Crítica: Com “Nós”, Jordan Peele entrega mais um intrigante bombardeio de metáforas sociais

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Análise sem spoilers

Jordan Peele, definitivamente, é um diretor bastante talentoso. Pode ser que a carreira tenha oscilações, assim como tem sido a de M. Night Shyamalan (uma das suas influências), mas pelo o pouco que produziu num curto período, certamente ele ainda vai fazer muito barulho. Se logo no filme de estreia, “Corra!” (Get Out, 2017), conseguiu emplacar indicações nas principais categorias do Oscar (mesmo que seja para a Academia levantar a bandeira da representatividade) com um suspense cheio de metáforas sobre racismo, ele fez de novo em “Nós” (Us, 2019). O alvo agora é mais amplo. E ele faz rir, assusta muito e faz pensar bastante após o término da sessão como poucas produções do gênero.

Na trama, Adelaide (Lupita Nyong’o) é uma mulher que passou por forte trauma quando criança. Mas cresceu bem, se casou com Gabe (Winston Duke) e tiveram dois filhos. A família decide passar um fim de semana na praia e descansar em uma casa de veraneio. Eles começam a aproveitar o ensolarado local, mas a chegada de um grupo misterioso durante a noite muda tudo e o quarteto se torna refém dos invasores.

Antes de tudo, é preciso saber que nada que Peele coloca em cena é por acaso. Tudo tem algum código de narrativa que vai ter algum desenrolar adiante ou mesmo signos que cabem variadas interpretações. Tudo é pensado e atribuído à narrativa de maneira cirúrgica. Isso acontece, literalmente, desde as letras iniciais, com explicações sobre os quilômetros de túneis subterrâneos nos Estados Unidos. A cena inicial, no parque de diversões, parece apenas introdutória, mas a camisa de “Thriller”, do Michael Jackson, a placa com a passagem Jeremias 11:11, até os movimentos aleatórios dos personagens têm suas importâncias. Os créditos mostrando coelhos enjaulados sob uma esquisita trilha-sonora não parecem fazer sentido algum. Mas fazem.

E à medida que a história se desenvolve, os detalhes continuam a surgir, aparentemente sem tanta importância, como a campanha exibida na TV em 1989 com os humanos de mãos dadas em nome do combate à fome mundial, passando por um comum adesivo de carro com bonequinhos de família, que viria a repetir a mesma formação quando os “invasores” aparecem sob às sombras. E é só o começo. É como se o diretor fosse introduzindo as questões sérias aos poucos enquanto tudo o que se vê em cena é leve. Seria aí um paralelo ao estigma do ser humano em bloquear da visão os assuntos contundentes que estão por todo lado? Talvez.

Nos minutos iniciais é predominante a comédia, gênero que lançou Jordan Peele (como ator, se consagrou pela série “Key and Peele”, 2012-2015). Muito a cargo de Winston Duke (o M’Baku de “Pantera Negra”, 2018), divertidíssimo em cena, um pai que faz o tipo Homer Simpson, atrapalhado mas de bom coração. Ele arranca risos propositalmente ao forçar um interesse dos outros ao comprar uma lancha cheia de problemas ou simplesmente com o olhar ao tentar convencer a esposa de algo. O ator mostra boa performance, principalmente ao exibir sua dualidade, quando tenta ser ameaçador, mas logo depois se mostra um homem medroso.

E o humor é uma ferramenta constante, seja para o cineasta destilar suas referências (tem uma citação a “Esqueceram de Mim”, 1990, simplesmente hilária) ou para satirizar os muitos clichês do gênero, em que alguém sai no meio do escuro sabendo de um perigo mortal ou a demora para fugir de algum lugar (tem que ser muito cético para levar à sério um pessoal fazendo contagens de quem matou mais para ver quem vai dirigir). Funciona claramente como paródia, mas muito dessas passagens ganham explicações plausíveis após a revelação do final.

