Crítica: “La La Land: Cantando Estações” é uma bela homenagem aos musicais e ao jazz

Foto: Divulgação
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“Quando você pode ver todos os clichês de Hollywood em um quarto?”. Essa frase é proferida pela personagem Mia, vivida por Emma Stone, em “La La Land: Cantando Estações” (La La Land, 2016), mas que também pode definir o próprio longa-metragem. A produção, que promete fazer um arrastão nas principais premiações de 2017, em nenhum momento tenta ser original, fazendo uma homenagem aos musicais clássicos de Hollywood. Mas é diferente. Ao mesmo tempo em que transborda nostalgia, a obra de Damien Chazelle caminha com as próprias pernas numa trama sobre sonhos e rumos da vida, transfigurando para a linguagem audiovisual o ritmo do jazz num visual deslumbrante.

A trama, situada em Los Angeles, apresenta Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que sonha em ter o seu próprio clube de jazz. Ele acaba se apaixonando por uma atriz aspirante, a sonhadora Mia (Emma Stone). Mas esse amor passa por várias provações, já que começam a se dedicar mais ao trabalho à medida em que vão se tornando bem-sucedidos.

Logo na cena inicial, quando um engarrafamento em uma rodovia dá vez a um grande número musical, para aqueles que não se identificam com o gênero a vontade é de se levantar da cadeira e ir embora na mesma hora. Mas logo percebe-se que aquilo não faz parte do longa, mas sim de outras produções, e está lá de maneira irônica, propositalmente brega. As homenagens estão distribuídas de maneira orgânica, começando pelo pano de fundo da trama em si, do casal que busca realizar os próprios sonhos ligados à arte, já abordado incontáveis vezes pela indústria cinematográfica.

As referências estão presentes o tempo todo, seja de maneiras discretas, como quando Sebastian dá um meio giro no poste, remetendo a “Cantando na Chuva” (Singin’ in the Rain, 1952), e outras mais explícitas, como o número musical de Mia e suas roommates, que muito lembra “Amor, Sublime Amor” (West Side Story, 1961). As danças do casal principal são claramente inspiradas nos longas estrelados por Fred Astaire e Ginger Rogers, como “Ritmo Louco” (Swing Time, 1936) e “Vamos Dançar?” (Shall We Dance, 1937).

A obra não tenta a todo custo emplacar canções para virarem hits – ainda que a belíssima “City of Stars” certamente fica na cabeça após a sessão – ou números que inspirem outras produções. Trata-se de um trabalho feito com paixão pelo seu criador exatamente sobre paixão, das mais variadas formas. Chazelle declarou que sempre o fascinou a ideia dos musicais como uma forma de expressão  em que, ao sair cantando, essas emoções podem violar as leis da realidade. E ele consegue com êxito transpor a imaginação dos personagens através de imagens. Ao mesmo tempo, o jovem diretor de apenas 32 anos (!) escreve a sua carta de amor ao jazz, que tem conduzido a sua curta e bem sucedida carreira, e critica a perda de identidade do ritmo para se adequar ao mercado atual.

Se em “Whiplash” (2014), seu segundo longa-metragem (o primeiro foi o pouco visto “Guy and Madeline on a Park Bench”, 2009), ele abordava a busca incessante pela perfeição, a grande ideia nesse seu terceiro filme foi usar do ritmo como uma metalinguagem para própria condução. A cena em que Sebastian explica como funciona o jazz define a estética de “La La Land”: cada músico improvisa dentro de uma mesma canção, alternando o tempo todo a melodia, enquanto os outros acompanham. Ao mesmo tempo em que duelam, eles se mantêm mais unidos. Aqui, os músicos são substituídos pelos atores e a ordem dos fatos é relativa, assim como o destino de cada um. Não importa o que cada um faz, mas o resultado como um todo está lá e é extremamente agradável – o que rende elogios também ao excelente trabalho de montagem.

Acostumado a interpretar personagens durões, Ryan Gosling faz um ótimo trabalho ao encarnar o sonhador Sebastian, um típico sujeito do bem, que se desloca quilômetros de casa apenas para tomar um café em frente à casa de shows dos seus sonhos, que para a sua indignação virou um lugar de “Samba e Tapas”. Desengonçado, deslocado no meio em que vive, ele capta um pouco de Gene Kelly, um pouco de Astaire, um pouco de Frank Sinatra. Igualmente “estranha”, Emma Stone tem aqui a sua melhor interpretação da carreira, merecendo aplausos pela forte carga emocional na cena do teste mais importante da sua vida.

As coreografias de Mandy Moore (que não é a cantora/atriz, só para avisar) são um entretenimento à parte, de modo que os longos planos sem corte utilizados por Damien Chazelle nos deixam compenetrados. Não teve truque…os atores realmente fizeram tudo! Esteticamente impecável, o diretor exagera propositalmente nas cores gritantes, deixando claro o quanto tudo ali é irreal. Muitas sequências são de encher os olhos, como o delírio no piano focado em contraluz em um restaurante, a dança no observatório e os planos em que ele esconde os atores através de sombras nos momentos decisivos.

Com um tom variável como uma canção de jazz, alternando entre o feliz e o melancólico, “La La Land” emociona com um final poético, que cobra o livre arbítrio do espectador para interpretar como achar melhor. E por conseguir fazer tanta homenagens e transmitir variados sentimentos, a obra merece todos os elogios que vem recebendo.

Nota: 9,0