Crítica: “Te Peguei!” é hilário na mesma proporção que é absurdo

Um bando de adultos levando à sério uma brincadeira de pega-pega é algo bizarro? Sim. Pois tem uma turma que há 30 anos faz isso e rendeu matéria de capa do Wall Street Journal. Ainda assim, se trata de uma premissa tola demais para a realização um filme. Mas uma nova geração de longas de comédia tem conseguido extrair graça das situações mais simples possíveis. Se jogos de tabuleiro eram o pano de fundo de “A Noite do Jogo” (Game Night, 2018), uma das principais surpresas do ano, a Warner Bros. volta a acertar com “Te Peguei!” (Tag, 2018), uma produção que agrada na mesma medida que não tem compromisso algum com seriedade.

Na “trama”, desde a primeira série na escola, um grupo de cinco amigos tem um hábito curioso que realiza sempre uma vez ao ano: brincar enlouquecidamente de pega-pega, correndo em uma competição para ser o último homem a não ser tocado, arriscando seus empregos e relacionamentos. No ano do casamento do único jogador invicto da turma, eles tentam de tudo para alcançá-lo.

Sendo assim, não precisa pensar muito para descobrir que o objetivo do roteiro de Mark Steilen (de séries como “Shameless” e “Will”) e Rob McKittrick (do horrível “A Hora do Rango”, 2005) é criar situações cômicas em cima de tal brincadeira, como o uso de disfarces para ataques surpresas e o fato de ignorar momentos de extrema importância como um parto ou um funeral para o jogo continuar valendo. Claro que daí teremos diversas gags visuais, como algum personagem tentando fugir subindo em lugares altos e caindo de um suporte de ar condicionado.

Nessa “pegada” (perdão pelo trocadilho), o longa se beneficia ao dar uma grande dimensão a algo tão banal, tornando o jogo por si uma piada pronta para o espectador. O diretor Jeff Tomsic (também saído de diversos seriados de comédia) faz de uma perseguição com carrinhos de golfe parecer uma cena de ação de verdade ao transmitir a emoção nas expressões dos envolvidos, para logo depois apresentar o plano aberto e mostrar o quanto tudo ali é pequeno.

Ele se sai bem ao conduzir sequências de “lutas” em que objetos ou comidas do cotidiano são utilizados como armas, utilizando slow-motions no melhor estilo “Matrix” (idem, 1999) de maneira precisa, ao mesmo tempo em que quebra a quarta parede e brinca com a própria obra quando uma jornalista diz que “por isso que a mídia impressa está perdendo espaço”. Há uma cena de tortura para descobrir o paradeiro de um dos integrantes, para logo depois nos lembrar que nenhum deles é mau caráter a ponto de praticar violência com alguém de maneira proposital.

Apesar de se basear em um grupo de pessoas reais (que é bem maior do que apenas cinco), não tem a necessidade deles serem adaptados com fidelidade, pois suas vidas pessoais não são exploradas. Cada personagem carrega um estereótipo escrito para o seu respectivo intérprete: o protagonista bobão que mais tem a ambição de pegar o amigo invicto (Ed Helms, de “Se Beber Não Case”, 2009), o empresário bem sucedido (Jon Hamm, da série “Mad Men”), o maconheiro desleixado (Jake Johnson, da série “New Girl”), o negro complexado (Hannibal Buress, de “Vizinhos”, 2014) e, por fim, o maioral (Jeremy Renner, de “A Chegada“, 2016).

Enquanto o carisma de todo o elenco segura por causa do potencial cômico de cada um, a piada em torno de ter um Vingador como principal alvo rende os momentos mais divertidos e absurdos. Renner é conhecido por estrelar longas de drama e ação e, aqui, usa toda a desenvoltura (com ajuda de dublês e efeitos especiais) e canastrice proposital para fazer de Jerry uma espécie de “Deus Ex-Machina do pega-pega” (?!), num contraponto com as piadas e memes que o seu Gavião Arqueiro (inclusive com muitas poses sendo referenciadas aqui) se tornou por teoricamente ser mais fraco do que os amigos superpoderosos.

Se por um lado o ar imbatível do personagem de Renner, que é rápido a ponto de “se multiplicar” se escondendo por trás das árvores, se torna o centro do longa, o mote acaba por deixar as subtramas totalmente irrelevantes, como um possível triângulo amoroso entre dois deles com uma paixão de infância (Rashida Jones) e a presença das mulheres bastante deslocadas, como são os casos da esposa do protagonista (a ótima Isla Fisher, mal aproveitada) e da repórter (Annabelle Wallis) que os acompanha para escrever tal matéria que inspirou o longa.

Com um ritmo que aposta nas piadas decorrentes das perseguições desenfreadas, se torna um tanto repetitivo lá pela reta final. Fica a impressão que os realizadores não souberam criar um desfecho e termina de qualquer jeito. Tem toda aquela lição de preservar as amizades antigas, de modo que o jogo infantil soa como desculpa para eles não se distanciarem, independente dos rumos da vida. Faz sentido, mas poderia ter sido melhor abordada ao longo da narrativa ao invés de apenas jogada antes dos créditos finais surgirem. Quando há alguma dramaticidade, ninguém se importa mais.

De todo modo, tudo não passa de uma imensa brincadeira que não ofende e ainda garante algumas risadas como zoar da cara do seu amigo próximo que nunca perde antigas manias e só você as entende.

Nota: 7,0