
No ano de 1986, Alan Moore, em parceria com o desenhista Dave Gibbons, publicou a graphic novel que simplesmente causou uma revolução na chamada “nona arte”. Ela apresentava homens comuns, que à noite saíam para combater o crime, até que uma lei os proíbe de entrar em ação, tornando-os ilegais. “Watchmen” se tornou uma obra de grande importância para o mundo literário. A questão é que, durante anos, se cogitava a ideia de adaptar para os cinemas, mas tal feito era tido como impossível por diversos diretores e fãs.
Nomes como Terry Gilliam, Paul Greengrass e Darren Aronofsky tiveram cotados para assumir a produção, mas foi o hoje tão divisor de opiniões Zack Snyder (vindo com moral de seu projeto anterior, “300”, 2007, outra adaptação de HQ) quem teve a ousadia de assumir o fardo. E há 10 anos, o diretor dos criticados “O Homem de Aço” (2013) e “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” (2016), soube bem o que fazer com “Watchmen: O Filme” (idem, 2009): manter a fidelidade, usando os recursos audiovisuais para encher os olhos, o que na época funcionou bem.
Na trama, em 1977 foi aprovada pelo congresso norte-americano a Lei Keene, que proibia as atividades de mascarados no combate ao crime. Isto fez com que vários super-heróis abandonassem a carreira. Em 1985, o mundo vive o clima da Guerra Fria, no qual um ataque nuclear pode acontecer a qualquer momento, vindo dos Estados Unidos ou da União Soviética. Nesta tensão política, Edward Blake (Jeffrey Dean Morgan), o Comediante, é assassinado. O último herói na ativa sem ter ligações com o governo, Rorschach (Jackie Earle Haley), começa uma investigação e resolve avisar os antigos colegas que talvez a morte seja o indício da existência de um assassino de mascarados.
Logo na cena inicial, envolvendo o assassinato do Comediante, é bem mais violenta do que a retratada só em relances na HQ, ao som sereno de “Unforgettable”, clássico de Nat King Cole. Depois, entram os créditos iniciais que é, talvez, o momento mais estiloso de todo o longa. Eles resumem em imagens estáticas (semelhante a um quadrinho) boa parte do passado que antecede a trama, em especial os momentos dos “Homens Minuto” (os primeiros heróis a surgirem, na década de 40). Para quem conhece a história, é puro deleite.
Muitos diálogos são transpostos idênticos e o visual dos personagens sofreu o mínimo de alteração possível. Destaque para Rorschach, o baixinho lunático cujas manchas da máscara se mexem o tempo todo. Dr. Manhattan está impecável, em que sua aura luminosa remete à imagem de “semideus”, ficando mais coerente do que o azul bruto da revista (e tem até um nu frontal). Neste sentido, Ozymandias é o único desfavorecido ao usar uma armadura com mamilos, bem ao estilo “Robin dos filmes de Joel Schumacher”, não condizendo nem com a essência do “vilão”.
Obviamente, algumas mudanças sutis foram feitas para comprimir os milhares de fatos nas já longas 2 horas e 43 minutos. Algumas trocas bem aceitáveis – como a ausência do Capitão Metrópole na formação da equipe na década de 60 – e outras mais sentidas – como a omissão do destino de Hollis Mason, o primeiro Coruja -, além do tão polêmico final modificado. O desfecho manteve a ideia original, porém, é bem mais pé-no-chão ao optar por excluir o tal monstro criado em laboratório. Ousado e, ao mesmo tempo, entendível a revolta pela decisão.
Muitos diziam que para adaptar fielmente “Watchmen” seriam necessários pelo menos três filmes, mas Snyder conseguiu fazer um trabalho eficiente de decupagem, por mais que a noção espaço-tempo pareça bem encurtada e os fatos aconteçam quase que atropelando um ao outro. Os que não conhecem o material em que o filme fora baseado, provavelmente acharam o ritmo demasiadamente cansativo perante diálogos intermináveis e cenas que parecem encaixadas quase que à força. A sequência de Marte, por exemplo, perdeu toda a sua complexidade, soando quase desnecessária caso se tratasse de um roteiro original.
Em meio a todo o espetáculo visual e efeitos especiais que funciona, Zack Snyder mantém-se em uma zona de conforto ao seguir a cronologia, usando e abusando de flashbacks para mostrar as origens dos personagens. Ele se faz presente ao dar uma dimensão bem maior às cenas de ação, algo que existe em pouquíssima quantidade na HQ, mas surgia como uma vertente necessária por se tratar de um filme de super-heróis – pois mais anti-heróis que eles sejam -, numa época em que o mundo já tinha o seu “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008). Ele demonstra habilidade no comando de cenas de luta bem coreografadas, com direito a muita violência, fraturas expostas e sangue jorrando. Porém, com aquele estilo exageradamente videoclipe que até hoje incomoda.
