Crítica: “Hereditário” impressiona ao mesclar o sobrenatural e o psicológico

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De gênero desgastado até um passado recente, é animadora a nova safra de longas de terror/suspense e seus realizadores. “A Bruxa” (The Witch, 2016), de Robert Eggers, foi de uma audácia artística impressionante. “Corra!” (Get Out, 2017), dirigido pelo comediante Jordan Peele, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme misturando o sobrenatural com crítica social. “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018) é uma das produções mais tensas dos últimos anos e colocou o ator John Kransinski no patamar de revelação como cineasta.

“Hereditário” (Hereditary, 2018) chega para fomentar essa boa fase, saindo do lugar comum e apresentando o estreante Ari Aster, nome que visivelmente tem talento no que faz.

Na trama, após a morte da reclusa avó, a família Graham começa a desvendar algumas coisas. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como uma sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta adolescente, Charlie (Milly Shapiro), por quem ela sempre manteve uma fascinação não usual. Com um crescente terror tomando conta da casa, a família explora lugares mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram.

Logo de início é possível ver as peculiaridades da condução de Aster (que antes havia dirigido apenas curtas-metragens). Através de planos simples, apresenta uma casa de bonecas que, ao abrir e manter no estático, revela-se a residência da família principal. Posteriormente é mostrado que a mãe trabalha construindo tais miniaturas, ficando ali a assinatura do diretor ao insinuar que os humanos serão maquetes manipuladas por algo superior. Mas esse é só um pequeno exemplo na cena de abertura, quando em geral, ele utiliza dos recursos para fazer o horror de maneira estilosa.

Os constantes travellings pela casa são feitos de maneira cautelosa acompanhando os passos de algum personagem e os focos fechados nos rostos potencializam o desespero, aliado ao forte drama, existentes neles. A fotografia é digna de aplausos, a maioria das vezes sem precisar mostrar de fato o que está assombrando. O medo fica implícito. De ruídos agonizantes, trilha sonora tenebrosa através do saxofone de Colin Statson até efeitos especiais simples, tudo é utilizado de maneira cirúrgica, mantendo sempre a incógnita sobre o que de fato está acontecendo.

Em alguns momentos ele até ameaça cair nos clichês, como ao sugerir um susto após apresentar alguma sombra ao fundo, utilizar bastante fotografias escuras (que aqui se faz necessária) e aumentar o som na tentativa de fazer o espectador pular da cadeira. Às vezes se sai bem ao induzir para tal, mas fugindo por outro viés. O longa se mostra bem sucedido ao causar o “incômodo” em momentos singelos como um reflexo no espelho seguida de uma reação totalmente inesperada numa cena na sala de aula.

Mas um dos principais méritos da produção é o roteiro, assinado pelo próprio Aster, desenvolvendo bem os personagens e fugindo das obviedades (com exceção da batida “brincadeira do copo”…). Quanto menos se sabe sobre a trama, melhor o efeito. Tanto que uma determinada virada logo cedo da projeção causa não só surpresa mas mostra coragem por parte do diretor. E à medida que o tempo passa, ele distribui pequenas sugestões que possuem efeito no desenrolar, como um sorriso de um estranho na cena do velório no início, um desenho no poste ou um nome no tapete.

A primeira metade dos 127 minutos é reservada em boa parte para abordar os dilemas da família. Temas como o luto, a forma como cada um lida com a culpa, questões como pais ausentes e traumas pelo histórico psíquico da árvore familiar são de extrema importância e ganham a devida atenção. Caminhando para o final, o lado gore toma vez, assumindo de vez a face de filme de terror, com uns sustos nem tão gratuitos e violência explícita.

Quem rouba a cena é Toni Collette no papel da mãe perturbada. Ela capta a angústia de quem carrega o peso dos problemas da família e, ao mesmo tempo, compra a ideia da bizarrice do longa, exagerando nas caras e bocas. Consegue chocar numa possessão mas também ao explodir numa fúria reprimida como na pesada cena do jantar. Por outro lado, Gabriel Byrne (que ao lado de Collette, é produtor executivo) se mostra correto ao encarnar o pai calado, o único “são” ali, que sempre procura encontrar o equilíbrio e agir com a razão.

O jovem Alex Wolff (de “Jumanji: Bem-Vindo à Selva”, 2017) também é destaque, não só ao encarnar as demonizações ou com gritos de desespero convincentes, mas com uma veia dramática admirável, conseguindo com uma expressão congelada com foco fechado no seu rosto e uma pequena lágrima em um só olho, transmitir uma mistura absurda de sensações. A estreante Milly Shapiro tem um rosto assustador por si só (claro, bem modificado através da maquiagem) e reproduz com propriedade todo o mistério que sua personagem carrega.

Com um desfecho que certamente vai fazer o espectador pensar, “Hereditário”  até peca ao necessitar mastigar no fim o que está diante dos olhos. Mas utiliza os ingredientes padrões do gênero de maneira muito eficiente e puxa reflexões sobre a realidade do teor sobrenatural ali existente. Será que as doenças mentais que passavam por gerações não seriam os canais que ocasionaram tantos incidentes, causando abalos psicológicos e físicos em todos? São questões que, se assistir numa segunda vez, certamente funcionam como ironia dramática e trazem novas percepções.

Por conseguir impressionar, fazer refletir e ao mesmo tempo ser bizarro, esse longa já conquistou o seu espaço entre os destaques do ano.

Nota: 8,5