Crítica: Entre altos e baixos, reboot de “Power Rangers” funciona

Quando foi anunciado que “Power Rangers” ganharia um reboot, em pleno 2017, a expectativa em geral não foi das mais animadoras. Afinal, a telessérie, adaptação americana do japonês “Super Sentai”, que estreou lá em 1993 e já está na 24ª temporada, fez um enorme sucesso entre o público-alvo, mas o tempo tratou de deixar claro o quanto tudo aquilo era brega, galhofa.

Então, apresentar o grupo de heróis coloridos para a geração atual, mantendo a nostalgia para aquelas crianças que hoje são adultas não era das missões mais fáceis. Felizmente, mesmo entre algumas derrapadas e estranhezas, o resultado é positivo.

O novo filme é reinvenção das origens dos personagens criados por Haim Saban. Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Billy (RJ Cyler), Trini (Becky G.) e Zack (Ludi Lin) são cinco adolescentes que se conhecem por acaso e encontram as pedras do poder que lhes concedem poderes extraterrestres.

Enquanto isso, a cidade deles, Angel Grove, está à beira de sofrer um ataque da vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks), que ressurge de um limbo para destruir a raça humana. Sob a tutela de Zordon (Bryan Cranston) e do robô Alpha 5 (voz de Bill Hader), os jovens devem superar os problemas pessoais e juntarem as forças como os Power Rangers para salvar o mundo.

Uma das maiores dificuldades das produções atuais é encontrar o tom ideal de uma adaptação. Há reclamações se for sério demais (“Batman Vs Superman”, 2016, que o diga!) ou se for despretensioso (qualquer um da Marvel Studios). E se tratando de algo infantil e datado como Power Rangers, pode-se dizer que o diretor sul-africano Dean Israelite (do interessante “Projeto Almanaque”, 2015) conseguiu um equilíbrio. Há um desenvolvimento dos personagens, se aproximando de um drama adolescente, ao mesmo tempo em que se mantém fiel aos exageros daquele universo.

O roteirista John Gatins (“Gigantes de Aço”, 2011, “O Voo”, 2012) tira leite de pedra ao abordar uma trama sem nenhuma criatividade para destilar diversas influências. Como os trailers já indicavam, existe um ar de John Hughes e seu “Clube dos Cinco” (The Breakfast Club, 1985), apresentando os adolescentes na detenção do colégio e, à medida que se conhecem, compartilham seus problemas e diferenças, sempre com aquele alívio cômico presente.

Não é  exagero dizer que se trata de um longa-metragem sobre amizade, remetendo a “Conta Comigo” (Stand By Me, 1986), com direito a uma versão da música-tema. Diferente de “Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016), quando um certo personagem rotula o grupo de “família” quando eles se conheceram há algumas horas, aqui o laço entre eles é de fato construído. Há diálogos prolongados em que eles descrevem a si próprios e pode até soar decepcionante para quem espera um festival de ação e efeitos especiais, porém, vejo como um ponto positivo essa preocupação em humanizar.

Enquanto no seriado todos os personagens eram vazios, sem qualquer traço de personalidade definido, aqui é corrigido, mesmo que dedique a maior parte dos 124 minutos de projeção para isso. Jason é um ex-jogador de futebol famoso da escola mas envolvido em problemas externos, Billy é um gênio com Transtorno do Espectro Autista que sofre bullying, Trini é a “estranha”, incompreendida pela opção sexual numa família de educação “tradicional”.

Kimberly é a típica líder de torcida insatisfeita com o rótulo e por isso tem atitudes drásticas, Zack tem a imagem de “bad boy” como um escudo para a agonia que vive diariamente com a doença da mãe. Estereótipos já vistos em exaustão? Sim, mas bem melhor do que um bando de rostinhos que estariam lá apenas para dar socos e chutes.

