Crítica: “Dunkirk” compensa o fraco roteiro com um espetáculo audiovisual

Foto: Divulgação
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O diretor Christopher Nolan, com apenas 10 longas no currículo, já atingiu o status de colocar o seu nome nos materiais de divulgação como principal referência a cada nova produção. Amem ou odeiem, fica a curiosidade pelo o que está por vir. Pela primeira vez ele se arrisca num filme de guerra e “Dunkirk” (idem, 2017) já nasce pretensioso por sair do lugar comum dos demais longas do gênero. É fato que ele entrega um show audiovisual inédito, o que já torna a experiência especial. É possível ver e ouvir o talento! Mas também tem abertura para aqueles que adoram tirar o seu valor.

A trama narra a Operação Dínamo, mais conhecida como a Evacuação de Dunquerque, em que soldados aliados da Bélgica, do Império Britânico e da França são rodeados pelo exército alemão e devem ser resgatados no início da Segunda Guerra Mundial. A história acompanha três momentos distintos: uma hora de confronto no céu, onde o piloto Farrier (Tom Hardy) precisa destruir um avião inimigo, um dia inteiro em alto mar, onde o civil britânico Dawson (Mark Rylance) leva seu barco de passeio para ajudar a resgatar o exército de seu país, e uma semana na praia, onde o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) busca escapar a qualquer preço.

A grande ambição do responsável pelo excelente “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, 2008) nesse longa não é narrar o episódio em si, uma história que seria de fracasso e que se tornou sinônimo de resistência. Mas transmitir ao espectador o frenesi através da imersão naquele contexto. É clímax do início ao fim, fazendo prender a respiração, algo semelhante com o que George Miller fez em “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, 2015), a sua ópera de ação, mas desta vez na Segunda Guerra Mundial.

E não tem como negar que, tecnicamente, “Dunkirk” é impecável! Repetindo a parceria com o diretor de fotografia holandês Hoyte Van Hoytema – eles trabalharam em “Interestelar” (Interstellar, 2014) – é impressionante desde as tomadas em planos abertos com corpos jogados na areia, aos momentos de tensão maior com a câmera bem próxima ao rosto de algum personagem (principalmente o piloto Farrier). Seja na terra, no mar ou no ar, é de encher os olhos.

E se a fotografia é um ponto alto, o som é ainda mais impactante. A edição vai além de barulhos de explosões e tiros estrondosos, mas utiliza o máximo de elementos sonoros possíveis naquele cenário para ampliar a sensação de realidade. É difícil sair da sessão sem uma sirene no juízo e o temor de que algo de ruim pode acontecer vindo de qualquer direção. Junto a isso está a trilha sonora primorosa de Hans Zimmer, que aumenta a dramaticidade quando necessário e ganha peso à medida em que a emoção aumenta.

Como em “A Origem” (Inception, 2010), o cineasta brinca com todos os artifícios que tem à sua disposição. E se as obras de Nolan são conhecidas pelos longos diálogos, aqui o silêncio é predominante, com pouquíssimas falas. Durante a evacuação, em que ninguém sabe se aquele que está na frente é amigo ou inimigo, ninguém está para conversa, e sim, preocupado em sobreviver. E assim ele entrega muitos momentos de agonia, como a salvação de um piloto cujo avião cai na água, o “interrogatório” a um suposto soldado alemão infiltrado e, principalmente, o destino da nave pilotada por Farrier.

Porém, se o cineasta atinge os objetivos sensoriais, o roteiro escrito por ele próprio (pela primeira vez sem a contribuição do irmão Jonathan Nolan, que ficou cuidando do ótimo seriado “The Westworld”) é bem superficial. Por mais que torçamos pelo destino de cada personagem, não sabemos nada sobe nenhum deles. O que acaba por ser um desperdício de bons atores, como Cillian Murphy, que é apenas um passageiro no barco, e Kenneth Branagh, em que seu comandante Bolton se resume a ficar na costa comentando com o coronel Winnant (James D’Arcy) os ocorridos.

Por um lado, Nolan acerta ao abordar o início da Segunda Guerra como algo quase desconhecido para quem ali está. Os nazistas mal são vistos. Eles são como espectros, mas todos sabemos que eles estão ao redor, o medo é real! Entende-se a intenção do realizador, mas ainda falta o contexto histórico sobre o episódio da Operação Dínamo, algo que “A Retirada de Dunquerque” (Dunkirk, 1958) o fez bem.

As três subtramas são bem divididas e, mesmo o fato de cada uma ter um tempo diferente, não fica confuso para quem assiste. Ainda assim, cada um tem pouca chance de mostrar potencial. Começando pelo “protagonista”, o estreante Fionn Whitehead, que faz um trabalho correto e, só! Longe de ser apontado como uma grande promessa do cinema recente.

Mark Rylance (vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante por “Ponte dos Espiões”, 2015) transpõe a bondade de um homem que preza pelos filhos e quer ajudar desconhecidos em meio a um caos, mas em nenhum momento ele mostra a fundo sua veia dramática. Por outro lado, Tom Hardy faz um bom trabalho ao interpretar só com a voz e o olhar, já que está quase o tempo todo com a máscara de oxigênio. Uma grata surpresa é o músico Harry Styles (ex-One Direction), num personagem de personalidade dúbia.

“Dunkirk” é para ser visto na melhor sala de cinema da sua cidade. No mínimo, IMAX, para captar a sensação frenética que Christopher Nolan cria através das ferramentas que o cinema permite. Não se trata de um longa sobre heroísmo, mas sobre anônimos que fazem a diferença numa guerra. E por tratar esse “lado B” de maneira tão peculiar, a obra merece, sim, aplausos.

Nota: 8,5