Crítica: Novo “Halloween” honra o espírito do original de 1978

Foto: Divulgação

A franquia Halloween é não só uma das mais emblemáticas do gênero slasher como também uma das mais remexidas. Afinal, já foram nada menos que 10 filmes, incluindo duas tentativas de reboot e um longa que sequer conta com o seu principal símbolo, o serial killer Michael Myers. Porém, o único referenciado como clássico é mesmo o original, de 1978, dirigido por John Carpenter.

Com o intuito de ignorar tudo que fora feito depois, “Halloween” (idem, 2018) desenterra mais uma vez a famosa máscara inexpressiva como uma continuação direta daquele, 40 anos depois. Nesta pegada, surge como uma homenagem bem digna, mas com gosto de repetição.

Na trama, quatro década depois de ter escapado do ataque de Michael Myers em uma noite de Halloween, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) terá que confrontar o assassino mascarado pela última vez. Ela foi perseguida pela memória de ter sua vida por um triz, mas dessa vez, quando Myers retorna para a cidade de Haddonfield, ela está preparada.

Após um breve prelúdio, a trilha-sonora clássica surge triunfal e os créditos com estilo “retrô”, apresentando os nomes dos atores junto ao de seus respectivos personagens (algo que não é feito nos dias de hoje) e a abóbora que estampa o pôster do longa de 78, mostra que a intenção é instigar a nostalgia. Há referências diretas ao psiquiatra Loomis (vivido no original por Donald Pleasence) e até áudios do primeiro. John Carpenter deu o aval, levou créditos de produtor executivo e até contribuiu remodelando a trilha. Ou seja, é quase como uma visita ao passado.

Por mais que a história ignore tudo que aconteceu nas inúmeras sequências, o roteiro do diretor David Gordon Green (“O Que Te Faz Mais Forte”, 2017), do comediante Danny McBride (“Sua Alteza?”, 2011) e do iniciante Jeff Fradley inclui várias passagens que lembram situações já vistas antes. Por exemplo, quando a neta de Laurie a vê de longe pela janela (no primeiro, era o assassino quem aparecia ao fundo, traçando a semelhança entre os dois), tem a tradicional reviravolta envolvendo alguém em certo ponto e até a repetição da clássica frase “Happy Halloween, Michael!”.

E se a trama não tem muito o que se aprofundar além de mostrar a perturbação de Laurie e Michael matando todo mundo por aí até encontrar a sua “irmã” (será que mantiveram esse vínculo, que só foram abordar nas continuações aqui esnobadas?), a narrativa trata de fortalecer o vínculo de ódio que os mantém unidos por décadas. Ele, passou todo esse tempo preso e calado pensando apenas em sair e matá-la. Ela, se tornou uma pessoa que não conseguiu manter laços afetivos com a família e se prepara há 40 anos para se vingar do “bicho papão” que causou os maiores traumas dela.

É simplista ao extremo, assim como o primeiro também era. Pelo menos, desconstrói marmotas que inventaram ao longo dos anos na franquia, como explicações sobrenaturais sobre Michael Myers que o transformaram em alguém superpoderoso, desculpas para surfar na onda dos reality shows do início dos anos 2000 ou mesmo uma aura gore e exagerada dos longas dirigidos por Rob Zombie (que não eram necessariamente ruins, pois ali existia uma tentativa de trazer traços autorais).

Herdando a cadeira outrora pertencente a John Carpenter, David Gordon Green não tenta inovar na forma como Myers mata, mas conduz cenas bem estilosas. Ele sabe atenuar o suspense através do som da bota caminhando pelas brechas dos boxes do banheiro, partindo para o choque ao jogar dentes no chão. Acertadamente ele tem cautela ao fazer a aproximação entre Laurie e o assassino, primeiro ele a avistando através de um buraco na parede e, depois, ela vê o reflexo dele no espelho. Tudo é preparado para o clímax, que conta com confrontos brutais, mas, ali há um certo exagero nos cortes, deixando a compreensão um tanto confusa.

De volta ao papel que deu a ela o título de “rainha do grito”, Jamie Lee Curtis traz a versão mais forte de Laurie até aqui. Se a atriz até já pediu que a personagem morresse numa das continuações e foi atendida pois queria se livrar da personagem, aqui ela ressurge com cabelos brancos de respeito, cara fechada e carregando uma carga dramática ali sempre implícita. Ela sai do papel de caça para o de caçadora de maneira definitiva.

No papel da filha dela, Judy Greer capta a introspecção de uma mulher cheia de boa vontade, apesar da infância perdida, alimentada pelo medo. Por outro lado, a jovem Andi Matichak parece um tanto insegura num papel tão complexa e, acertadamente, não a colocaram no posto de nova protagonista. Ainda, já que tudo indica que não vão parar por aqui.

Todos estão diante de um longa claramente feito para fãs. O que pode não ser algo positivo, já que sem as lembranças do que já fora feito, pode soar para o público em geral como mais um filme comum sobre um mascarado matando todo mundo que encontra pela frente. O que não deixa de ser verdade, mas, pelo menos não ofende.

Nota: 7,0