
Eu poderia começar o texto afirmando que a cronologia dos X-Men nos cinemas anda tão confusa que já perdeu sentido a continuidade. Ou então, dizendo o quanto os fãs lamentam o fato de o personagem mais famoso da franquia, Wolverine, nunca ter sido retratado nas telas como esperavam, inclusive nos dois filmes solo, o terrível “X-Men Origens: Wolverine” (X-Men Origins: Wolverine, 2009) e o razoável/fraco “Wolverine: Imortal” (The Wolverine, 2013). Mas não seria correto. “Logan” (idem, 2017) não se trata de mais um longa dos mutantes, tampouco tem ligação com aquelas duas produções esquecíveis.
Aqui não há a necessidade da aparições de personagens surpresas ou gancho para continuações. Para os fãs, há referências discretas, como a citação da Estátua da Liberdade no longa de 2000, ou uma coreografia semelhante à da cena da salvação das crianças na escola em “X-Men 2” (X2, 2003), mas só. Trata-se de um episódio à parte. Diferente de tudo o que foi visto nesse universo até então, é acima de tudo uma honrosa despedida de Hugh Jackman do papel que impulsionou a sua carreira há 17 anos, numa produção dramática, violenta e muito corajosa.
A trama, inspirada na graphic novel “Old Man Logan”, de Mark Millar e Steve McNiven, é situada em 2029. Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como motorista de limousine para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente e esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do mutante para defender a pequena Laura Kinney (Dafne Keen). Ao mesmo tempo em que se recusa a voltar à ativa, Logan é perseguido pelo mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina.
De cara, é possível perceber que se trata de uma produção destoante das demais, apesar da tradicional abertura da Marvel Studios. A trilha-sonora triunfante e as artes com as mutações genéticas dão vez a créditos normais com os nomes do elenco no início (algo que também foge o padrão), fontes simples e de cor branca, canção folk, se assemelhando a uma produção oitentista. O protagonista não demora a aparecer, mas sem nenhum heroísmo. O tempo está estampado em Logan, entregue ao álcool, mancando, uma das garras está torta e os reflexos não são mais os mesmos de antes. Não há uniformes colantes ou efeitos especiais grandiosos.
O diretor James Mangold, que havia dirigido “Wolverine: Imortal”, retorna agora com autonomia criativa, ficando responsável também pelo roteiro. Com um tom acinzentado e um silêncio predominante, remete ao clima usado por ele no faroeste “Os Indomáveis” (3:10 to Yuma, 2007). E com essa melancolia ele faz de “Logan” algo muito próximo a um western moderno, numa jornada de redenção e busca pela humanidade. Em um futuro pós-apocalíptico marcado pelo medo, em que os mutantes estão em extinção, a relação entre Logan, professor Charles Xavier e a pequena Laura, a necessidade de cuidar uns dos outros, é a força-motriz da trama.
O personagem principal cresce no decorrer dos 137 minutos de projeção. Se antes Logan apenas aguardava a hora da morte chegar, ele encontra em Laura mais do que uma responsabilidade, mas uma projeção de si próprio, alguém sem autocontrole e instinto assassino. Além de agir como tutor, precisa controlar a medicação do professor Xavier para que o mantenha sedado, já que beirando a um século de idade, não tem mais controle dos próprios poderes. Assim, Mangold nos entrega momentos delicados em meio ao caos, como a ajuda de Xavier a uma família (algo que ele tanto sente falta) em uma estrada, ou da garota se encantando ao ouvir música pela primeira vez e brincando em um cavalo falso.
Os pequenos detalhes dão vida à produção, como Logan colocando um óculos de grau para ler, ou o enfraquecido Xavier insistindo em entregar-lhe o boné que acabara de comprar ainda no elevador, desfrutando do prazer da companhia de quem lhe resta. A imagem dos X-Men está retratada como um mito através das histórias em quadrinhos. O Wolverine de uniforme amarelo está lá nas páginas, em boneco, mas “as coisas aconteceram de maneira bem diferente”, como ele mesmo descreve, numa boa sacada do roteiro.
Até mesmo a questão do refúgio dos mutantes, tanto abordada nos demais filmes, é aqui trabalhada de maneira complexa, muitas vezes colocando o espectador sob o ponto de vista dos vilões, que se rotulam “mocinhos”. Afinal, crianças com superpoderes não são mesmo capazes de oferecer perigo a um homem comum? Claro que o espectador já sabe para quem torcer, mas em uma cena há até um certo “linchamento” que afasta o caráter maniqueísta.
Mas as sequências de ação estão lá, bem distribuídas, com direito a perseguição de carro em cenário desértico que lembra até Mad Max. Não o frenético “Estrada da Fúria” (2015), mas “Mad Max 2: A Caçada Continua” (1981). E o que faltou de sangue nos outros oito filmes da franquia mutante, é compensado tudo aqui. “Logan” traz a brutalidade do personagem dos quadrinhos para as telas com crueza, não poupando garras enfiadas pelo queixo, olhos furados e crânios sendo estourados. A pequena Laura não fica de fora da violência, sem nenhum pudor ao carregar a cabeça de uma das suas vítimas. A selvageria no clímax não deixa em nada a desejar.
Mesmo já tão acostumado ao papel, Hugh Jackman precisa se reinventar pela primeira vez. Com voz trôpega, movimentos limitados, ele encarna um homem que se esconde sob a barba a fazer e desenvolve sentimentos antes não expressados, fruto da relação pai, filho(a). Por outro lado, Patrick Stewart, envelhecido por uma maquiagem perfeita, rouba a cena ao viver um Xavier ainda mais debilitado, transbordando emoção sempre que está em cena. Os poderes continuam onipresentes, mas agora como mais um sintoma de um idoso “comum” que teve a memória e o controle do próprio corpo afetados pelo tempo, necessitando de cuidados especiais.
A jovem atriz inglesa-espanhola Dafne Keen, de 11 anos, que tinha no currículo apenas o seriado “Refugiados”, se mostra uma grata revelação. Mesmo com pouquíssimas falas e expressão sempre fechada, ela transmite com propriedade a inocência de uma criança diante de um mundo estranho, mas com espírito selvagem pronto para reagir a qualquer tipo de ameaça. Se tem algo que fica a desejar é a ausência de um vilão marcante, ficando para esse papel Boyd Holbrook (da série “Narcos”) como Donald Pierce, para momentos físicos, e o veterano Richard E. Grant (“Drácula de Bram Stoker”, 1992), como o Dr. Rice, o antagonista estratégico. Ambos bem corretos em seus papéis, sem destaque. Mas promover duelos não é o principal intuito dessa produção. O principal inimigo de Logan é ele próprio, e até isso o roteiro dá um jeito de materializar!
Trágico desde o início, porém, emocionante, “Logan” tem um final digno para o personagem e seu intérprete. A produção poderia apelar para inúmeros flashbacks e referências para impulsionar comercialmente, mas acertadamente isso não acontece. Trata-se de um capítulo especial em que, não à toa, cita o clássico “Os Brutos Também Amam” (Shane, 1953) em momentos chave, mostrando que o homem é vulnerável às suas ações. E nada mais apropriado do que ao som de “Hurt”, de Johnny Cash, os fãs sejam presenteados com um filme do carcaju que tanto merecem.
Obs: não há cena pós-créditos!
Nota: 10