Crítica: Belíssimo, “A Forma da Água” é a carta de amor de Guillermo del Toro ao “estranho”

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Já é do conhecimento de quase todos que o diretor Guillermo del Toro tem um fascínio por monstros. Seja cercando uma criança como forma de mascarar a realidade violenta (“O Labirinto do Fauno”, 2006) ou lutando com robôs gigantes (“Círculo de Fogo”, 2013), eles existem para fomentar a fantasia. E quando algo se torna reconhecido, deixa de ser estranho. É natural. Mas para isso, é necessário um longo processo de aceitação por parte dos que julgam o diferente como um problema. E é repleto de poesia e, principalmente, coração, que o cineasta mexicano faz em “A Forma da Água” (The Shape of Water, 2017) a sua carta de amor ao “não convencional”.

A trama se passa na década de 60, em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria. A muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

A premissa, roteirizada pelo próprio del Toro ao lado de Vanessa Taylor, parece até boba, da mulher com dificuldade de se inserir socialmente se encantando com um ser exótico. E claro, haverão vilões para tentar impedir essa proximidade. Porém, a forma como o cineasta conduz a narrativa, um conto de fadas de época, com pitada de erotismo, violência, um ode às artes como agentes transformadores, torna o longa-metragem sobre diferenças tão único. Ao mesmo tempo, ele não tem pudor ao mostrar o que poderia ser chocante aos moralistas de plantão e encanta como uma poesia que só contém palavras bonitas.

Logo no início vemos a narração do personagem Giles, bem típico das fábulas da Disney, sobre o destino da princesa, o seu amado e o monstro. Acontece que tal “princesa” foge dos padrões tradicionais. Elisa não fala, é vista com estranheza pelos outros, mas tem sentimentos e desejos como qualquer pessoa. Sally Hawkins não tem uma beleza convencional, não é reconhecida por essa característica. O que nada impede de Guillermo del Toro colocá-la totalmente sem roupa num plano aberto ou mesmo se masturbando. À medida que a trama decorre, nos encantamos pela sua simplicidade, seu carisma natural.

A relação dela com o “Homem Anfíbio”, vivido por Doug Jones (grande mago das maquiagens pesadas, vide os papéis em “O Labirinto do Fauno” e o Abe Sapien dos dois “Hellboy”, de del Toro) se desenvolve através da admiração e similaridades. Juntos eles passam a apreciar música e, num momento posterior, ele é apresentado ao cinema. Desde o início nos é mostrada a paixão dela e do melhor amigo Giles por musicais clássicos e sapateado, em que Guillermo toma liberdade criativa para evocar um longa-metragem do estilo quando ela revela o amor que sente pelo ser, numa bela sequência em preto e branco.

Tudo é desenvolvido com o máximo de cautela. O primeiro momento em que eles se “sentem”, através de um improviso dela para que ambos fiquem cercados pela água, é uma cena bonita, porém, incompleta no sentido do sentimento entre eles. Assim como o amor que precisa romper barreiras, a água só encobre uma parte deles e respinga nos arredores, incomodando os desconhecidos. É como se a felicidade deles tirasse os outros da zona de conforto.

Interessante o uso das cores por parte de Guillermo. Elisa e o anfíbio sempre se comunicam em lugares com fotografia escura, remetendo à afinidade do diretor com o sombrio. À medida em que a paixão cresce, ela passa a se encantar com tons fortes de vermelho. Propositalmente o retrato inverso é mostrado na família do mal caráter agente Strickland. O típico retrato da “família tradicional americana” exala cores vibrantes, numa falsa impressão de felicidade. A cena de sexo entre o agente e sua esposa é grosseira, nada romântica, o que acaba por amenizar o ato entre o casal protagonista. Por mais estranho que pareça, é verdadeiro, dentro da escuridão que lhes faz bem.

