
O cinema já tratou de diversas maneiras personagens gananciosos e de personalidades questionáveis, sejam inspirados na vida real ou não. Gordon Gekko (Michael Douglas, de “Wall Street”, 1978), Patrick Bateman (Christian Bale, de “Psicopata Americano”, 2000) ou Tony Montana (Al Pacino, de “Scarface”, 1983), cada um com suas peculiaridades, atraíam o público de forma envolvente.
Mas o cineasta Martin Scorsese consegue, nesse “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, 2013), – indicado aos Oscars de Melhor Filme, Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Diretor (Scorsese) e Roteiro Adaptado – divertir o espectador através de alguém desprezível ao extremo, em uma abordagem criativa e ousada.
O enredo
Baseado no livro autobiográfico de Jordan Belfort (vivido no longa por Leonardo DiCaprio), a trama mostra o início do figurão em uma corretora de Wall Street. Demitido após um incidente em que as bolsas de vários países caíram repentinamente, ele acaba se destacando em uma empresa pequena, que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros parceiros, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente, levando uma vida dedicada ao prazer, com muitas drogas e sexo.
Escola clássica
Primeiramente, é impossível não referenciar o novo trabalho de Scorsese às propostas já apresentadas por ele próprio em “Os Bons Companheiros” (1990) e “Cassino” (1995). O primeiro, ao mostrar o olhar de um único personagem sob toda a instituição criminosa que o cerca, tendo a mesma quase como uma família. O segundo, ao abordar o dinheiro como força motriz para toda a ganância. Afinal, para que serve tanta grana se não for para ostentar, na visão de tais seres sem escrúpulos? E aqui, o luxo é consumir todo o tipo de entorpecente e fazer sexo com o maior número de pessoas, em orgias que não se limitam a nenhum local, seja um avião ou o escritório da empresa.
Sexo, drogas e risadas
Mas o grande mérito do consagrado diretor é contar uma História tão pesada, seja em termos criminais ou na escatologia propriamente dita, em algo leve e plausível de constantes risos para quem está do outro lado da tela. A começar pela narração em primeira pessoa, em que o personagem Jordan Belfort conversa constantemente com o espectador, como se estivesse rindo de tudo o que lhe aconteceu. De um modo geral, chega a ser impossível não se divertir com os devaneios e as loucuras sexuais dos personagens, em situações que soam bizarras, quase como um universo paralelo, exatamente como Jordan e seus amigos sempre se imaginavam.
Tal “leveza” na narrativa em meio a cenas tão pesadas (sim, a censura é 18 anos) é graças à condução fora do lugar comum de Scorsese. Curioso analisarmos através das perspectiva do próprio Jordan Belfort situações distorcidas, como a cor da sua Ferrari que muda repentinamente, ou acreditarmos que o veículo chegou inteiro enquanto ele dirigia sob efeito de drogas. É como se entrássemos nos próprio universo paranoico do personagem, que chega a enxergar um avião explodindo na sua frente, e não sabemos o que é verdade ou não. Até um paralelo entre o poder adquirido por Popey ao ingerir espinafre e o de um homem ao cheirar cocaína surge como um dos momentos mais divertidos, por mais forte que a cena seja.
Anti herói ou um idiota?
Por se basear em uma história real, o roteiro de Terence Winter (da série “Família Soprano”) acerta ao não cair numa trama comum e curiosa sobre trambicagem, algo que seria semelhante a “Prenda-Me Se For Capaz” (2002). A produção opta por destilar todo o exagero presente na rotina de Jordan Belfort, num processo de degradação humana que ele e sua turma considera como “felicidade”, deixando nas entrelinhas toda a ruptura do bom senso, as humilhações e abuso de poder em prol do próprio prazer. O longa não tenta condenar X ou Y, apenas joga através de imagens e diálogos cheios de piadas criativas e irônicas, o quanto é cômico (e lamentável) tal estilo vazio de vida. É o “rir para não chorar”!
Não tem como negar que Jordan Belfort é um cara inteligente, com ampla visão de negócios e uma aptidão ímpar para persuasão. Porém, o longa de Scorsese em nenhum momento esconde que o cidadão é um sociopata perigoso, independente de julgamentos sobre o jeito libertino de ser. Em meio a toda a luxúria, é traindo suas esposas e praticando golpes caríssimos em pessoas inocentes (debochando em demasia delas pelo telefone, mostrando o seu desprezo pela clientela) que ele alimenta as suas diversões. Isso, sem hesitar em tentar corromper um policial sendo simpático (apenas até onde ele consegue) e até mesmo humilhando uma mulher, que depois descobrimos que necessitava de dinheiro, ao raspar o seu cabelo na frente de todos.
Monstro DiCaprio
E finalmente: Leonardo DiCaprio é a alma do filme! Sem dúvida, o longa não seria tão bem sucedido se não fosse pela total entrega do astro, em uma performance lunática. Indicado pela quarta vez ao Oscar, o ator merece todos os méritos, seja ao gemer feito uma mulherzinha com uma vela enfiada no ânus (!) ou na impagável cena em que precisa se contorcer todo quando está paralisado sob efeito de drogas. O elenco coadjuvante é outra atração à parte, com destaque para o comediante Jonah Hill (indicado pela segunda vez), o gordinho que aproveita todo o “sucesso” para enfim ganhar notoriedade. Já Matthew McConaughey, soberbo como o chefe que introduz Jordan no mundo da bolsa de valores, consegue roubar a cena até do protagonista, nos poucos minutos que aparece.
Três horas…mas vale!
“O Lobo de Wall Street” peca apenas pela edição, um tanto apressada para que fosse inscrito nas premiações, já que cerca de 20 minutos das longas três horas de projeção poderiam ser cortadas, deixando o produto final mais limpo. Não chega a ser louvável como outros filmes do cineasta, como os já citados nessa crítica, ou também “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980) ou mesmo “Os Infiltrados” (2006). Mas se mostra mais um interessante estudo sobre seres humanos em situações extremas.
Nota: 9,0