Crítica: “O Shaolin do Sertão” repete a fórmula que deu certo em “Cine Holliúdy”

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

No ano de 2012, a comédia “Cine Holliúdy”, de Halder Gomes, foi um verdadeiro fenômeno nas bilheterias dos cinemas cearenses, se apoiando em um humor regional, atraindo os olhares – e prêmios – também do cenário nacional. De quebra, lançou o então desconhecido Edmilson Filho como um nome de potencial para a comédia, contando também com um grande talento para as artes marciais. E como diz aquele velho ditado “Em time que está ganhando…”, a equipe retorna com “O Shaolin do Sertão” (idem, 2016), repetindo a fórmula que deu certo: piadas que satirizam expressões tipicamente nordestinas, a paixão dos seus realizadores por algo em comum (antes era o cinema, agora o mundo da luta), e uma boa trilha sonora regada a Fagner, Odair José, Reginaldo Rossi e Fausto Nilo.

A trama se passa no início dos anos 80, na cidade de Quixadá, no interior do Ceará. Aluizio Li (Edmilson Filho) é um padeiro que tem o grande sonho de ser mestre de artes marciais como o dos filmes orientais de lutas. Visto como uma piada entre os moradores do município, ele vê uma oportunidade quando lutadores de Vale-Tudo vão para o sertão para participar de um torneio. Então, Aluizio vai buscar ajuda do mestre Chinês (Marcondes Falcão) para treinar e encarar Toni Tora Pleura (Fábio Goulart), o maior astro da modalidade.

Em nenhum momento o roteiro de L.G Bayão (“Heleno”, “Ponte Aérea”) tenta reinventar a roda, já que as referências aos filmes de artes marciais são a força motriz de “O Shaolin do Sertão”, principalmente os estrelados por Bruce Lee (a fita cassete de Aluizio se chama “A Voadora do Dragão”!). A piada sobre a visão idealizada dos astros chineses é bem criativa, em que o protagonista realmente crê que eles são bem altos, diferente dos cearenses “baixinhos e de cabeça chata”. Tem também aquele ar de “O Grande Dragão Branco” (Bloodsport, 1988) e “Karate Kid” (idem, 1984) nas cenas de treinamento, e muito de “Rocky – Um Lutador” (Rocky, 1977), desde correr atrás de galinhas, a um roupão dourado, até a cena símbolo do ídolo caminhando junto aos seus seguidores. Tudo isso bem trazido para uma realidade interiorana brasileira, em que um evento de Vale-tudo em um circo é capaz de parar a cidade e tudo, mas tudo, vira motivo para disputas políticas.

Mais uma vez, as sátiras/homenagens às gírias, principalmente do Ceará, estão lá o tempo todo e vão garantir boas gargalhadas por parte daqueles que se identificam com as mesmas (mas também pode causar estranheza para outras regiões), que raramente são vistas nas telonas. Utilizando bem o talento físico do protagonista para garantir lutas propositalmente irreais, o diretor Halder Gomes também sabe utilizar do saudosismo, como as inesperadas referências ao jogo “Genius” e a famosa “porrinha” em momentos totalmente aleatórios, como uma forma do velho humor pastelão que se encontra em extinção, principalmente se tratando do cinema nacional. Não à toa, o estilo é bem semelhante às comédias dos “Os Trapalhões” que marcaram as décadas de 70 e 80 (Dedé Santana está lá representando o saudoso quarteto).

Halder Gomes, inclusive, volta a fazer um exercício de metalinguagem, principalmente ao utilizar a imagem desfocada durante os devaneios de Aluizio Li, se assemelhando àquelas de VHS sendo transmitidas em TVs “quadradas” – bem interessante o momento logo no início do filme em que um movimento de kata do protagonista parece alongar o tamanho da imagem, se enquadrando ao formato da tela do cinema. Com um orçamento de R$ 3,28 milhões (quase o triplo de “Cine Holliúdy”), percebe-se um maior cuidado com a produção, principalmente na bela direção de fotografia de Carina Sanginitto, valorizando as belas paisagens montanhosas de Quixadá e Quixeramobim através de planos abertos, assim como o figurino, em que as cores fortes das vestimentas do Shaolin, com tons de laranja, vermelho e azul claro, contrastam com o cenário do sertão.

Edmilson Filho se consolida como um ator de talento da atualidade. Ele convence como aquele cara simples e de bom coração, com uma veia cômica aliada à sua plasticidade nos movimentos (ele é faixa-preta 5º dan de Taekwondo) que deve render-lhe muitos trabalhos de destaque. Se a atuação artificial das crianças foi uma das principais falhas de “Cine Holliúdy”, agora é corrigido aqui com o simpático Igor Jansen, o “Piolho”, o menino “assessor” de Aluizio Li e o único a acreditar no seu potencial. O humorista Falcão, na pele do mestre charlatão, garante bons risos, sempre com frases de efeito que não têm sentido algum, ou falando qualquer coisa que parece ter profundidade apenas para não ficar calado (“depois da meia-noite, a tendência é amanhecer”…tipo, sério?!).

Acertada a participação do comunicador João Inácio Júnior, pelo seu grande apelo popular, para ser o apresentador do evento de Vale-Tudo, e do humorista Tirulipa como o “palhaço-juiz”, honrando as origens da família. Intercalando nomes conhecidos nacionalmente, como os experientes Cláudio Jaborandy e Fafy Siqueira, Marcos Veras (do “Porta dos Fundos”) e humoristas cearenses, como Lailtinho Brega e Karla Karenina, trazem a versatilidade do elenco. Ah, Haroldo Guimarães, que roubou a cena em “Cine Holliúdy” como o chato que repetia as coisas, volta a repetir o feito como o fanho Jesus, que precisa de legendas para se entender o que ele diz.

Mas se a comédia é o que puxa a narrativa de “O Shaolin do Sertão”, ironicamente acaba sendo o maior defeito. Na tentativa de fazer o espectador rir a cada momento, o longa é uma metralhadora que atira piadas a todo segundo, sendo muitas delas repetitivas ou que apenas não funcionam, impedindo o maior desenvolvimento dos personagens e da trama em si. É incontável o tanto de “ai dentu” dito por quase todos os atores, ou gags com “os zóvo”. Inclusive, chega a ser constrangedor o excesso de piadas apelativas para flatulências, partes íntimas e mesmo um “exame de toque” em um jumento.

Arrancar graça com os estereótipos também não é uma medida das mais criativas, e lá estão o bêbado, o homossexual, a mulher gorda que não larga a lata de leite condensado, a mocinha bonitinha que serve apenas para ser o objeto de desejo do herói (Bruna Hamú), e por aí vai. Tudo isso prejudicado por uma montagem por vezes problemática, que tenta incluir humor em frames isolados, mas nada justifica a aparição de um urso panda no meio do sertão, por exemplo!

Apesar dos excessos e da inconstância, não tem como negar que “O Shaolin do Sertão” é um filme feito com coração, em meio às dificuldades do mercado cinematográfico nacional, por realizadores que não abandonam as suas origens e levam o regionalismo como principal característica. No fim das contas, o resultado é como uma grande brincadeira que não vai mudar a vida de ninguém, mas certamente vai divertir mais do que a maioria das comédias nacionais que chegam ao circuito com orçamento bem maior, elenco estrelados e em nada justificam as suas realizações.

Nota: 7,0