
Spike Lee é um cineasta com uma carreira sólida, sempre levantando a bandeira da segregação racial com muita ironia e crítica, como em “Faça a Coisa Certa” (1989) e “Malcom X” (1992). Mas irônico mesmo é que, em 2015, ele recebeu um Oscar honorário pelo conjunto da obras e, três anos depois, entregou talvez o seu melhor longa-metragem, sendo indicado pela primeira vez pela Academia na categoria Melhor Diretor. Mais ácido e contundente do que nunca, “Infiltrado na Klan” (BlacKKKlansman, 2018), indicado a seis prêmios (também a melhor Filme, Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original e Montagem), é acima de tudo, atual.
A trama se situa em 1978. Ron Stallworth (John David Washington), um policial negro do Colorado, consegue se infiltrar na Ku Klux Klan local. Ele se comunicava com os outros membros do grupo por meio de telefonemas e cartas. Quando precisava estar fisicamente presente, enviava um outro policial branco (Adam Driver) no seu lugar. Depois de meses de investigação, Ron se tornou um dos líderes da seita, sendo responsável por sabotar uma série de linchamentos e outros crimes de ódio orquestrados pelos racistas.
Logo no início, através de uma montagem dinâmica em preto e branco, num formato de propaganda de TV, já é possível ver que Spike Lee e Jordan Peele (o responsável pelo sucesso “Corra!”, 2017, que assina como produtor) estão para satirizar uma realidade séria sem sutileza alguma. Numa participação especial de Alec Baldwin, sob maquiagem pesada, boca torta e cabelos grisalhos, repete todos os trejeitos das suas já constantes imitações de Donald Trump no humorístico Saturday Night Live, como um político que propaga um discurso separatista e defensor da supremacia branca (mas que paralelamente diz não se tratar de ódio…). Quando a narrativa principal inicia, vem o aviso: “Dis joint is based upon some fo’ real, fo’ real shit” (que abreviando os palavrões, é algo como “baseado numa m**** real pra car****”).
Logo o protagonista Ron Stallworth é apresentado, vendo o anúncio da vaga na polícia, mas sem fugir do estereótipo, pois seu primeiro gesto é o de ajeitar o cabelo estilo afro. Desde a entrevista de emprego e até quando já está trabalhando na delegacia (inicialmente atrás do balcão, no setor de arquivos), sempre ouve comentários ou piadas depreciativas de quem se diz aberto para a diversidade, caso de seu superior (vivido por Robert John Burke), fora os que nem escondem serem racistas de fato, que se incomodam com sua presença ali, caso do tira Andy Landers (Frederick Weller).
Mas enquanto tudo isso acontece, Spike traça a autenticidade dos seus protagonistas negros de maneira muito eficiente. Se Ron vestindo o uniforme de policial e andando sempre no estilo groove com o cabelo black power soa propositalmente como uma tirada cômica, são bonitas as cenas dos flertes dele com a ativista Odetta (Damaris Lewis, igualmente belíssima e ostentando uma cabeleira cheia de personalidade). Assim como, na reta final do filme, adota de vez a estética dos filmes/seriados policiais blackspoitation, que meio que obrigaram a indústria a adotar os produtos feitos por negros.
Funcionam as coreografias de dança, numa trilha sonora repleta de black music de qualidade, o que inclui James Brown, Prince, The Temptations e Looking Glass, além das músicas originais por Terence Blanchard, que também trabalhou em “O Comediante” (2016), “Uma Cidade sem Lei” (2010) e “Milagre em Sta. Anna” (2008), sempre remetendo aos ritmos da música negra.
Com o roteiro escrito por Lee ao lado dos estreantes Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott (“Chi-Raq”, 2015), Odetta é construída muito além de um interesse amoroso e serve para fortalecer a reivindicação daqueles que não se calam perante a injustiça. Do outro lado, os membros da Ku Klux Klan são retratados como verdadeiros idiotas. Se alguns membros são mau caráteres, sempre desconfiados com todos ao redor, temendo a presença de alguém não branco, outros são imbecis por completo, desprovidos de qualquer noção de raciocínio. Maniqueísmo por parte de Spike Lee? Talvez, mas aqui soa bastante sarcástico por uma causa mais do que justa. E lidando com uma organização que tende a matar pessoas por se julgarem superiores apenas por causa da cor da pele, fica fácil não criar repulsa com o tom adotado.