Fica clara a intenção de cutucar as diferenças sociais através da família de brancos, amiga do grupo principal. Josh (Tim Heidecker, da série “Tim and Eric’s Bedtime Stories”) é o cara que preza pelo conforto, tem o seu próprio barco e não abre mão de levantar da cadeira tomando o seu whisky, ouvindo música acionada só com a voz (“Good Vibrations”, do Beach Boys, coube com precisão). Sua esposa Kitty (a ótima Elisabeth Moss, do seriado “O Conto da Aia”) é a mulher que fala o tempo todo e se orgulha de exibir uma plástica que fez no rosto. Junto a isso, eles têm duas filhas gêmeas (Cali e Noelle Sheldon, que revezaram como a filha do casal Rachel e Ross em “Friends”), loirinhas bonitas, padrão, que até falam a mesma coisa em repetição. E olha a ideia de espelhamento de novo aí!

Mas essas críticas são inseridas com muita sutileza, pois a tensão é construída como um longa-metragem tradicional de invasão domiciliar, com toques de terror slasher, em que personagens perseguem uns aos outros com o simples intuito de esfaquear, arrancar a vida e espalhar sangue. E ele constrói bem esse clima com o auxílio da eficiente trilha sonora de Michael Abels, cheia de batidas de tambores, notas isoladas de violoncelo, sintetizadores com uma pegada gótica. Mas no meio de toda a correria, prevalece o mistério sobre o que realmente são os tais clones, ou doppelgangers, ou cópias, ou duplos, como preferirem, que são pintados como vilões.

Não é surpresa que o filme apresenta versões duplicadas dos personagens (isso estava nos materiais de divulgação) e, sem adentrar nos spoilers aqui, é notório que Peele faz uma relação deles com a sociedade americana (o título original, Us, é uma analogia clara a United States). Propositalmente ele utiliza a combinação de cores da bandeira americana, desde o macacão vermelho dos invasores, até os cenários, ficando bem explícito na cena da praia com pessoas de mãos dadas, prevalecendo, sutilmente através da areia e da água, também os tons de branco e azul.

Definitivamente, a queniana-mexicana Lupita Nyong’o é uma das melhores atrizes da atualidade. A vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2014 por “12 Anos de Escravidão” seguiu relegada a papeis secundários e, aqui como protagonista (e também antagonista), ela dança. Literalmente! A bela sequência de balé é quase como uma coroação para os atos de suas personagens. Fazendo duas versões da mesma personagem, ela se mostra assustadora (e muito!) com uma voz rouca e atropelada, e ao mesmo tempo humana, apaixonada, com seus olhos grandes e expressões de desespero. Indiquem novamente essa mulher ao ouro!

Dentre o restante do elenco, os novatos Shahadi Wright Joseph e Evan Alex são gratas surpresas. Principalmente ela, que quando está em sua versão maléfica, ostenta um sorriso que intimida até quem assiste. Ele, traz a inocência e medo que o menino (que se chama Jason e usa uma máscara…lembra algo?) carrega o tempo todo, estando sempre suscetíveis a mudanças bruscas ao longo do filme, o que eles tiram de letra.

“Nós” pode até funcionar como um terror superficial, mas quem comprar as pretensões de Jordan Peele, vai encontrar metáforas a torto e a direito, abrindo margem para muitas análises. E se assistir de novo, e de novo, é possível que apareçam novas dúvidas. Tudo isso é mérito de um cineasta que não quer deixar nada gratuito. Ele quer fazer pensar. E faz isso de maneira incrível.

Nota: 9,0

Análise com spoilers

Na cena final, Adelaide se lembra que ela é, na verdade, a sua “clone”, que tomou o lugar da sua versão original quando criança, a aprisionando dentre os demais (o que ela diz ser um projeto de clonagem do Governo, algo que nunca fica claro), e seguindo a vida. Ela aprendeu a falar e se tornou uma pessoa honesta de acordo com o ambiente em que ela fora criada.

