Crítica: “Slender Man: Pesadelo Sem Rosto” é um pesadelo sem fim

Foto: Divulgação
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Até que demorou para que chegasse aos cinemas um filme de gênero sobre o monstro Slender Man, que tomou conta da internet a partir da “Creepypasta”, histórias de terror ou lendas urbanas que são inventadas e viralizadas através de fóruns, vídeos no youtube e redes sociais em geral, gerando incidentes violentos entre jovens. Mas o forte potencial que teria a ser abordado é destruído por completo em “Slender Man: Pesadelo Sem Rosto” (Slender Man, 2018), que vira uma grande reunião de clichês e acontecimentos patéticos que acabam por gerar humor involuntário.

Na trama, as amigas Wren (Joey King), Hallie (Julia Goldani Telles), Chloe (Jaz Sinclair) e Katie (Annalise Basso) levam uma vida entediante no colégio. Quando ouvem falar num monstro chamado Slender Man, decidem invocá-lo através de um vídeo na Internet. A brincadeira se transforma num perigo real quando todas começam a ter pesadelos e visões do homem se rosto, com vários braços, capaz de fazer as suas vítimas alucinarem.

De início, a condução do diretor Sylvain White (do apenas regular “Os Perdedores”, 2010, e uma pilha de seriados) até que se mostra promissora. Através de planos holandeses e câmera em mão livre ele mostra o imenso vazio que é a pequena cidade no Massachusetts e o medo é induzido de maneira gradual através de sombras, enquanto a boa trilha sonora de Ramin Djawadi e Brandon Campbell confere o tom de mistério, com badaladas e sirenes discretas. Os recortes do tal vídeo são estilosos, ainda que não impressione por causa da semelhança com “O Chamado” (The Ring, 2002). Mas à medida que o terror avança, surge um festival de erros.

Começando pela fotografia extremamente escura, até mesmo em situações que não caberiam, como nos corredores da escola ou em plena luz do dia. Se a ideia era criar um clima sombrio, sai pela culatra, pois não só dificulta a visão do que está em cena como torna as personagens nada racionais, já que elas estão morrendo de medo e mesmo assim todas estão sempre com as luzes de casa apagadas. Será que é tão difícil assim apertar o interruptor ou existe uma adoração geral por abajures?

Mas coerência é algo que passa muito longe de todas ali. O roteiro de David Birke (que estranhamente escreveu o ótimo “Elle”, 2016) as coloca para cometer todo tipo de estupidez como a descoberta de informações cruciais sobre um desaparecimento de uma amiga em um notebook que não são levadas para a polícia até o adentrar em matagais no meio da escuridão. E o script ainda antecipa as gafes, como uma orientação para não olhar para o bicho, e sabemos que a coitada fará justamente o contrário. E se para invocar o Slender Man é necessário sacrificar algo valioso, isso funciona com um pires de barro, uma touca de crochê e uma fotografia? Como ele é barato!

Tudo só piora quando tal assombração sai do campo psicológico para o físico. Afinal, existe a dúvida por parte delas se o monstro existe ou se trata de apenas mais uma invenção da internet, o que é até bem contextualizada pela trama se passar há alguns anos, em tempos em que fake news não era tão comuns e elas comparam o mito com um “vírus da Rússia”. Mas tudo vira ataque real, os efeitos especiais não impressionam e tampouco passam medo. Os tradicionais “jump scares” que têm como única função provocar sustos gratuitos aparecem aos montes. E as alucinações? Bom, um certo “surto” de um paquerinha de uma delas chega a ser constrangedor!

As personagens são tão desinteressantes e sem nenhuma profundidade que a vontade é que elas desapareçam de vez para acabar com a tortura de quem assiste. A única que se destaca sequer está no núcleo principal, a garota Lizzie (Taylor Richardson), que convence estar sob possessão. Por outro lado, Hallie (Goldani Telles, da temporada “Gilmore Girls: Um Ano para Recordar”, 2016), que até tem alguma dramaticidade, vai aos poucos sendo jogada de lado para entregar o protagonismo para Wren (King, do sucesso modinha “A Barraca do Beijo”, 2018). Essa transição só irrita pelas implicâncias de adolescentes que uma tem com a outra e demora uma vida para enfim a trama ter algum desfecho.

Assim temos mais um exemplar de terror que nada tem a acrescentar, com uma hora e meia que se arrasta com momentos agonizantes pelos motivos errados. Para fins de interesse, a dica é que pule esse longa e confira o documentário “Beware the Slenderman”, produzido pela HBO em 2016, que aborda de maneira aprofundada o caso real em que duas garotas de doze anos que esfaquearam 19 vezes uma colega como homenagem à criatura da internet. O terror do cotidiano, espalhado pelo mundo virtual, assombra muitos jovens nos dias de hoje e podem ter certeza que é bem mais ameaçador!

Nota: 2,0