A direção de arte é primorosa, de forma que o clima da Guerra Fria parece imperar em todos, sob uma ameaça constante. O grande salão onde a criatura é mantida presa e a sala de Strickland se assemelha àqueles esconderijos subterrâneos, cheios de mapas e máquinas de criptografia, da Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, tudo é amenizado com uma trilha-sonora original bem delicada e canções populares multinacionais, que inclui uma regravação de “Babalu” por Caterine Valente e Silvio Francesco, e até “Chica Chica Boom Chic”, da eterna brasileira/portuguesa/americana Carmen Miranda.

O cineasta aborda o tema preconceito sem rodeios, começando por Strickland (o sempre ótimo Michael Shannon, em atuação até exagerada e caricata propositalmente para esta fábula), o real “monstro” da narração inicial. Suas atitudes são típicas de um machista que fala que “até transaria com alguém se não fosse tão chata”, trata as profissionais da limpeza com arrogância (e del Toro faz questão de apresentar o plano de cima para baixo) e quer à todo custo eliminar o ser aquático da Amazônia (!), descrevendo que “não é porque ele anda com duas pernas que pode ser considerado humano”.

Além de Strickland, o meio está cercado de “vilões” do tipo, como o bartender aparentemente gentil que mostra a sua face ao tratar com desdém os negros que adentram o estabelecimento e destrata Giles, após singela atitude deste em que sugere ser homossexual.

Giles é o contraponto destas pessoas. Vivido com extrema delicadeza por Richard Jenkins, um artista de meia idade frustrado, mas com calma na voz que exala a sua bondade. É emocionante os “diálogos” dele com Elisa, pois mesmo com o uso de legendas para decifrar o que ela fala através de libras, ele compreende suas motivações. Ele abraça a “causa” da criatura anfíbia, até falando para ela(e) que por anos se sentiu incompreendido como ele. Até a criatividade para desenhar é despertada pela criatura nele, obviamente, em tons cinzentos.

Mas a alma do longa-metragem é mesmo Sally Hawkins (deem o Oscar para ela!), conseguindo transmitir emoção, a personificação do amor de alguém que finalmente se tornou feliz por ser aceita como é, mesmo sem falar praticamente nada. Como dito anteriormente, é impossível não se cativar por ela, a ponto de tornar a relação de uma mulher com um anfíbio natural e torcermos para o final feliz.

A também sempre eficiente Octavia Spencer confere o seu ar da graça como a companheira de trabalho Zelda, uma típica negra com emprego subvalorizado e num casamento problemático que externa as suas frustrações na verborragia. É como se falasse por ela e Elisa, rendendo um bom alívio cômico. Também no elenco está o ótimo Michael Stuhlbarg, que apesar de se inserir no esquema destrutivo ao Homem Anfíbio, confere humanidade ao Dr. Robert Hoffstetler. Afinal de contas, ele é um apaixonado pela Ciência que não tem intenção de maltratar qualquer tipo de ser.

Não é de se impressionar que esta obra seja lançada em tempos tão delicados, permeados pelo ódio, em que o mexicano Guillermo del Toro vê o seu “vizinho” Estados Unidos, comandado por um intolerante Donald Trump, aumentar cada vez mais o muro entre eles. É uma crítica clara, porém, é também uma homenagem às referências que o definiram até a fase adulta. Não precisa ser gênio para enxergar ali um pouco de “O Monstro da Lagoa Negra” (Creature from the Black Lagoon, 1954), “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beast, 1991) e até uma pitada de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, 2001).

“Incapaz de perceber a forma de você, eu encontro você ao meu redor. Sua presença enche meus olhos com seu amor, aquieta meu coração, pois você está em todos os lugares”. Com esses dizeres, o diretor fecha a sua obra-prima de maneira perfeita e poética, num plano que se tornou a principal imagem de divulgação do longa. O que antes era incompleto e incomodava, a situação virou. A imperfeição passou a ser a válvula para a vida. E nós, agradecemos!

Nota: 10