Crítica: ‘Trapaça’ funciona pelo humor refinado e o ótimo elenco

Com apenas sete filmes no currículo, o diretor David O’Russell já pode ser considerado o novo queridinho de Hollywood, emplacando seus três últimos projetos – “O Vencedor” (2010), “O Lado Bom da Vida” (2012) e “Trapaça” (2013) – entre as principais indicações ao Oscar nos últimos quatro anos. Seu projeto mais recente, “Trapaça” (American Hustle, 2013), é o mais fraco entre os títulos citados.

Fato é que ver que a produção ser indicada a 10 Oscars – Melhor Filme, Diretor (David O’Russell), Ator (Christian Bale), Atriz (Amy Adams), Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Roteiro Original, Edição, Direção de Arte e Figurino –  pode transmitir uma falsa impressão, pois nem de longe é o melhor filme do ano. Mas não tem como negar que um elenco de primeira qualidade, conduzido pela direção refinada Russell, garante um produto diferenciado.

A história

A trama apresenta Irving Rosenfeld (Bale), um grande trapaceiro que trabalha junto da sócia e amante Sydney Prosser (Adams). Os dois são forçados a colaborar com um agente do FBI (Cooper), infiltrando o perigoso mundo da máfia. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner). Tudo encaminha para dar certo, até a esposa de Irving, Rosalyn (Lawrence), atrapalhar os planos.

Caricaturas em cena

Baseada em uma operação do FBI no fim dos anos 70 e no começo dos anos 80 que, de fato ocorreu, a produção já mostra seu cunho na abertura, ao revelar que “parte” da trama é inspirada em fatos reais. O grande mérito de David O’Russell é justamente usar os acontecimentos como pano de fundo para destilar o seu peculiar tipo de humor através de personagens caricaturais. Assim, o que poderia facilmente ser um filme policial convencional, surge como uma grande brincadeira, propositalmente marcada pelo exagero.

Logo na primeira cena, quando conferimos um take da barriga avantajada de Christian Bale, seguida dele passando cola em sua peruca, nos deparamos que o bizarro é uma constante da produção. O roteiro de Eric Warren Singer e do próprio Russell cria muitas situações cômicas a partir do desenrolar do plano, com destaque para a cena da negociação com o personagem de Robert De Niro (em ótima participação especial), satirizando os seus conhecidos filmes de máfia. A riqueza dos diálogos, repletos de ironia, já garante a leveza de maneira natural.

Elenco de primeira

E ver um bando de desajustados, de aparência incomum, trabalhando em um plano para desmascarar os mais altos figurões da política é apenas o pretexto de “Trapaça”. Afinal, é a força do elenco que garante o sucesso! Christian Bale, em mais uma drástica transformação visual, encarna uma espécie de “bicheiro” que diverte com o jeito atropelado de falar e, apesar do caráter duvidoso, soa humano ao mostrar fidelidade aos amigos, ao amar o filho adotivo e ao se desesperar ao ver a mulher amada ameaçada.

Amy Adams, por sua vez, está perfeita como uma bela mulher que, por trás da onipresença, está o mistério de alguém que pode ser até mais sádica do que o parceiro. Bradley Cooper, com bobes no cabelo, mais uma vez convence como o policial que buscar impôr autoridade (e consegue em partes, mesmo que precise espancar o seu superior), mas vive à sombra de uma mãe autoritária, de uma noiva que nunca menciona e acaba por sempre ser o “pateta” dos personagens mais espertos.

Jennifer Lawrence continua a provar ser uma das melhores atrizes de sua geração, mesmo no papel de alguém que visivelmente deveria ser de alguém mais velha. Sendo a única a estar por fora do plano policial, ela rouba a cena como a esposa desequilibrada (e como qualquer pessoa desse tipo, independente do sexo, se considera a mais madura de todas). Ela é responsável por bons momentos cômicos, seja apenas explodindo um microondas ou numa inusitada performance de “Live and Let Die”, de Paul McCartney. Jeremy Renner é o mais discreto, mas nem por isso menos eficiente, justamente por ser o personagem menos caricato.

Visual e trilha eficientes

Contando com um soberbo trabalho de direção de arte de Jesse Rosenthal captando a aura dos anos 70, assim como do figurinista Michael Wilkinson, que reforça o visual brega, “Trapaça” é movido quase por um estilo noir por David O’Russell, como se tratasse de algo sério, o que obviamente não é.

Destaque também para a excelente trilha-sonora, contando com os clássicos The Coffee Song (Frank Sinatra), It’s De-Lovely (Ella Fitzgerald), Delilah (Tom Jones), Goodbye Yellow Brick Road (Elton John), How Can You Mend A Broken Heart (Bee Gees), The Jean Genie (David Bowie), entre outros.

Resultado

Falhando um pouco pela quebra de ritmo ao longo dos 138 minutos de duração, “Trapaça” pode até ter sido superestimado pela Academia, mas é digno de qualquer prêmio de atuação, além dos técnicos. David O’Russell não é um cineasta genial, mas se conseguir manter o bom nível de seus filmes (o que vem mostrando desde o pouco reconhecido “Três Reis”, 1999), já está de ótimo tamanho.

Nota: 8,0

Deixe um comentário