
Nos cinemas há mais de uma década, a franquia “Transformers” virou um parque de diversões para a megalomania do diretor Michael Bay. Tramas com robôs dinossauros, Cavaleiros da Távola Redonda, cenas de ação cada vez mais grandiosas e incompreensíveis tornaram os cinco filmes numa bagunça generalizada. Por isso, poucos botaram fé quando um spin-off sobre o personagem Bumblebee foi anunciado. Mas eis a surpresa: “Bumblebee” (idem, 2018) faz questão de ir na contramão do que vinha sendo feito e entrega uma aventura leve, com uma forte pegada de nostalgia dos anos 80.
A trama se passa em 1987. Refugiado num ferro-velho numa pequena cidade praiana da Califórnia, um fusca amarelo aos pedaços, machucado e sem condição de uso, é encontrado e consertado pela jovem Charlie (Hailee Steinfeld), logo quando ela completa 18 anos. Só quando o “Autobot”, que na verdade se trata de um alienígena, ganha vida, ela enfim nota que seu novo amigo é bem mais do que um simples carro e tem um objetivo bem maior no planeta dela.
Pela primeira vez Michael Bay fica de fora da direção de um longa da franquia. E aí onde está, talvez, o maior acerto deste prequel: a escolha pelo diretor Travis Knight, responsável pela excelente animação “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016). Acostumado a lidar com projetos para o público infanto-juvenil, ele direciona o filme direto para a geração que se divertia com os brinquedos da Hasbro e curtia o desenho animado na TV. Crianças, hoje crescidas, que fantasiavam com veículos que se transformavam em robôs. Simples, né? Não precisa de grandes invenções e o responsável mostra plena consciência disso.
Para não ser injusto, o primeiro “Transformers” (idem, 2007) até tinha um pouco daquela aura de “Sessão da Tarde”, possivelmente sob influência de Steven Spielberg, que assina como produtor, antes de bagunçar tudo até a última potência. Travis Knight parece compreender a valia de que “menos é mais”. O foco é totalmente voltado para a relação do personagem título com sua nova dona, com a inclusão de dois “Decepticons” numa trama secundária para gerar cenas de ação pontuais.
O fato de terem trazido uma mulher, Christina Hodson (“Paixão Obsessiva”, 2017), contribuiu para trazer sensibilidade. É clara a intenção de embarcar na onda – atenuada pelo seriado “Stranger Things” (2016) e “It – A Coisa” (2017) – nostálgica que referencia produções do passado. A história da máquina de guerra que perde a memória e sua essência bondosa vem à tona que remete a “O Gigante de Ferro” (1999), da jovem escondendo a “criatura” dos pais como “E.T. – O Extraterrestre” (1982), lições sobre amizade e diferenças de “O Clube dos Cinco” (1985), que inclusive é várias vezes referenciado, estão lá de maneira proposital.
Por sinal, é constante a intenção de contextualizar a trama no ano de 1987, com a aparição de pôsteres dos filmes “O Enigma do Outro Mundo” (1982), “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) e uma trilha sonora repleta de hits, incluindo Bon Jovi, Tears For Fears, The Smiths, Ricky Astley, A-Ha, Duran Duran, entre outros. Obviamente a intenção é tornar tais músicas um referencial positivo para o longa, mas como aqui o personagem desenvolve a fala através do rádio, elas se encaixam de maneira coesa, não são jogadas aleatoriamente, como fora feito no pavoroso “Esquadrão Suicida” (2016).
Outro objetivo atingido com sucesso é o de criar empatia com Bumblebee. Começando por fazer do seu “disfarce”, finalmente, um Fusca amarelo, fiel como era nos produtos originais, diferente de um carrão como um Camaro. O design de produção é eficiente ao humanizar o alienígena, com olhos que, literalmente, brilham quando se encanta e mexe a parte de cima como sobrancelhas. A transformação entre carro e robô, ao invés da coisa brusca e aleatória como antes, aqui trata de tentar tornar crível. Assim, ver o inocente personagem atrapalhado com medo de pessoas e sendo desastrado ao quebrar acidentalmente tudo o que vê pela frente, certamente o tornam “fofo”, muita gente vai se encantar por ele.
A ação está presente, mas de maneira bem precisa. Há uma introdução entupida de CGI situada em Cybertron (com direito a aparição do Optimus Prime com visual original) em que até sugere uma ilusão de que teremos uma confusão visual por vir. Não! Quando a trama é transferida para a Terra, temos uma sequência de luta bem coreografada que serve bem como introdução para a narrativa principal. A movimentação maior só volta no clímax, em que mais uma vez temos batalhas corporais eficientes e sem exageros. E principalmente: é possível compreender o que acontece em cena, sem cortes supersônicos em frações de segundo, causando labirintite ou enxaqueca. Só não funciona quando insistem em colocar a jovem Charlie para mergulhar, o que soa bem forçado.
Por sinal, Hailee Steinfeld é um baita acerto como protagonista. Ela, que foi indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante lá em 2010 por “Bravura Indômita”, convence como uma garota que acaba de completar 18 anos (ela tem 22), insegura com a situação atual, lidando com as diferenças com a mãe, o irmão mais novo e o padrasto, mas com força para persistir nos seus objetivos. Ela consegue a difícil tarefa de alcançar o ponto de equilíbrio, sem cair no estereótipo da adolescente rebelde ou da menina inofensiva. Como “antagonista”, o ex-lutador de WWE John Cena também se sai bem ao não evocar um machão cheio de caras e bocas. Ele até mostra carisma e conferimos que ali existe bondade.
“Bumblebee” é uma legítima “Sessão da Tarde” que seria exibida nos anos 90. É um elogio e tanto! Sabe brincar com a memória do passado e ser leve como todas as continuações de “Transformers” não foram. Há brecha para continuação, mas, será que vão conseguir segurar o ímpeto e manter essa pegada? Não seria má ideia se encerrassem com esse episódio avulso, de longe o melhor, dessa problemática franquia.
Nota: 8,0