Crítica: “Fragmentado” é o retorno triunfal de M. Night Shyamalan ao mainstream

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O diretor M. Night Shyamalan virou uma referência do gênero suspense quando, aos 29 anos, lançou o aclamado “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense, 1999). Desde então, sempre manteve o status de cult, com o seu nome sendo o principal chamariz de cada nova produção lançada. Mesmo alternando opiniões, sempre se manteve badalado, como em “Corpo Fechado” (Unbreakable, 2000), “Sinais” (Signs, 2002) e “A Vila” (The Village, 2004). Mas foi em “A Dama na Água” (Lady in the Water, 2006) que o hype começou a despencar. Há quem defenda (este que vos fala, inclusive, é um deles), mas a qualidade dos longas seguintes não ajudaram nem um pouco.

“Fim dos Tempos” (The Happening, 2008) é tão ruim que condiz com o título nacional, “O Último Mestre do Ar” (The Last Airbender, 2010) foi uma adaptação do anime “Avatar” pra lá de brega e “Depois da Terra” (After Earth, 2013) uma ficção científica bem sonolenta. Foram mais de 10 anos de “má fase”. A solução foi voltar às origens. Com o suspense independente “A Visita” (The Visit, 2015), que custou apenas U$ 5 milhões, arrancou boas críticas sem apelar para o sobrenatural. Era o que precisava para voltar ao mainstream. E isso acontece com o ótimo “Fragmentado” (Split, 2017), onde Shyamalan mostra retomar a velha boa forma.

A trama traz Kevin (James McAvoy), um misterioso homem que possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar.

O grande mérito de Shyamalan no novo projeto é conseguir manter o clima de tensão desde o início. Com créditos rústicos em preto e branco que muito lembram Alfred Hitchcock (influência mais do que óbvia), há uma breve apresentação das adolescentes Casey (Anya Taylor-Joy), Claire (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula), e logo surge o protagonista, vivido por McAvoy, quando começa todo o suspense. E nessa introdução ele já deixa a sua marca através da câmera subjetiva, mantendo o mistério sobre a ameaça que se aproxima do adulto responsável pelas garotas, até o momento em que ele é revelado ao entrar no carro.

A partir daí, a trama, roteirizada pelo próprio diretor, se desenrola basicamente em dois ambientes: na claustrofóbica casa do protagonista onde mantém as jovens aprisionadas e no consultório da psicóloga Karen Fletcher, vivida por Betty Buckley. O desespero das garotas em tentar fugir é construído à medida que elas convivem com as variadas personalidades de Kevin que surgem em cena. Em um momento sabem que estão lidando com alguém violento, em outro com alguém manipuladora, e em outro alguém ingênuo e mais fácil de enganar. Não há a necessidade de sustos baratos provocados por efeitos sonoros ou trilha impactante, ficando quase tudo a cargo das interpretações.

Tudo bem que não há tempo suficiente para desenvolver 23 personalidades numa trama de duas horas, focando basicamente em quatro (o psicopata Dennis, sua fria esposa Patricia, o jovem inocente Hedwig e o estilista Barry). Com trocas de figurino para facilitar a vida do espectador, é possível identificar qual personalidade está no comando, cada uma com sua peculiaridade: atitudes sádicas com mulheres, Transtorno Obsessivo Compulsivo com limpeza, talentos específicos (como moda), etc. Shyamalan recorre a saídas fáceis para orientar quem assiste, mas que não atrapalham, como a explicação da Dra. Betty Buckley num seminário de que duas personalidades podem coexistir, ou a utilização de um notebook para apresentar outras facetas ainda não mostradas na trama.

Em meio a toda a ameaça que permeia as três jovens, o diretor sempre deixa claro o tratamento diferenciado com Casey, desde a confiança que o “pequeno” Hedwig desenvolve com ela e, principalmente, os flashbacks com revelações sobre o passado, induzindo que ela e o seu sequestrador têm algo em comum. Ao seu modo, Shyamalan aborda temas importantes, desenvolvendo o arco dramático da adolescente, com o medo sempre presente na vida dela de diferentes maneiras. Para isso, Anya Taylor-Joy, que já havia feito um ótimo trabalho em “A Bruxa” (The VVitch: A New-England Folktale, 2015), traz mais uma bela performance, captando o semblante de quem vive sob constante ameaça.

Mas obviamente, o destaque é James McAvoy, que dá um verdadeiro show na pele do perturbado Kevin, como se tivesse que viver vários personagens. O trabalho dele vai além de fazer a expressão sempre fechada do maníaco ou trejeitos infantis, mas com a complexidade de uma personalidade que finge ser outra ao ser atendido pela psicóloga, até a monstruosa transformação do clímax, onde incorpora toda a loucura que ele carrega.

Como qualquer espectador adaptado às obras de Shyamalan, sempre é aguardada alguma reviravolta no final. Não darei spoilers. Isso existe aqui, mas nada que surpreenda e force a revisão de toda a trama desde o início, como “O Sexto Sentido” e “A Vila”. O tempo todo é possível perceber que o vilão está guardando as meninas para algo maior, sempre frisando a necessidade de “alimentá-las”, construindo o terreno para a revelação do real plano. O diretor brinca com o sobrenatural, até que entrega um terceiro ato digno da sua reputação. Mas para não dizer que não existe aquele momento “Minha nossa! Sério?!”, tem uma participação especial importante que induz a ligação desse longa-metragem com outro trabalho dele próprio. Os fãs certamente vão pular da cadeira!

“Fragmentado” pode estar um tanto longe dos melhores trabalhos do indiano, como “Sexto Sentido” e “Corpo Fechado”. Mas é o retorno em grande estilo a um gênero que ele tanto domina sem precisar de um grande orçamento (custou apenas U$ 9 milhões), além de introduzir um personagem que pode muito bem voltar a ser explorado no futuro. Ficamos na torcida para que esse universo compartilhado se torne realidade!

Nota: 8,5