
Não é de hoje a realização de produções que focam no domínio da internet sobre o homem nos dias atuais (algo que o seriado “Black Mirror” faz muito bem) e muito menos sobre a busca de alguém desaparecido (“O Preço de um Resgate”, 1996; “Todo o Dinheiro do Mundo”, 2017, entre outros). Mas a união dessas duas vertentes num formato inventivo, sempre através das telas de computador, webcam, televisão, câmeras de segurança, iphones e aplicativos diversos, potencializa a imersão do espectador naquela investigação até a última potência. Por isso, “Buscando…” (Searching, 2018) certamente figura entre os melhores filmes de 2018.
Na trama, David Kim (John Cho) se desespera quando sua filha de 16 anos desaparece e as investigações policiais não levam a lugar nenhum. Decidido a descobrir o paradeiro da filha, ele usa o computador da menina para vasculhar suas fotos e vídeos em busca de pistas.
O grande mérito do longa é o fato dele se situar quase que inteiramente na diegese, a realidade vivida pelos personagens. Com exceção da eficiente trilha sonora de Torin Borrowdale, em que através de sintetizadores e pitadas de música clássica ajuda a atenuar a tensão no decorrer da projeção (ainda que tentem induzir que às vezes a música é ouvida pelo protagonista no Youtube, mas, não cola), tudo que vemos fica sob a perspectiva das muitas telas que estão em cena.
Não que seja novidade, pois filmes como “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999) e “Cloverfield – Monstro” (Cloverfield, 2008) fizeram algo parecido, mas soava absurdo alguém não parar de filmar mesmo com a vida estando por um fio. O “terror” de baixo orçamento “Amizade Desfeita” (Unfriended, 2014) é o que mais se aproxima da proposta de “Buscando…”, mas o longa era mais uma desculpa para uma avalanche de sustos gratuitos.
Aqui, a imaginativa direção do estreante Aneesh Chaganty, aliada ao dinâmico trabalho de montagem de Nick Johnson e Will Merrick, nunca deixa o suspense cair, ao mesmo tempo em que vamos montando o quebra cabeça juntamente com David Kim sem soar forçado. Ele vai dormir, sai de casa, fala pelo telefone, mas o jovem cineasta de apenas 27 anos sempre dá um jeito de mudar o plano para alguma outra mídia que o mantenha em foco de maneira coerente. Nem que para isso recorra ao GPS do Google Maps para representar o deslocamento de um carro.
O uso das inúmeras funções de um computador vão sendo descobertas mediante às necessidades. De início, temos o passo a passo de um Windows XP, a seleção do login dos usuários, a visualização de vídeos de arquivo e uma planilha de Excel que já emociona nos minutos iniciais pelo destino de uma personagem. Quando a adolescente desaparece, entramos nas plataformas diversas em que jovens querem aparecer de qualquer forma e interagem com desconhecidos utilizando nomes e fotos falsas.
Obviamente o roteiro do próprio Chaganty, ao lado de Sev Ohanian (do pouco visto “My Big Fat Armenian Family”, 2008), deixa implícita a crítica ao mundo contemporâneo, superexpositivo e que nunca deixamos de ser observados. Afinal, bastam alguns cliques para descobrir senhas de email, telefones pessoais a partir apenas do nome. Quando o fato torna-se público, não demora para a opinião em geral render julgamentos diversos, memes, vídeos sarcásticos no Youtube e pessoas hipócritas se aproveitando da situação para ganhar visibilidade e “curtidas”.
Tudo isso sem nunca deixar a trama principal, que é a busca pela garota, de lado. À cada avanço e novas pistas induzindo possíveis “culpados”, criamos diversas possibilidades em nossas mentes e o texto arquiteta reviravoltas o tempo todo, mantendo a curiosidade sobre o desfecho sempre atiçada. E mesmo quando nenhum ator está em cena, o diretor trata de transmitir a emoção quando algum texto está sendo digitado. Quem nunca escreveu um “textão” desaforado, mas se arrependeu e apagou tudo antes de enviar? A seleção de palavras exatas para chegar ao receptor é sempre cautelosa.
Ousando até por utilizar um ator de origem asiática no papel principal, o ótimo John Cho (o Sulu da trilogia “Star Trek”, 2009, 2013, 2016) mostra mais uma vez ter uma aguçada veia dramática para além das comédias que fazia no passado. Do pai amoroso e até rígido do início, sua expressão vai se tornando cada vez mais desgastada com passar do tempo, passeando entre a angústia e o cansaço, chegando a desabar de tristeza. Destaque também para Debra Messing (mais conhecida por protagonizar a série “Will & Grace”), como a policial responsável pelo caso, mostrando a frieza necessária de quem precisa manter uma postura imparcial, mas sem perder o lado humano.
Com tantos longas com temas semelhantes sendo lançados, é louvável a forma como esse “Buscando…” conduz a narrativa sem apelar por mostrar o que está por trás de tudo. Afinal, o mundo real e o virtual estão cada vez mais difíceis de andarem separados um do outro. Não seria exagero dizer que se Alfred Hitchcock estivesse vivo nos dias de hoje, teria orgulho desse trabalho.
Nota: 9,0