
A premissa de uma cinebiografia de um dos muitos intérpretes do palhaço Bozo no Brasil não é das mais interessantes. Até porque a história de um artista deslumbrado com a fama que cai no vício das drogas já foi abordada em exaustão. Mas graças ao tratamento quase cirúrgico do diretor Daniel Rezende (o que inclui a performance irretocável do protagonista), “Bingo: O Rei das Manhãs” (idem, 2017) é uma das mais eficientes produções do cinema nacional dos últimos anos.
A trama apresenta Augusto Mendes (Vladimir Brichta), um ator de pornochanchadas que se depara com sua grande chance ao se tornar “Bingo”, um palhaço apresentador de um programa infantil que é sucesso absoluto no Brasil. Logo ele conquista a garotada com o estilo debochado e chega à liderança da audiência nas manhãs, ao mesmo tempo em que mergulha em uma vida de excessos, que o afasta de seu filho.
O retratado é Arlindo Barreto, que, por motivos de direitos autorais, teve o nome alterado para Augusto. Por sinal, não é difícil fazer as associações com o “mundo real”: Bingo é Bozo, Mundial é a Globo, TVP é a TVS (antigo nome do SBT), Lulu é a Xuxa e por aí vai. Um dos méritos do roteiro de Luiz Bolognesi (“Bicho de Sete Cabeças”, 2000, “Elis”, 2016) é não tratar como uma obra biográfica, tomando muitas liberdades criativas, numa mistura de ficção com fatos verídicos.
Há uma romantizada nos fatos. Arlindo Barreto foi o segundo intérprete do Bozo, e não o primeiro como indica o longa; ele e Gretchen (a única a liberar o uso do nome real) tiveram um romance de fato, e não só uma “rapidinha”; o filho dele não é fruto da relação com a ex-esposa, etc. Mudanças necessárias para que Daniel Rezende possa dar força à sua obra sobre o glamour, seguindo o padrão do início por baixo, o estrelato, o fundo do poço e a redenção. Tudo de uma maneira contundente e, o mesmo, tempo, recheada de nostalgia e alívio cômico.
Por sinal, é preciso falar um pouco de Daniel Rezende. Apesar de estreante na direção, ele tem no currículo a experiência como editor “só” em produções como “Cidade de Deus” (2002), “Diários de Motocicleta” (2004) “Tropa de Elite 1 e 2” (2007, 2010), “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008), “A Árvore da Vida” (2011), entre outros. Conhecedor do terreno que explora, se mostra um cineasta pronto. Ele não apenas narra os fatos, mas insere o espectador na lunática mente do protagonista. Em alguns momentos nos deparamos com situações absurdas, que não demoramos para perceber que se trata da imaginação de Augusto. Seus desejos e frustrações, afetados pelo uso de entorpecentes, tornam sua vida uma bomba relógio.
O estilo libertino de vida, de início movido pela empolgação do sucesso repentino, faz da tal fama o seu calcanhar de Aquiles por se aprisionar no anonimato por obrigação contratual, a ponto de ser barrado na festa em que acabara de ser premiado por não ser reconhecido ser maquiagem. Não à toa, logo no plano de abertura do longa, ele brinca com o filho através de sombras, forma que ele encontra para retomar o contato com ele mais adiante. É como se o humano ali presente sempre estivesse escondido atrás das sombras.
Assim, Rezende transpõe através das cenas bastante coloridas no estúdio de TV, onde na teoria ele provoca alegria, com a escuridão fora dele, reflexo do seu estado de espírito. Duas sequências em especiais são visualmente incríveis: quando o pai irresponsável aparece desfocado em primeiro plano, dormindo, enquanto o filho pequeno consome bebida alcoólica ao fundo; e quando ele tem um surto ao se ver na TV tentando tirar a “máscara” que não sai, numa analogia da prisão que o megapopular personagem Bingo virou para o ainda desconhecido Augusto.
E mesmo desenvolvendo bem o drama do protagonista, o diretor destila leveza ao abordar a peculiaridade do entretenimento dos anos 90 no Brasil, politicamente incorreto, sem lei. Dançarina seminua dançando num programa infantil matinal, músicas com letras de duplo sentido, comentários ácidos com os pequenos que participavam das brincadeiras ou telefonavam para falar com o palhaço, provocações ao vivo à emissora rival pela audiência. Tudo com detalhes estilosos, como a imagem desfocada, inclusão de cenas “reais” e uma trilha sonora eclética que inclui Supla, Titãs, Metrô, Ritchie, Roupa Nova, Devo, entre outros.
E um dos responsáveis pela qualidade do longa é Vladimir Brichta, no melhor papel da carreira. Bem mais do que imitar o Bozo, ele cria um estilo próprio que se transforma em segundos, como ele mostra na hilária cena do teste em que faz todos rirem ao xingar o investidor gringo do programa. De pai afetuoso e filho de uma veterana atriz “esquecida” pelo tempo, passa para um jeito frenético, de voz desafinada e falas rápidos, conseguindo transmitir sua perturbação através de um sorriso. Brichta já pode entrar para o mainstream do cinema nacional ao lado de Wagner Moura, Lázaro Ramos, Selton Melo e outros.
O elenco também conta com a sempre eficiente Leandra Leal na pele da diretora Lúcia (que na vida real era só produtora), mulher rígida, que impõe sua autoridade e se esconde por trás da religião como justificativa pela personalidade forte. Mesmo sem ceder às investidas do machista Augusto, ela o admira como profissional e se mostra preocupada com quem quer bem.
Participações como a de Pedro Bial servem como chamariz, enquanto a do falecido Domingos Montagner é repleta de simbolismo, como o palhaço que serve de “professor” para o protagonista, pois o ator era ligado às artes circenses. “O palhaço sempre apanha mas nunca desiste”…lição bem familiar!
Mostrando que não bastava importar um produto e seguir a regra para repetir o sucesso, “Bingo – O Rei das Manhãs” mostra que o jeito brasileiro é malandro e duvidoso, porém, único. E por conseguir abordar uma história de maneira tão criativa, com reflexos do país, mas ao mesmo tempo inspirado num personagem de uma franquia americana (o que vai servir lá fora como apelo comercial), a escolha para representar o Brasil como possível candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro não poderia ter sido mais acertada.
E depois que em 2016 o excelente “Aquarius” foi passado para trás pelo novelesco “Pequeno Segredo”, em 2017 só seria pior se Bingo perdesse para o filme da Lava-Jato…
Nota: 9,0