Crítica: “Green Book – O Guia” é um eficiente road movie com obstáculos dramáticos

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Já é comum termos aqueles indicados ao Oscar de Melhor Filme com tom despretensioso, leve, que dificilmente desagradam alguém. Foi assim com “Ou Tudo Ou Nada” (1997), “Pequena Miss Sunshine” (2006), “Juno” (2007), “O Lado Bom da Vida” (2012), dentre tantos outros. Nesta edição de 2019, quem assume esse papel é “Green Book – O Guia” (Green Book, 2018), que chega com o respaldo de ter levado o Globo de Ouro na categoria Melhor Filme – Comédia ou Musical e vem sendo comparado com “Conduzindo Miss Daisy” (1989), vencedor do principal prêmio da Academia em 1990, só que “às aversas”. Mas neste caso, o fato de ser “baseado em fatos reais” pode acabar por interromper as pretensões por causa de algumas polêmicas.

A história se passa em 1962 e apresenta Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), um americano descendente de italianos que trabalha como segurança de uma discoteca em Nova York. Precisando de emprego após um incidente no local, ele vai a uma entrevista com Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista Que precisa de motorista para a sua turnê. Enquanto os dois se chocam no início, já que Tony apresenta comportamentos racistas, um vínculo entre os dois cresce à medida que eles viajam.

Conhecido por comédias pastelonas como “Debi & Lóide – Dois Idiotas em Apuros” (Dumb & Dumber, 1994), “Quem Vai Ficar com Mary?” (There’s Something About Mary, 1998) e “O Amor é Cego” (Shallow Hal, 2001), Peter Farrelly assina pela primeira vez a direção sem a parceria do irmão Bobby e mostra segurança no comando de um road movie dramático que utiliza o humor como ferramenta complementar da narrativa. Apesar de algumas tiradas cômicas do arrogante Tony ou lições moralistas descabidas de Shirley que garantem a leveza, o longa trata de contextualizar a época em que a segregação racial nos Estados Unidos ainda era forte. Não à toa o “Livro Verde” do título, escrito por Victor Hugo Green, um guia destinado a uma classe média negra que passava a ter veículos motorizados, ainda minoritária, está presente o tempo todo.

Dentre os momentos mais fortes visualmente, o carro em que a dupla viaja tem um problema e o músico encosta no seu veículo vestindo terno, enquanto observa negros trabalhando numa lavoura, sob o sol quente, com enxadas nas mãos. Nem precisa de nenhum diálogo ali, enquanto o próprio Shirley é visto com olhares desamparados, para deixar claro que os resquícios da escravidão estão por todos os lados. Também fica nítido quando o pianista, tão apreciado pela sua arte, durante uma apresentação numa mansão de luxo em que precisa ir ao banheiro, é “pedido delicadamente” para ir ao boxe de madeira instalado nos fundos do jardim. Essa linha tênue está sempre bem representada, através de pessoas que não se dizem preconceituosas e “até oferecem alguma opção de conversa”, algo não muito diferente do que vivemos nos dias atuais.

Farrelly trata de apresentar logo os paralelos, começando o longa numa casa noturna frequentada só por brancos abastados, onde lá trabalha o barrigudo Tony. Logo depois é mostrada a rotina dele, numa casa humilde e sempre abarrotada de gente, onde ele sente incômodo ao ver a sua esposa oferecer copos d’água para trabalhadores negros. Na primeira aparição do “Doc” Shirley, ele aparece com um traje nada convencional e sua residência é uma mistura de templo budista com castelo de colecionador milionário, como se ele tentasse através da ostentação provar que conquistou um status superior à maioria dos negros.

Nos primeiros contatos, não há tanta relativização para nenhum dos lados, já que ambos soam chatos em demasia para o espectador. Tony propositalmente não coloca as malas do seu patrão no porta-malas, não para de falar em nenhum momento sequer, fuma enquanto dirige, não tem discrição alguma. Shirley parece querer doutrinar o funcionário quase que à força, brigando com ele por causa das apostas por dinheiro, forçando-o a devolver uma pedra que encontrou no chão ou até sugerindo que ele mude o sobrenome de Vallelonga para “Valle”.

Mas aí entra a questão tênue da veridicidade, ainda mais levando em conta que o roteiro foi escrito por Nick Vallelonga, filho do Tony que é retratado no filme, ao lado de Brian Currie (do pouco visto “Two Tickets to Paradise”, 2006). Até que ponto não aliviaram para o personagem ítalo-americano e pesaram na construção do seu patrão? A amizade que viria a se fomentar entre eles foi mesmo real?

