Crítica: Remake de “It – A Coisa” é uma definitiva “obra-prima do medo”

"It - A Coisa" (It, 2017) funciona muito bem ao misturar o horror psicológico com uma forte carga de nostalgia.
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Publicado em 1986, “It” (No Brasil, “A Coisa”) é uma das raras obras de Stephen King com mais de mil páginas. A saga das crianças assombradas por um palhaço demoníaco até a fase adulta ganhou um telefilme em 1990, exibido como uma minissérie de dois episódios, que ganhou o status de cult pelos fãs de terror. Agora, Pennywise ganha uma nova adaptação, com toda a pompa de uma produção grande para os cinemas e marketing avassalador. E “It – A Coisa” (It, 2017) funciona muito bem ao misturar o horror psicológico com uma forte carga de nostalgia.

A trama se passa 1989, em Derry, pacata cidade do Maine, quando as crianças começam a desaparecer. Os jovens Bill (Jaeden Lieberher), Richie (Finn Wolfhard), Stanley (Wyatt Oleff), Mike (Chosen Jacobs), Eddie (Jack Dylan Grazer), Ben (Jeremy Ray Taylor) e Beverly (Sophia Lillis), adolescentes que sofrem bullying, se juntam para combater Pennywise (Bill Skarsgård), um palhaço cuja história de violência remonta há séculos, ao mesmo tempo em que cada um deles precisam enfrentar seus medos mais íntimos.

O principal mérito dos roteiristas Chase Palmer, Gary Dauberman (“Annabelle 1 e 2”) e Cary Fukunaga (criador da série “True Detective”) é captar a essência das obras de Stephen King. A intenção dele nunca foi provocar o medo pelo medo. Por trás do sobrenatural, há a motivação em jovens considerados “excluídos” dos padrões populares em se manterem unidos enquanto um mal os ameaça. Todo aquele espírito de “Conta Comigo” (Stand By Me, 1986), também baseado em um conto de King, está lá! Tem sangue, assombrações, mas acima de tudo, o longa funciona como uma aventura juvenil.

E esse mote ganha mais peso nos tempos atuais, em que está na moda reviver o espírito de produções dos anos 80, algo que ganhou força com o seriado “Stranger Things” (a presença de Finn Wolfhard em “It” não é à toa). Os integrantes do “Clube dos Perdedores” andando de bicicleta, batalhando numa guerra de pedras, trazem charme à produção sem torná-la datada.

Há também referências a “Gremlins”, “Os Fantasmas Se Divertem”, “Batman”, “Máquina Mortífera” e até Molly Ringwald, musa dos filmes adolescentes dirigidos por John Hughes (“Clube dos Cinco”, “Gatinhas e Gatões”) e “A Hora do Pesadelo” (Freddie Krueger e Pennywise têm lá suas similaridades…); além de uma trilha sonora eclética que conta com The Cure, Anthrax, The Cult e New Kids on The Block (que ainda rende boas gags com o personagem Ben). O humor é uma vertente constante.

Para isso, o diretor argentino Andy Muschietti (do bom “Mama”, 2013) faz um bom trabalho ao não cair nos clichês do gênero, como se apoiar nos efeitos sonoros para provocar sustos. Ele já deixa a sua marca no prelúdio, com a já emblemática cena do bueiro! O medo é desenvolvido de acordo com as fobias de cada personagem, cada um com seu tempo em tela – obviamente uns são bem mais rápidos -, o que ganha força com o ótimo elenco jovem. Fica claro que a forma do palhaço Pennywise é apenas a “universal”, sendo transmutável e permitindo diversas situações criativas.

Acompanhamos Eddie, hipocondríaco filho de uma mãe superprotetora (um dos mais interessantes!); o drama de Beverly (a bela e promissora Sophia Lillis) com o pai que abusa dela (está nas entrelinhas, mas bem claro para quem quer entender); a agonia do gago Billy com o sumiço do irmão Georgie; ou mesmo algo mais simples como o temor de um quadro bizarro. Nesse cenário, Richie (Wolfhard) é aquele coadjuvante tagarela que rouba a cena por sempre procurar estar numa posição superior para bloquear a imagem de “loser”, enquanto o gordinho Ben (Ray Taylor) é um poço de carisma em que todos vão criar empatia.

E Muschietti, apadrinhado de Guillermo del Toro, mostra habilidade no contraste de atmosferas. Honrando Stephen King, os adultos são mostrados como figuras que sempre representam algum tipo de ameaça, e por isso vemos personagens como a mãe de Eddie e o pai de Bev sempre sob a sombra, e de forma mais atenuante com a escuridão claustrofóbica no “habitat natural” de Pennywise. O contraponto está justamente quando os jovens estão unidos, quase sempre com iluminação clara, sob o sol, com destaque para a cena em que eles se divertem com roupas íntimas no riacho e os meninos apreciam a única garota entre eles com um ar de inocência e desejo.

E como se trata de “terror”, a ameaça está impecável: Bill Skarsgård não poderia estar melhor como Pennywise. Com um olhar penetrante (percebam como quase sempre um olho está para o centro e o outro para a lateral), dentes de roedor, voz aguda que alterna do feliz para o amedrontador em instantes. Ele não só é uma evolução daquela versão vivida por Tim Curry no telefilme de 1990 (que diga-se de passagem, estava muito bem), com traços próprios, como o sorriso e uma agonia perturbadora. Por necessidade entendível, em alguns momentos são utilizados efeitos especiais no personagem, mas que têm menos impacto, o que só ressalta o bom desempenho do ator.

Não à toa, Stephen King está rasgando elogios, orgulhoso por ver uma adaptação de uma das suas obras mais pessoais (ele escreveu numa das fases mais difíceis, que incluiu o vício em drogas e álcool), finalmente sendo retratada nos cinemas com o espírito que ela fora elaborada. “Obra-Prima do Medo” pode ser o título do filme de 1990, mas é uma definição que cabe muito bem a este remake. E olha que está só na metade, pois o “Capítulo 2”, com as versões crescidas dos garotos estar por vir em 2019.

Nota: 9,0