Uma ótima saída do roteiro foi associar o ato de “morfar” com esse vínculo. Se antes eles podiam se transformar quando bem quisessem, agora, eles precisam ser “dignos” de serem uma equipe de fato e, para isso, precisam resolver os próprios dilemas antes de ganharem os uniformes. Não à toa o paralelo com uma banda de música, através de um bilhete enviado por Billy: se um dos instrumentos erra ou muda o ritmo, todo o conjunto é prejudicado. O mesmo vale para o controle do Megazord, já que cada um controla uma parte do corpo e, se não estiverem em sintonia, é queda!

O diretor Dean Israelite tem seus bons momentos, como o ótimo prólogo, mostrando a geração anterior de Rangers e como iniciou a rivalidade entre Zordon e Rita – explicando também o porquê de os zords serem dinossauros. Estilosa também a apresentação de Jason, filmando uma perseguição sob o ponto de vista do motorista do carro. Mas em geral, nada que se sobressaia.

Convenhamos, não tem nada de original e ele nem tenta esconder, distribuindo citações a Homem-Aranha, Homem de Ferro, Bumblebee e até mesmo “Duro de Matar” (Die Hard, 1988). A edição também tem seus problemas, muito por causa das inúmeras refilmagens que o longa passou. Há diversas cenas mostradas nos trailers que ficaram de fora da versão final, e outras que visivelmente foram incluídas às pressas, como a da batalha no cais.  O orçamento de US$ 100 milhões está longe de ser uma bagatela, mas pelo visto, a produção teve que dar seus pulos.

O que certamente vai incomodar aos fãs é que o longa demora muito para abraçar de fato o universo de Power Rangers. Com um segundo ato um tanto arrastado com o treinamento deles, sobram apenas os minutos finais para a ação pesada. Sim, diverte. Os elementos marcantes estão lá: bonecos de massa, trecho da canção clássica, monstro gigante. Há homenagens explícitas, como o plano lateral dos zords em fileira indo para combate. Mas é tão rápido que chega a ser atropelado. Faltam combates corporais, pois logo após “morfarem” pela primeira vez, trocam alguns golpes breves e logo já vão para os robôs.

Visualmente está bem modernizado, condizente com os filmes de heróis atuais. Armaduras estilosas no lugar das roupas de lycra, o Centro de Comando realmente parece uma nave alienígena, trilha sonora techno embalando as transformações. O novo Megazord é um tanto genérico, de modo que não parece ser formado pela junção dos cinco zords. Tudo bem que depois de “Círculo de Fogo” (Pacific Rim, 2013) ficou mais difícil qualquer coisa envolvendo robôs gigantes. Na verdade, quando vem o clímax, a ação com os jurássicos robóticos chega a quase ser confusa como em “Transformers”.

O elenco jovem está todo convincente, sendo que uns têm espaço menor pelo roteiro, casos de Ludi Lin e Becky G. Mas quem rouba a cena é RJ Cyler, de longe o mais carismático da equipe. Elizabeth Banks está visivelmente se divertindo em cena, dando à Rita Repula uma performance propositalmente exagerada, conferindo aquele ar cartunesco.

O ótimo Bryan Cranston mostra que é talentoso até fazendo – literalmente – uma parede. Zordon é aquele mentor que algumas vezes lembra o Marlon Brando de “Superman: O Filme” (Superman, 1978). Bill Hader, que já havia dublado o BB-8 em “Star Wars: O Despertar da Força” (Star Wars: The Force Awakens, 2015), se destaca ao dar voz ao robô Alpha-5, que continua pessimista, irônico, mas é além de um alívio cômico, servindo de tutor do grupo.

A impressão que fica é que, ao tentar agradar a todos, o diretor misturou seriedade com um caminhão de referências, reservando um pequeno recorte do longa para a galhofa necessária dos Power Rangers, tornando o produto como um todo meio desigual. É como se tivesse medo de ser infantil em demasia, mas, ao mesmo tempo, os exageros estão presentes por obrigação. Mas como se trata de uma trama de origem, cumpre bem o papel de apresentar os novos heróis e o saldo até que é agradável.

Obs: há uma cena pós-créditos com gancho para uma inevitável continuação!

Nota: 7,5