
Criado por Ishirô Honda em 1953, o monstro Godzilla já ganhou nada menos que 28 filmes orientais, além da fraca versão hollywoodiana de 1998, dirigida por Roland Emmerich e estrelada por Matthew Broderick. Ultrapassando a barreira dos 60 anos, o anfíbio gigante volta a ganhar uma releitura estadunidense, porém, desta vez, honrando suas tradições e convencendo, mesmo que o resultado final pudesse ser ainda mais eficiente caso o personagem-título tivesse o destaque que merecia.
Sinopse
Na trama, Joe Brody (Bryan Cranston) presencia um acidente que provoca a morte de várias pessoas na usina nuclear em que trabalha, no Japão. Ele nunca aceitou a catástrofe e, quinze anos depois, continua investigando o acontecido. O filho, Ford Brody (Aaron Taylor-Johnson), se torna soldado do exército americano e, ao reencontrar o pai, descobre que tal acidente teve ligação com criaturas monstruosas que podem ameaçar a estabilidade da população. A maior delas, como é de se esperar, trata-se de Godzilla.
Referências e mudanças
Diferente do que fora feito em 1998, quando trouxeram um lagarto gigante, fêmea e que se reproduzia de maneira assexuada para destruir Nova York, o novo “Godzilla” (idem, 2014) prima por encher de homenagens a versão original. Começando pelo fato de parte de trama se passar no Japão, além de inúmeras referências a sua criação, como o navio japonês que fora atacado em 1954 (cena de abertura do primeiro filme) e expressões características, como “Rei dos Monstros” e a famosa “Gojira”.
Sua origem fora alterada. Ao invés de o monstro ser uma mutação em consequencia dos ataques nucleares, agora ele já existia no mundo e fora mantido em sigilo pelas autoridades. Mas nada que fere a tradição do personagem, pois todo o teor social sobre pânico aos ataques nucleares está bem explícito, começando pelo interessante fato de os “testes” com as bombas em 1954 terem sido, na verdade, ataques ao Godzilla. O Dr. Ishiro Serizawa, personagem de Ken Watanabe, também cumpre bem esse papel de representar tal medo ao citar Hiroshima e preferir que os problemas “se resolvam por si próprios”.
Em meio a essas pequenas mudanças, o roteiro de Max Borenstein e Dave Callaham (de “Os Mercenários 1 e 2”) atualiza os conceitos do pavor da população ao associar os monstros a desastres naturais, como tsunami no Havaí e o furacão em Nova Orleans, em que civis se refugiaram em um estádio de futebol, assim como no filme. Porém, a trama pouco foca tais catástrofes, dando atenção em demasia ao personagem principal Ford Brody, vivido por um inexpressivo Aaron Taylor-Johnson (“Kick-Ass” 1 e 2, 2010, 2013).
Elenco mal aproveitado
O começo é bastante promissor ao apresentar Joe Brody (Bryan Cranston, da série “Breaking Bad”) e sua esposa Sandra (a veterana Juliette Binoche), seguido da impressionante cena do acidente na usina nuclear em que trabalham. Mas quando a trama avança 15 anos, apenas o filho crescido ganha atenção, com o roteiro buscando a todo custo dar-lhe a alcunha de herói. O que é de se lamentar, pois Cranston, além do já citado Watanabe, mostram carisma o suficiente para enriquecer muito a produção. De resto, vários nomes talentosos são mal aproveitados em papeis que poderiam ser substituídos por qualquer um, casos de Elizabeth Olson, Sally Hawkins e David Strathairn.
Ação de qualidade
Mas o grande mérito de “Godzilla” foi a escolha do desconhecido Gareth Edwards (do pouco visto “Monstros”, 2010) para a direção, que trabalha bem o suspense psicológico escondendo ao máximo as criaturas ao invés de focar na ação desenfreada, seguindo exemplos como “Cloverfield – Monstro” (2008) e o coreano “O Hospedeiro” (2006). Até durante a aparição do primeiro vilão “MUTO” (sigla de Massive Unidentified Terrestrial Organism) ele tem a máxima cautela, apresentando uma parte de cada vez, sempre com uma fotografia escura até o final da projeção.
E é preciso reconhecer: Edwards tem vocação para cenas de ação e destruição em massa, sem precisar enlouquecer o espectador ao estilo Michael Bay. Cenas como o ataque do trem em chamas e, principalmente, a do pouso de pára-quedas com a câmera em primeira pessoa no personagem de Aaron Taylor-Johnson enquanto os monstros duelam em meio a névoas, são de encher os olhos. Tudo isso contando com efeitos especiais impecáveis, efeitos sonoros marcantes (o rugido do Godzilla que é utilizado ao fim do trailer é memorável) e a trilha sonora de Alexandre Desplat não deixa nada a desejar. Em IMAX, a sensação é ainda potencializada, porém, é preciso deixar claro: o 3D é quase inexistente, completamente descartável.
Finalmente, ele!
Se falta algo a superprodução, é justamente o personagem o título. Se por um lado o diretor acerta no suspense ao escondê-lo até metade da projeção, por outro, ele derrapa ao não explorá-lo como poderia. Com um visual bastante estiloso, remetendo ao design clássico (e não àquele Tiranossauro Rex gigante do filme de 1998), o “Rei dos Monstros” é responsável pelos melhores momentos, principalmente quando duela com os dois “MUTOs”, em homenagens que levarão os fãs à loucura (duas em específico já podem ser consideradas cenas icônicas). Pena que tudo isso só acontece no clímax! Agindo como um legítimo anti-herói ao invés de apenas uma ameaça monstruosa aos humanos, Godzilla rouba a cena, mas tem pouca vez no próprio filme.
Resultado balança mas agrada
Apesar de não explorar mais a fundo o seu maior apelo e perder o foco para personagens desinteressantes, a Warner Bros. e a Legendary Pictures conseguem a missão de apresentar o personagem para a nova geração, deixando boas homenagens aos saudosistas. Com continuação já confirmada, já que a produção está fazendo bonito nas bilheterias, é de se esperar que esse seja apenas um introdução para uma franquia que tende a trazer boa diversão. A mariposa gigante Mothra que o aguarde…
Nota: 7,5