Isso explica o fato dela sair no meio do nada para procurar a versão maligna da filha e apenas a deixa para morrer, sem maiores sofrimentos. Ela também ergue a mão para o desconhecido “filho” incendiário. Mesmo que de maneira inconsciente, ela está se conectando com seus semelhantes, aquele grupo que um dia ela fez parte. Uma empatia nem tão natural, mas que desponta de acordo com os acontecimentos.

Peele faz uma alegoria com as diferenças sociais. Enquanto muitos humanos vivem de mordomias, se alimentando do bom e do melhor, os não favorecidos crescem no submundo, onde ninguém recebe atenção, apenas buscando repetir os passos de quem se dá bem. Como é apresentado, eles não têm voz própria, diferente da personagem Red, a versão maligna de Adelaide, que um dia já passou pelos “favorecidos” e tem resquícios desse benefício, o da comunicação. Como ela passou tantos anos no meio de seres que não falavam, naturalmente a voz foi se degradando.

Como o diretor não esconde a intenção de criticar a sociedade americana, ali existe um paralelo de cada ser humano que esconde o seu lado bestial. Faz parte da surra no instinto do homem atual, na hipocrisia ao tentar emplacar uma propaganda mundial para combater a miséria, quando a real intenção é transmitir uma aparência positiva, ficar bem na fita. Isso desponta o inevitável lado negativo, de vingança, de quem de fato vive em condições desumanas.

O que está totalmente ligado ao verso da Bíblia, Jeremias 11:11: “Por isso, assim diz o Senhor: Trarei sobre eles uma desgraça da qual não poderão escapar. Ainda que venham a clamar a mim, eu não os ouvirei”.

Vale lembrar que assim que a família chega na praia, eles observam um cadáver segurando a placa com essa passagem, o mesmo homem que Adelaide avistou no parque quando criança. Ele foi provavelmente a primeira vítima dos “clones”, enquanto o estranho ser de roupa vermelha e sangue nas mãos avistado por Jason na praia é a cópia dele, pouco depois de matar o seu semelhante.

Como a propaganda daquela campanha de 1989 era formada por bonecos vermelhos, explica o uso dos macacões dessa cor pelo rebeldes que viviam no subterrâneo, liderados pela Red. Desta vez, eles querem formar uma corrente de mãos dadas pela América Latina entre os que nunca eram vistos. O que não deixa de ser uma analogia ao muro que os Estados Unidos têm criado para imigrantes.

O que são os coelhos? Bom, os pobres bichinhos lembrados durante a Páscoa são alguns dos animais mais utilizados em experimentos genéticos. Então, fica implícito que foram os primeiros cobaias do projeto de clonagem e alguns deles ainda pulam pelos corredores. A cena dos créditos serve para induzir que todos estão aprisionados num mesmo sistema (os brancos e os negros), numa forma de o diretor avisar logo de início que seu novo projeto não é mais sobre preconceito racial. E quando os tais seres não são mais úteis, são servidos como alimentos aos desfavorecidos.

As tesouras, claramente, são armas que surgem como um espelho, assim como todos os embates em cena, já que são dois lados cortantes semelhantes e opostos. Mas também podem servir como metáfora para o objeto que pode cortar os laços da indiferença, da falsidade dos homens.

E por que raios o menino Jason tem uma conexão com sua versão do mal, a ponto de induzir ele a se queimar? A psicologia diz que crianças ainda não têm suas sombras muito bem definidas. Além disso, o personagem sempre se via deslocado do mundo real, tanto que sempre utilizava uma máscara. Por isso, a ligação acaba não soando forçada, pois ambas são crianças perdidas dentro do contexto em que vivem.

Ao conferir o sorriso da mãe na cena final, ele percebe que aquela mulher não veio do mesmo mundo que ele, mas é sua mãe indiscutivelmente. E assim como ele sempre utilizou uma máscara, ela também usava, mesmo sem saber, para se disfarçar. E ao acontecer essa conexão, ninguém vai saber do segredo compartilhado por eles e a vida vai seguir. Eles sobreviveram. É o que interessa. Os “diferentes” vão continuar a existir, mas agora estão dando as caras.