O roteiro escrito por David Hayter (de “X-Men” 1 e 2, 2000, 2003) e pelo então estreante Alex Tse consegue levar (mesmo que em partes) as reflexões de Alan Moore. O contexto básico sobre a teoria do caos, dos homens comuns cavando a própria cova mediante sua futilidade, a “terra de ninguém” chamada Terra estão lá expostas, principalmente através do personagem Comediante, necessitando de um olhar semiótico por parte do espectador. Mas, obviamente, as mensagens nem de longe possuem a mesma complexidade que as páginas impressas, deixando muitos outros fatores (como a influência da mídia na imagem das pessoas, o poder do capital, etc) apenas induzidos devida a rapidez dos acontecimentos.
Ao mesmo tempo, por mais que o diretor consiga distribuir quase que igualmente a importância aos personagens principais (o que já é uma missão difícil), não temos a chance de conhecer mais a fundo suas personalidades.
Com a missão de dar o tom certo a cada um, os atores até então pouco conhecidos conseguem se sobressair. Em pensar que antes do elenco ser fechado, diversos nomes foram cotados, como Arnold Schwarzenegger para viver o Dr. Manhattan, Simon Pegg para viver o Rorschach, Joaquin Phoenix, Keanu Reeves e John Cusack para viver o Coruja, Tom Cruise e Jude Law para viver o Ozymandias, Ron Perlman para viver o Comediante, Hilary Swank para viver a Espectral, entre muitos outros.
Jackie Earle Haley, o Rorschach, é o melhor deles. Com sua voz absurdamente rouca, ele transmite o medo que o paranoico personagem provoca, tanto com a máscara como sem ela. Jeffrey Dean Morgan, que encarna o sádico Comediante/Edward Blake, não só deu a imagem de arrogante que ali cabia, como transmite a cada fala o misto de ironia e desespero ao tentar encarar a vida como uma piada. Billy Crudup, como o Dr. Manhattan, está eficiente doando uma voz constante e suave ao personagem que vive no tédio, acostumado com a inferioridade dos humanos ao redor. Patrick Wilson está convincente como o pacato Coruja/Dan Dreiberg, captando o jeitão de “tiozão frustrado com a vida”.
Malin Akerman, na pele da Espectral/Laurie Juspeczyk, o que ela tem de bela tem de inexpressiva (na cena de Marte então, nem se fala), se mostrando um ponto fraco do elenco. Mas o personagem mais sacrificado é, sem dúvidas, Ozymandias/Adrian Veidt, vivido por um perdido e mal escalado Matthew Goode. Ele até que tenta passar a canastrice que Ozy exige, mas é difícil engolir que ali está o homem mais inteligente do mundo.
A trilha sonora conta com diversas músicas famosas, sendo que algumas caíram como uma luva, enquanto outras parecem que apenas fizeram questão de encaixá-las. “The Times Are A-Changing”, de Bob Dylan, nos créditos iniciais (a letra tem tudo a ver com a proposta do filme); a bela “The Sound of Silence”, de Simon e Garfunkel, para a cena do enterro; a dançante “I´m Your Boogie Man”, de K.C. and The Sunshine Band, para a cena da chegada do Comediante a bordo da nave-coruja; e a frenética “All Along The Watchtower” de Jimi Hendrix; não só combinam com a época em que a trama se passa como complementam bem suas cenas. Mas na contramão estão a batidíssima “Hallelujah”, utilizada num momento que tenta sem sucesso ser engraçadinho, a música tema de “Apocalipse Now” só por mostrar um trecho na Segunda Guerra (Por quê?!) e termina com uma versão de “Desolation Now”, em que a banda My Chemical Romance fez o favor de destruir a canção de Bob Dylan.
Muitos fãs torceram o nariz para o longa. Uma década depois, “Watchmen – O Filme” ainda funciona bem tanto como adaptação, como filme independente, mas em nenhum dos dois quesitos é espetacular. Adaptar a obra de Alan Moore nunca resultaria em algo perfeito, mas Zack Snyder não estragou a honra da graphic novel e entregou um produto melhor do que muitos poderiam esperar de um projeto tão arriscado. Não ficou marcado, mas nem de longe é incluído em listas de piores adaptações. Até mesmo uma série está sendo desenvolvida pela HBO dentro daquele universo. E continuamos a nos perguntar quem vigia os vigilantes.
Nota: 8,0