Crítica: Novo ‘As Tartarugas Ninja’ não honra o carisma das personagens

Criados por Kevin Eastman e Peter Laird, as Tartarugas Ninja têm um longo percurso no universo pop, incluindo três gerações de desenhos animados para TV, três longas metragens em live-action (1990, 1991 e 1993) e um quarto mais recente em animação 3D (2007), além de diversas histórias em quadrinhos e games que marcaram gerações a partir dos anos 80. Agora, os personagens ganham uma nova releitura, misturando atores reais e computação gráfica, sob a produção do megalomaníaco Michael Bay e direção de Jonathan Liebesman. “As Tartarugas Ninja 3D” (Teenage Mutant Ninja Turtle, 2014) até tem seus bons momentos, mas não honra a tradição que os comedores de pizza bons de briga mereciam.

Sinopse

Na trama, a cidade de Nova York está tomada por uma organização mafiosa demoninada Clã do Pé. A esperança surge em Leonardo, Raphael, Michelagelo e Donatello, quatro irmãos tartarugas que sofreram experiências quando filhotes e, após crescerem no esgoto sob a tutela do rato Splinter, se tornaram especialistas em artes marciais. Eles precisam trabalhar com a repórter April O’ Neil (Megan Fox) e seu operador de câmera Vern Fenwick (Will Arnettt) para salvar a cidade e desvendar o plano diabólico do Destruidor (Tohoru Masamune) e do empresário corrupto Eric Sacks (William Fichtner).

Visual estiloso

De cara, é preciso reconhecer a eficiência da técnica para a criação digital das tartarugas. A captação de movimentos dos atores Pete Ploszek (Leonardo), Alan Ritchson (Raphael), Noel Fisher (Michelangelo) e Jeremy Howard (Donatello), substituindo as fantasias e borracha dos longas dos anos 90, agora permite uma maior realidade nos movimentos. As personagens agora têm aparências mais assustadoras e tamanho ampliado, funcionando bem o paradoxo com as personalidades bondosas que possuem. Indo no embalo dos filmes de super heróis coloridos da Marvel, o novo “As Tartarugas Ninja” conta com um visual bem estiloso que funciona nos dias atuais.

Roteiro problemático

Como esperado, o longa deixa bem definidas as características de cada um: Leonardo é o líder e mais racional da equipe; Raphael é o rebelde mal humorado; Michelangelo é o extrovertido e atrapalhado; e Donatello é o intelectual. Porém, o roteiro escrito por Josh Appelbaum, André Nemec e Evan Daugherty falha justamente por não aprofundar mais nessas personalidades. Elas estão lá, protagonizam cenas de ação, soltam uma piada aqui e acolá, mas ainda é pouco para uma equipe com a missão de conquistar uma nova geração de expectadores. Há boas referências pop, como citações a Batman, LOST, e até um momento “Quase Famosos” (Almost Famous, 2000) durante o clímax, mas o humor, marca tão forte da franquia, ainda fica em falta de um modo geral.

O principal defeito da trama é supervalorizar a importância da repórter April O’ Neil em detrimento das reais protagonistas (por causa do marketing em cima de Megan Fox, claro!), a ponto de ela ter ligação direta com a criação das Tartarugas Ninja. A origem, além de diferente, é tratada de maneira bastante superficial pelo roteiro, se limitando a imagens nos créditos iniciais e uma breve explicação do Mestre Splinter (outro com participação reduzida). E pasmem, chega a irritar o merchandising nada sutil de uma grande rede mundial de pizza, com cenas exclusivamente para esse propósito!

Elenco engessado

Megan Fox é inquestionavelmente linda, mas já mostrou a carência de talento e simpatia em cena, falhando mais uma vez como protagonista. O humorista Will Arnett até tenta trazer alguma graça ao longa-metragem, mas se vê algemado à superficialidade do seu personagem (o câmera apaixonado pela bela repórter). Mais triste ainda é ver a veterana Whoopi Gholdberg (vencedora do Oscar por “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, 1990) relegada a um papel tão insignificante (a editora de April O’Neil) e com tão pouco tempo em cena.

O bom William Fichtner também faz o que pode na pele do empresário Eric Sacks, que tinha tudo para ser o verdadeiro vilão da trama, mas perde espaço ao dividir o cargo com Tohoru Masamune, que pouco fala como Destruidor e muito menos mostra a cara. Fichtner também cai na gafe do roteiro de menosprezar o espectador, necessitando “mastigar” o seu plano para as tartarugas em momento nada apropriado. Já que mudaram tanto a origem das personagens, bem que Eric Sacks poderia ser o próprio Destruidor, não?!

Ação funciona

Não tem como negar que o dedo de Michael Bay na produção a deixa mais pasteurizada e comercial do que o normal, porém, o limitado diretor Jonathan Liebesman (dos fracos “Fúria de Titãs 2”, 2012; e “Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles”, 2011) felizmente se mostra bem mais cauteloso nas cenas de ação. Diferente da franquia “Transformers”, aqui é possível entender tudo o que acontece na tela, com direito a boas sequencias, como a luta no esgoto, a perseguição na neve e, principalmente, o duelo final em cima do prédio. As cenas de luta são bem coreografadas e não deixam a desejar, por mais que ainda se espere mais da sincronia de armas entre as quatro protagonistas.

Resultado regular

“As Tartarugas Ninja 3D” (cujo 3D é totalmente desprezível, diga-se de passagem) está longe de ser uma perda total e garante bons momentos de diversão para quem cresceu com esses exóticos heróis. Mas se depender apenas desse longa-metragem, é difícil criar empatia por eles a ponto de surgirem novos fãs. Uma continuação já está confirmada e, agora, espera-se que o carisma de Leo, Rapha, Mic e Donnie finalmente tomem conta da parada!

Nota: 6,0

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