Pelo menos no que é visto em cena, a conexão construída soa um tanto irreal, quando não há correspondência na troca de vivências. Shirley adquire respeito pelo motorista basicamente por ele o proteger usando a força física, seja porque não colocaram o piano que o contratante não queria, ou batendo de frente com um alfaiate que não queria permitir que músico provasse um terno novo, ou livrando-o de situações que soariam ainda mais vexatórias para a época.

Enquanto Tony parecia estar apenas cumprindo a função para o qual foi contratado (o que fica bem claro pelo o que Shirley fala durante a entrevista), a dúvida fica ainda maior ao tentar compreender a empatia criada para com o chefe, pois o que o comove é apenas a admiração pelo seu talento tocando piano e a ajuda que dá a ele em escrever cartas para a esposa (Linda Cardellini, a Velma de “Scooby Doo”, 2002, com pouco espaço em cena).

Seria o suficiente para transformar alguém pintado inicialmente como racista, a abraçar de maneira fraterna ao final alguém “de cor”, como ele próprio se refere? Aí entram as muitas justificativas. É como se a família de Vellalonga o estimulasse a ser racista, enquanto o roteiro trata de inverter os valores ao colocar ele, um “mero motorista”, de escanteio junto com demais funcionários numa festa da alta burguesia enquanto o seu chefe se apresenta.

Por outro lado, é conferido um vitimismo a um gênio da música que é Shirley. Não da sociedade para com ele, pois de fato existia na época, mas ali ele demonstra uma imensa frustração por ser negro e tenta a qualquer custo transmitir a impressão de que subiu na vida, tendo inclusive um mordomo indiano (!). E como um músico virtuoso, soa estranha a repulsa dele em conhecer artistas igualmente incríveis como Little Richard e Aretha Franklin, ou nunca ter provado frango frito, apenas por não querer cair num estereótipo.

Pois bem, os parentes do músico acusaram a produção de ser “uma sinfonia de mentiras”, alegando que Tony e Shirley nunca se tornaram, de fato, amigos, tendo o negro demitido o motorista após o serviço. As alegações mais severas vieram de Edwin Shirley III, sobrinho do pianista, dizendo que o tio nunca teve vergonha de ser negro e não tinha carência de apoio dos familiares, como é induzido em “Green Book”. O quanto foi retratado de maneira errônea e a família está agindo na defensiva? Talvez nunca vamos saber. E o que temos a avaliar é o longa-metragem, que tem muito pontos positivos e alguns bem incompreensíveis.

Mas independente disso, os intérpretes fizeram belíssimos trabalhos. Viggo Mortensen ganhou peso para o papel e está irrepreensível como um típico machão com sotaque italiano, alguém intolerante mas sem maldade no coração e até com intenções pacifistas, mas se precisar usar as mãos, ele vai lá e o faz. Não é o melhor papel da carreira do ator, pois a sensível interpretação dele em “Capitão Fantástico” (2016) ainda deve demorar a ser superada, mas ele segue firme rumo à estatueta algum dia. O Aragorn de “O Senhor dos Anéis” tem talento de sobra.

Mahershala Ali, que ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por “Moonlight” (2016), entrega mais uma vez uma atuação complexa e sensível. Ele até pediu desculpas pelo o roteiro não ter consultado a família do “Doc”, mas ele fez o melhor dentro do que tinha à disposição. E fez! Pode até estar fazendo “playback” enquanto toca, mas o momento em que ele faz seu show particular num bar de negros, sem o luxo com o qual está acostumado, num piano diferente do que ele sempre usa, o personagem transborda, acima de tudo, felicidade. O ator tem uma desenvoltura admirável, captando a arrogância necessária como mecanismo de defesa, mas também a simplicidade única quando surgem os momentos precisos.

O resultado é uma produção que tem uma atmosfera com todos os ingredientes para agradar o público grande pelo teor sem maiores riscos, mas com cutucadas em temas muito relevantes. Funciona. Mas como cinema, este ano mesmo “Infiltrado na Klan” (2018) aborda a temática do preconceito com muito mais ênfase. E como road movie de comédia, o melhor projeto de Farrelly ainda é “Debi & Lóide”.

Nota: 7,0