
Foram nada menos que 19 anos para que “Corpo Fechado” (Unbreakable, 2000) viesse a ganhar uma continuação. E veio como uma surpresa quando, ao final de “Fragmentado” (Split, 2016), o diretor M. Night Shyamalan mostrou que estava criando um universo próprio, unindo os personagens dos dois filmes. Obviamente, fãs foram à loucura com o anúncio do início da produção de “Vidro” (Glass, 2018). E se o resultado não gerasse opiniões divergentes, provavelmente não seria um longa de Shyamalan. Neste crossover, o indiano radicado nos Estados Unidos mais uma vez exibe sua técnica apurada, encerra uma trilogia de maneira digna, porém, conta com irregularidades que podem influenciar na percepção geral, principalmente se houve expectativa alta.
A trama se situa poucos dias após os acontecimentos de “Fragmentado”. Kevin Crumb (James McAvoy), o homem com 24 personalidades diferentes, passa a ser perseguido por David Dunn (Bruce Willis). O jogo de gato e rato entre o homem inquebrável e a “Fera” acaba levando-os a um hospital psiquiátrico onde lá se encontra Elijah Price (Samuel L. Jackson), um gênio com doença rara nos ossos que quebram com enorme facilidade.
Um grande desafio a ser enfrentado pela produção era o timing, já que quase duas décadas a separam do início da história. Quando “Corpo Fechado” foi lançado, a internet ainda engatinhava e a obtenção de informações era bem mais lenta. Impulsionado pelo sucesso de “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense, 1999), a repetição da dobradinha Shyamalan/Bruce Willis era um drama sobre super herói enraizado no mundo real. Na época, o gênero não tinha a popularidade e garantia de bilheterias grandiosas como hoje. Era uma aposta arriscada que demorou para ser compreendida.
“Fragmentado” foi um suspense psicológico apoiado num personagem, que naturalmente rouba a cena, e marcou a volta do diretor às produções de qualidade após uma série de fracassos. “A Dama na Água” (Lady in the Water, 2006), “Fim dos Tempos” (The Happening, 2008), “O Último Mestre do Ar” (The Last Airbender, 2010) e “Depois da Terra” (After Earth, 2013) colocaram em dúvida o real potencial do cineasta. Se uma “redenção” já parecia desenhada, faltava misturar aqueles dois longas de tons totalmente diferentes de maneira coesa. Assim, o ritmo muitas vezes lento, outrora intercalado com cenas de ação pontuais e entregando um clímax com a proposta “pé no chão” pode deixar a sensação de que fez um básico bem feito, mas poderia ser bem melhor.
O talento dele na direção pode ser visto. Começando pela paleta de cores, facilitando a divisão de núcleos entre os personagens. David Dunn é o verde, representando vida. Elijah é o roxo, que no cinema é associado à morte. Kevin é amarelo (seria o desequilíbrio?). Tais cores também são aplicadas aos cenários, mostrando qual deles está sob o controle da situação. Cenas originais que acabaram cortadas do longa lá de 2000 são aproveitadas aqui, conferindo credibilidade e nostalgia aos flashbacks. Há muitas sequências sem cortes pelo hospital dando ideia de claustrofobia e estilosos planos holandeses. O foco na expressão fechada de Dunn no meio do embate corporal, closes para captar o impacto de cada ato sem exibir o que está ao redor…ele sabe o que faz!
Responsável também pelo roteiro, ele trata de (re)apresentar os personagens e colocá-los cara a cara num primeiro ato bem dinâmico. David Dunn, interpretado por um Willis de 63 anos, barba branca e a mesma cara de tristeza de alguém sem maiores motivações na vida, assumindo de vez a missão de herói e indo às ruas para fazer justiça com as próprias mãos, contando com a ajuda do filho Joseph (Spencer Treat Clark, repetindo o papel). Kevin e suas múltiplas personalidades faz o que sabe, sequestrar adolescentes, e não demora para eles travarem um embate brutal (e convence, mesmo com o orçamento U$ 20 milhões, bem modesto para os padrões atuais).
A migração para o hospital psiquiátrico soa como algo prático, tanto a nível de história, como pelas limitações financeiras. É ali onde o tempo passa mais devagar, remetendo ao clima cadenciado de “Corpo Fechado”. A “franquia” nunca se tratou de ação, e sim, sobre o autoconhecimento e a carga de insegurança que aqueles seres peculiares carregam. Daí então surge a Dra. Ellie Staple (vivida pela talentosa Sarah Paulson), que volta a colocar em dúvida se eles de fato possuem poderes sobrenaturais. Parece um arco desnecessário, visto que há quase duas décadas eles estão em atividade. Porém, a busca pelo lugar no mundo foi o grande questionamento de Dunn, então, é natural que esse dilema volte a atormentá-lo, enquanto Kevin busca compreender se as personalidades que aparecem são uma forma de autodefesa para os seus traumas.