Filho de Denzel Washington, John David Washington (esnobado no Oscar entre as indicações a Melhor Ator) entrega uma atuação minuciosa em que precisa estar constantemente invertendo as posições e sotaques na voz. Quando fala ao telefone se passando por um postulante a membro da KKK, consegue anular as gírias afro-americanas e, ao destilar todo o ódio aos negros, sabe-se que ali ele está fazendo desabafos revoltados de maneira inversa. O momento em especial que ele narra uma história triste praticada contra uma criança, percebe-se toda a emoção nos seus olhos, pois claramente ele está descrevendo um abuso acontecido contra ele próprio.
Responsável por ser o seu “corpo branco”, Adam Driver (merecidamente indicado a Melhor Ator Coadjuvante) carrega toda a frieza que Flip Zimmerman (nome alterado da história real) necessita. Afinal, para se meter num “foguete” como se infiltrar no meio de um bando de psicopatas, tentando fingir ser outro que conheciam apenas pela voz, é preciso ter toda a apatia do mundo e não poderia ter ninguém melhor que o intérprete de Kylo Ren, de “Star Wars”. Por ser judeu, suas motivações por justiça são bem contextualizadas, assim como a empatia para com Ron, o policial negro com quem precisa criar uma conexão, pois eles precisam se tornar a mesma pessoa. Quando está no meio dos lunáticos, cria-se toda a tensão necessária para o espectador, em especial o momento em que é utilizado um detector de mentiras.
No papel de David Duke (aquele que disse que o então candidato Jair Bolsonaro “soa como eles” durante as eleições presidenciais do Brasil de 2018), líder da KKK, Topher Grace entrega a sutileza de quem parece estar propagando algo honesto. A cara de nerd, fala calma, é alguém quem até poderíamos confiar…até um negro tocá-lo e ele tomar um susto daqueles. Conhecido pelos papeis em comédias, como na série “That ’70s Show”, ele consegue aqui ser ingênuo como alguém que de fato está sendo enganado, mas também tem a liderança para mobilizar horrores através do discurso. O roteiro deixa bem clara a ironia quando alguém fala que “alguém com posições tão extremas nunca seria eleito presidente”.
Então, as descrições das atuações perante os muitos obstáculos são essenciais para definir a conclusão. Enquanto a narrativa vinha leve, embalada pelos risos nervosos em cima do que sabemos que não deveria acontecer, o tiro no alvo é disparado sem piedade no último ato. Começando pelo espetacular monólogo do ator e músico veterano Harry Belafonte, com descrições e inserções do filme “O Nascimento de Uma Nação” (The Birth of a Nation, 1915), de D. W. Griffith. Todo estudante de cinema conhece esse longa, que foi importante à sua época por causa de suas inovações técnicas. Porém, o teor era racista ao extremo, cujo “herói” era um líder da KKK e figurantes brancos eram pintados de preto para servirem de vítimas. A propagação da xenofobia em prol de um “blockbuster”.
Se essa metalinguagem cinematográfica já não servisse como crítica explícita a Hollywood de um modo geral, Spike Lee trata de arrastar para o mundo real. Após um clímax cheio de emoção envolvendo uma bomba (onde ele encerra bem a sua narrativa, com direito a um ótimo diálogo final), ele de novo deixa a história de lado, mas não a temática. O epílogo é um verdadeiro soco no estômago, cheio de imagens reais para comprovar para os que fingem não saber, que o racismo é real e bem atual. Está por todos os lados e, de acordo com a posição das autoridades, tende a ficar ainda mais forte.
“Infiltrado na Klan” é um longa com diversos pontos de vistas. Pode soar até como uma comédia de humor politicamente incorreto, com o toque racial que Spike Lee sabe usar muito bem. Só que os tempos andam tão obscuros que, o resgate de uma história real e aparentemente absurda sendo levada para o mundo, soa necessária. Isso serve não só para os Estados Unidos. Mas para o Brasil (ô!) e o mundo.
Nota: 9,0