Crítica: Razoável na ação e com roteiro frouxo, “Operação Fronteira” não justifica o elenco de peso

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Já virou comum a Netflix comprar produções questionáveis que provavelmente passariam desapercebidas pelos cinemas, mas chegam com força na plataforma de streaming. É o caso deste “Operação Fronteira” (Triple Frontier, 2019), que começou a ser produzido em meados de 2009 e quase nada do material original foi aproveitado. Apoiado no elenco de peso que inclui Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Garrett Hedlund e Pedro Pascal, além da força de Kathryn Bigelow (vencedora do Oscar por “Guerra Ao Terror”, 2008) como produtora, o longa funciona em partes, ainda que o resultado de um modo geral seja bem esquecível.

Na trama, Tom Davis (Affleck), Santiago Garcia (Isaac), Francisco Morales (Pascal), William Miller (Hunnam) e Ben Miller (Hedlund) são cinco ex-soldados das Forças Especiais dos Estados Unidos que decidem se reunir para executar um plano arriscado: roubar um poderoso senhor do crime na fronteira que separa o Brasil da Colômbia e do Peru. No entanto, quando o esquema dá errado, os antigos companheiros de batalha precisarão lutar por suas vidas.

J.C. Chandor é um diretor habilidoso, como já mostrou nos eficientes “Até o Fim” (All Is Lost, 2013) e “O Ano Mais Violento” (A Most Violent Year, 2014). Logo no começo ele consegue empolgar, mostrando um helicóptero indo para uma missão ao som da pesada “For Whow the Bell Tolls”, do Metallica, cortando para o personagem de Oscar Isaac, que tira fones de ouvido e revela que a música na verdade é diegética, num momento de descontração antes do caos. Partindo para um cenário de uma típica periferia no terceiro mundo, surpreende com uma explosão repentina através de um míssil, iniciando um tiroteio com violência na dose certa.

Ele mostra que leva jeito para a ação, seja em momentos em que prevalecem a tensão, como a invasão da casa em que o grupo principal leva o dinheiro, com fotografia escura e alguns tiros pontuais; ou na do penhasco utilizando burros, com tons acinzentados que condizem com aquela situação gélida; até a sequência explosiva da pane no helicóptero, sem precisar apelar para centenas de cortes em frações de segundo, como muitos discípulos de Michael Bay gostam de fazer. Soa estiloso quando a câmera é posicionada de baixo para cima, apontada para quem está com a arma, colocando o espectador na posição da vítima indefesa a ser baleada. São passagens que funcionam, apesar dos efeitos especiais um tanto artificiais (pelo visto, a maior parte do orçamento foi para pagar o elenco).

A trama em alguns momentos se assemelha a “11 Homens e Um Segredo” (2001), cabendo a Isaac (que é o real protagonista, apesar de os materiais de divulgação colocarem Ben Affleck em destaque, inclusive sendo o primeiro nome dos créditos) o papel que ali era o de George Clooney, recrutando antigos amigos para uma missão ilegal, numa montagem dinâmica, com direito a ótima música “The Chain”, do Fleetwood Mac, que voltou a moda tocando até em abertura de novela brasileira. Uma forma até prática para apresentá-los, mas neste caso, é difícil para o espectador simpatizar e muito menos se importar com qualquer um ali. E olha que nem é porque eles estão praticando um roubo, pois o cinema já trouxe diversos anti-heróis carismáticos.

A real é que Chandor ainda tem um longo caminho a ser pavimentado como roteirista, visto que a construção dos personagens é bastante superficial. É mostrado que Affleck vive como um corretor frustrado e com relação estremecida com a família, Hunnam vive de palestras motivacionais contando suas experiências como militar, Hedlund se tornou um lutador de MMA e Pedro Pascal…bom…ele está lá de novo para cumprir um papel de latino num contexto de tráfico de drogas, sem sequer ganhar um mínimo arco próprio. Além desses estereótipos, não há traços específicos de personalidade ou especialidade de cada um dentro da narrativa. Se qualquer um morresse, pouco influenciaria.

Sem falar que há decisões tomadas que beiram o estúpido e certas situações são apenas ignoradas, como o fato de um deles ter sido baleado logo no início do plano, mas coloca ali um curativo e continua passando por altas aventuras como se nada tivesse acontecido. Inevitável que aconteçam discussões entre eles, mas elas surgem muito depois de tais atitudes não inteligentes. Há também uma pilha de diálogos rasos, alguns com ironias óbvias, como quando um fala no início que “vamos fazer isso sem tiros”, e outros autoexplicativos, como “a casa é o cofre”, como se o que acontece em cena já não deixasse isso claro.

No fim das contas, funciona o teor social à respeito do dinheiro, que é o principal mote da trama. Quanto maior a quantidade que eles carregam, maior é o risco deles morrerem. E à medida que precisam ir abandonando sacolas e mais sacolas ao longo do caminho, a locomoção se torna mais fácil. Até mesmo queimar o dinheiro para diminuir o frio se torna válido. Todos ali são movidos pela ganância e o texto deixa claro que a moral desaparece por completo quando há grana envolvida. Aquele monte de papel compensou pelas vidas, algumas de inocentes, que ficaram pelo caminho? Uma forte diálogo com um idoso morador de uma comunidade onde aconteceram atrocidades deixam claro que, no mundo em que vivemos, sim.

O loga tenta evocar os efeitos que o dinheiro tem na transformação de comportamento do homem, papel atribuído ao personagem de Affleck (que aqui serve como o coadjuvante de luxo), antes o maior moralista da turma e que evitava infringir a lei, mas que logo cresce os olhos diante da possibilidade de enriquecer e até trata Yovanna (Adria Arjona), a principal informante da missão, como um mau caráter de marca maior. Mas no fim das contas, o roteiro não tem coragem para seguir adiante com essa premissa e confere uma redenção para todos, num “final feliz” dentro do possível.

Nem os muitos nomes conhecidos são capazes de tornar uma produção satisfatória, principalmente quando todos parecem estar atuando com má vontade, apenas para bater o ponto e faturar um cachê generoso. Pode até agradar como entretenimento passageiro, convencer em um ou outro momento bem dirigido, tornando as duas horas nem tão descartáveis. Mas quando surge um gancho para uma possível continuação, não tem outra expressão que se encaixe melhor do que forçada de barra.

Nota: 5,0