É justamente neste segmento que Elijah Price, o Senhor Vidro do título, mostra todo o seu intelecto fora da curva, arquitetando planos minuciosos, manipulando as ações dos outros dois. Samuel L.Jackson continua demonstrando ter pleno controle do papel, primeiramente sem nenhuma expressão e se comunicando apenas com o olhar (o tique no olho é muito preciso), depois com a frieza necessária para seguir com a missão de ver as histórias em quadrinhos acontecerem diante dos olhos. Ainda assim, ali existe todo um drama, percebe-se que não se trata de um mal puro, apenas alguém que acredita num objetivo maior. E justamente por ser tão complexo e o elo que une o herói e o vilão, causa estranheza o menor tempo em cena. Ele é o motor de toda a narrativa, mas, boa parte do tempo, apenas como um “personagem fantasma”, sem aparecer de fato.
Por sinal, o próprio Bruce Willis parece jogado para escanteio, principalmente durante o segundo ato, o que mais se assemelha ao seu próprio filme. É nítida a atenção reforçada aos papeis de James McAvoy (que assume até o primeiro nome dos créditos). É entendível, pois é o que permite maior apreciação da atuação e o ator mais uma vez dá um show à parte. Além do menino Hedwig, a autoritária Patricia e o maníaco Dennis, ele apresenta diversas outras personas, além da imponência física da “Besta”. Acontece que a maioria dessas variações parecem incluídas para deixá-lo brilhar, sem efetividade no roteiro, quando o que está em jogo é a humanidade de Kevin Wendell Crumb, sua personalidade matriz. A talentosa Anya Taylor-Joy retorna como Casey Cooke de maneira até forçada, sob a desculpa de caber a ela trazer o que resta de bom em Kevin.
Quando se espera um final explosivo, Shyamalan vai lá e subverte a expectativa da geração atual que vibra com festivais de efeitos especiais e lutas cheia de coreografias mirabolantes. O tom realista é mantido, enquanto a premissa de colocar propositalmente em prática os muitos clichês das histórias em quadrinhos segue até o final. Nos principais longas do cineasta, os desfechos decorreram em cenários simplistas e aqui não é diferente. Marca registrada dele (e até uma armadilha para si), há o plot-twist que faz o espectador enxergar tudo sob outra ótica, numa ironia dramática. O daqui não é tão forte como outros e tem gerado divergências, mas faz sentido dentro daquele contexto.
Mesmo se mantendo fiel ao que acredita, o indiano não deixa de cometer suas derrapadas no roteiro. O mais incômodo é ver o trio aprisionado quando bastava usar seus diferenciais para fugir ou simplesmente provar que eles são reais. Dunn poderia quebrar qualquer corrente de ferro enquanto não estivesse embaixo dos tais chuveiros potentes. E as luzes que “anulam” as personalidades perigosas de Kevin? Não bastava ele fechar os olhos ou ficar de costas, que a “Besta” trataria de fazer um estrago contra enfermeiros, até sem precisar enxergar?
E qual é a necessidade de mostrar uma foto de Joseph no colégio de Casey, só para dizer que eles estudaram no mesmo lugar? Se for para esclarecer que eles estão trilhando caminhos semelhantes, o próprio desenrolar do longa trata de mostrar isso. Os diálogos são extremamente expositivos, sempre explicando para quem assiste cada passo dos planos ou o que ainda está para acontecer. Sim, tudo é uma homenagem de M.Night às HQs e como são levadas para este contexto “real” através da mente criativa de Elijah, mas tudo é muito explícito. Bem diferente da delicadeza artística de “Corpo Fechado”, em que as descobertas ficam subentendidas, sem precisar mastigar para o espectador.
Mesmo com controvérsias, Shyamalan consegue encerrar o arco de David, Elijah e Kevin ao seu estilo, sem tentar agradar públicos específicos ou cair em modismos. Há uma mensagem voltada para os nerds de plantão/fãs de HQs, tão vítimas de preconceito há duas décadas e hoje celebrados, a se mostrarem para o mundo pois são diferenciados. Não é nada inovador, mas ele deixa o recado. Assim como não entrega o seu melhor longa-metragem, mas passa longe do nível das bombas que fez num passado recente. Ainda bem.
Nota: 7,5