Crítica: “47 Ronins” é mais um fraco enlatado americano

Diversos filmes já buscaram retratar o espírito da cultura samurai, alguns de maneira primorosa, como “Os Sete Samurais” (1954), “Harakiri” (1962), “Kagemusha, a Sombra do Samurai” (1980) e “Trono Manchado de Sangue (1957)”. Outros, de cunho de superprodução, mas que funcionavam dentro dos seus propósitos, como “O Último Samurai” (2003), estrelado por Tom Cruise. Já esse novo “47 Ronins” (47 Ronin, 2013) em nada lembra a tradição oriental e sequer funciona como entretenimento passageiro, se saindo apenas como mais um esquecível produto comercial estadunidense.

A história

A trama apresenta Kai (Keanu Reeves), um mestiço que vive em Ako desde quando era garoto e nutre uma paixão por Mika (Ko Shibasaki), filha do lorde Asano (Min Tanaka). Asano morre após um plano do shogun Tsunayoshi (Cary-Hiroyuki Tagawa) e, com isso, Oishi (Hiroyuki Sanada), o líder de um grupo de samurais renegados,  recorre a Kai e o grupo parte em busca de vingança para restaurar a honra de sua terra natal.

Trama rasteira

A própria lenda japonesa sobre os 47 samurais sem mestre durante o século 18 já fora abordada no cinema em “A Vingança dos 47 Ronins” (1941), de Kenji Mizoguchi, em “Os Vingadores” (1962), de Hiroshi Inagaki, entre outros. A nova produção até tenta resgatar alguns valores sobre lealdade, coragem e vingança, como o ato suicida simbolizando uma forma de honrosa de morrer. Mas além do plano do renegado grupo de honrar o falecido líder buscando a vingança, todos esses conceitos são jogados de maneira extremamente superficiais.

O roteiro de Chris Morgan (“Velozes e Furiosos 4, 5 e 6 – 2009, 2011 e 2013) e Hossein Amini (“Drive”, 2011) segue os moldes de uma produção sem pretensões, girando em torno da batida história do homem que sofre preconceito por ser um mestiço, mas luta em nome do amor pela garota que nunca poderá ter por causa das diferenças étnicas. A pouca criatividade e a falta de algo novo acaba por tornar as duas horas de projeção bem mais arrastadas do que deveriam, ainda mais por se tratar de um tema que tanto tem a oferecer.

E não é porque o longa-metragem mostra os orientais falando em inglês, trazem um americano como protagonista e vários elementos fantasiosos que tiram o valor da produção, já que são detalhes entendíveis, falando em termos de mercado. Mas se prender a um casal que não tem a menor química, feitiços, demônios e dragões, quando mal sabemos quem são os tais dos 47 Ronins do título, é difícil de engolir. É sério, todos não passam de figurantes e, ao final, só lembramos do rosto do líder e do gordinho desengonçado que funciona como alívio cômico.

Ação correta

O diretor estreante Carl Erik Rinsch faz o que pode dentro de suas limitações e conduz algumas cenas de ação eficientes e sem exagero, tendo como destaque a negociação/teste com os seres de outro mundo em uma caverna. Mas são poucos os momentos em que consegue mostrar serviço, já que até a aventura é restrita. Por sinal, algo pequeno para uma produção que custou incríveis U$ 175 milhões (e diga-se de passagem, está suando para se pagar mundialmente) e apresenta efeitos especiais apenas corretos, nada que já não tenhamos visto antes.

Keanu é…Keanu

Mas ainda há algo pra se impressionar: Keanu Reeves se supera quando quer ser o ator mais inexpressivo do mundo, transformando Murilo Benício em um Jack Nicholson na frente dele. Sem nunca alterar a feição, seja com medo ou apaixonado, o Neo de Matrix está lá, mas de barba e com espada na mão. Pelo menos temos em cena Hiroyuki Sanada, astro de “O Samurai do Entardecer” (2002), “A Lenda dos Oito Samurais” (1983), entre outros clássicos do gênero.

Resultado frustrante

Com trama rasteira e sem inteligência, “47 Ronins” pode até agradar por causa de algumas boas cenas de ação, detalhes fantasiosos interessantes, além de aqui e acolá relembrar a tradição de uma cultura esquecida. Mas por tudo aquilo que a doutrina samurai pregava, algo tão rasteiro merece cair no esquecimento, sem direito a um fim honroso.

Nota: 3,0

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