público, apresentando um bom grau de maturidade.
Nesta continuação, intitulada “Em Chamas” (The Hunger Games: Catching Fire, 2013), o resultado consegue ser ainda superior, fortalecendo o teor crítico, porém, sem perder as raízes de uma superprodução e ainda prepara de maneira eficiente o clímax que está por vir no episódio final.
Na trama, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson) viajam em turnê após vencerem a última edição dos Jogos Vorazes. Porém, os organizadores estão insatisfeitos após o final frustrante, do ponto de vista deles, do reality show. Enquanto isso, uma rebelião dos 12 Distritos contra a opressiva Capital é iniciada. Como forma de despistar o contexto social, Katniss e Peeta são obrigados a participar de uma edição especial dos jogos, o Massacre Quaternário, envolvendo os campeões das últimas edições.
Crítica social
Se o primeiro apresentava bem a maneira peculiar de um “show business”, em que jovens se banhavam de sangue enquanto patrocinadores lucravam alto, os organizadores não hesitavam em manipular o resultado e alterar as regras o tempo todo, e o público de casa delirava com tudo isso, a sequencia fortalece ainda mais o contexto social-político. Com um cenário de guerra cada vez mais aguçado e com a população em geral vivendo em regime de opressão da Capital, o roteiro de Michel Arndt (Toy Story 3, 2010) e Simon Beaufoy (127 Horas, 2010) reproduz o reality show como uma lavagem cerebral para controlar o ímpeto do povo, a ponto de manter a ditadura, deixando as vidas em segundo plano.
“Enquanto no Distrito 12 as pessoas passam fome, aqui as pessoas vomitam para comer mais”. Essa frase proferida pelo personagem Peeta Mellark reflete bem o teor de “Jogos Vorazes: Em Chamas”, num fantasioso (mas enraizado na realidade) mundo em que a violência e as desigualdades sociais são predominantes. Assim, a “cúpula” dos jogos, formada pelos veteranos atores Donald Sutherland e Phillip Seymor-Hoffman (grande adição ao elenco!) ganha maior importância justamente por servir como intermédio dessas classes. Afinal, se o instinto rebelde de Katniss estaria estimulando a população, nada como frustrar o povo fazendo-os vê-la matando aliados e, por fim, morrendo para acabar de vez com qualquer influência.
Mudança de direção
O competente diretor Francis Lawrence (“Eu Sou A Lenda”, 2007) substitui de maneira digna Gary Ross (“A Vida em Preto e Branco”, 1998), mantendo o clima tenso em detrimento do exagero de efeitos especiais, apesar do orçamento de US$ 140 milhões (o primeiro custou US$ 88 milhões). O cineasta mostra o seu diferencial, principalmente na condução das cenas mais escuras e nebulosas, as quais soavam meio confusas sob a condução de Ross, além de usar com precisão o artifício dos closes nos rostos.
A ação está lá de maneira funcional, mesmo que os novos Jogos Vorazes soem como uma repetição do anterior, mas com cenas bastante criativas (e mais uma vez com certo grau de violência para uma produção de apelo popular), como o ataque da névoa e o combate contra macacos.
Grande elenco
A agora vencedora do Oscar (por “O Lado Bom da Vida”, 2012) Jennifer Lawrence mais uma vez se destaca no papel da protagonista, repetindo o poderio de Katniss Everdeen diante das autoridades e dos demais participantes, mas ainda com a insegurança de quem se sente deslocada na realidade em que se encontra. Com maior peso nos ombros, já que sua imagem representa o espírito da revolução popular, a atriz ainda transmite leveza, sem cair no marasmo, mesmo com a indecisão de sentimentos por Peeta ou Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), a sua paixão no “mundo real”.
Se Josh Hutcherson se mantém apenas como uma sombra de Jennifer, ele segue cumprindo bem o papel de “jovem tímido e apaixonado”. O força do elenco coadjuvante ajuda a garantir o bom resultado: Woody Harrelson (ótimo como o beberrão Haymitch Abernathy!), Elizabeth Banks, Stanley Tucci e o músico Lenny Kravitz retornam, ganhando agora o reforço de Jeffrey Wright (o excêntrico expert em tecnologia Beetee), Lynn Cohen (a curiosa velhinha no meio da matança), Amanda Plummer (Wiress, a igualmente esquisita companheira de Beetee) e do novato Sam Claflin (o galã Finnick Quell, que tem participação importante a partir do segundo episódio).
Sem mais a necessidade de apresentar todo o cenário, “Jogos Vorazes: Em Chamas” cumpre com primor a tarefa de aprofundar aquele universo e servir de ponte para a guerra que será travada em “Esperança”, último livro da saga, que será dividido em dois longas-metragens. Em um mundo em que os jovens de hoje são “presenteados” com produções que parecem duvidar de suas inteligências, a nova franquia se consolida como um “tapa na cara” da sociedade atual, sem perder o cunho de entretenimento.
Nota: 9,0