
O diretor David Fincher tem um currículo invejável. Contando com inúmeros cults como “Seven: Os Sete Crimes Capitais” (1995), “Clube da Luta” (1999), “Zodíaco” (2007), “A Rede Social” (2010), “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (2011), além da websérie “House of Cards” (2013), pode-se dizer que até agora ele não mandou uma bola fora (apesar do questionável “Alien 3”, sua estreia em longa-metragens, em 1992). Agora com “Garota Exemplar” (Gone Girl, 2014), adaptação do best-seller de Gillian Flynn, Fincher segue a primorosa carreira em mais um eletrizante thriller psicológico sobre personagens suscetíveis ao meio em que vivem.
A trama apresenta Nick (Ben Affleck) e Amy Dunne (Rosamund Pike), duas pessoas que se conhecem, se apaixonam, e passam a viver juntos. Anos depois, em plena crise no relacionamento, ela desaparece no dia do aniversário de casamento. Ele começa a agir descontroladamente e, em meio a muitas provas que vão contra ele, se torna o suspeito número um da polícia. Com o apoio da sua irmã Margo (Carrie Coon), Nick tenta provar a sua inocência e, ao mesmo tempo, procura descobrir o que aconteceu com Amy.
Não li ao livro de Gillian Flynn e, por isso, não posso fazer comparativos (apesar de todas as resenhas apontarem fidelidade). Porém, levando em conta que a própria Flynn assumiu o roteiro do filme, percebe-se a cautela nos mínimos detalhes, desde o desenvolvimento dos personagens às vertentes críticas, como a manipulação da mídia sobre fatos. E com David Fincher no comando, já é conhecido que ninguém se torna irrelevante e qualquer cena pode trazer uma reviravolta para o restante da trama.
E ao longo de incansáveis duas horas e meia de narrativa, intercaladas com flashbacks que remetem ao início e a crise do relacionamento entre Amy e Nick, nos deparamos a cada momento com impressões diferentes sobre o que está em cena. De início, vemos o personagem Nick Dunne perdido em meio à investigação do sumiço da esposa. Até que ponto devemos acreditar que ele foi mesmo o culpado pelo possível assassinato da esposa? Quando o mistério finalmente parece ser revelado ao espectador, nos deparamos com um novo filme em cena, iniciando um verdadeiro jogo de xadrez em que não faltam peões como vítimas.
Assim, David Fincher se sente em casa trabalhando com o que sabe de melhor: personagens que, beirando a insanidade, são tão perigosos como humanos. Mesmo em meio ao suspense e a violência, “Garota Exemplar” é uma obra pertubadora sobre família, relacionamentos e, acima de tudo, manipulação. É o sentimento de posse elevado à última potência que soaria até como fictício, se não assistíssemos todos os dias nos noticiários situações familiares, como alguém matando o parceiro(a) por ciúmes ou sequestrando a ex-namorada em cárcere privado (lembram do caso Eloá?).
E falando em noticiários, Fincher trata a cobertura do desaparecimento de Amy Dunne como um capítulo à parte do longa-metragem. Não diferente do que vemos em programas sensacionalistas do mundo real, os telejornais apresentados pelas atrizes Missi Pyle e Sela Ward abordam o caso como um verdadeiro reality show (casos Suzane Richthofen ou Isabella Nardoni…alguém?), controlando a opinião pública e praticamente obrigando a cidade toda a culpar Nick por um sorriso ou por uma foto com uma desconhecida. E à medida em que a trama se desenvolve, ainda é a mídia quem segue a manipular a “verdade” sobre o caso, sem interessar até que ponto tudo está sendo forjado ou não.
Alvo constante de críticas por suas atuações, Ben Affleck finalmente entrega uma performance irretocável. Talvez justamente por não ser levado a sério, o Nick Dunne da hora inicial quase beira o ridículo perante a falta de postura quando a esposa está desaparecida, com sorrisos desconcertados ou dizendo que se sente em um episódio de “Lei e Ordem” ao dar depoimento na delegacia. À medida que os fatos acontecem, Affleck mostra uma angústia decorrente de uma mistura de sentimentos, transmitindo com eficiência o incômodo que vive Nick.
Mas quem rouba a cena mesmo é Rosamund Pike. Mais conhecida por papéis em filmes de ação como os fracos “007 – Um Novo Dia Para Morrer” (2002), “Doom: A Porta do Inferno” (2005) e o razoável “Jack Reacher: O Último Tiro” (2012), Pike é responsável pelo difícil papel de Amy Dunne, uma mulher aparentemente meiga e sofrida por um relacionamento desgastado, mas com uma personalidade bem mais forte do que parece. E chega, pois qualquer informação a mais sobre a personagem pode se tornar spoiler! Vale destacar também o ótimo elenco de coadjuvantes, que conta com a promissora estreante Carrie Coon, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Kim Dickens e Patrick Fugit, todos muito eficientes dentro dos seus propósitos.
Prendendo a atenção do espectador do primeiro ao último segundo (literalmente!), “Garota Exemplar” é mais um exemplo que David Fincher sabe trabalhar personagens sombrios enraizados no mundo real como poucos. Com grandes chances de emplacar indicações nas premiações de 2015 (se Rosamund Pike ficar de fora será um absurdo!), a adaptação é, desde já, um dos melhores filmes de 2014.
Nota: 9,0