
Se as adaptações da DC Comics para o cinema ainda dividem opiniões, produzir um longa sobre um garoto que se transforma num adulto que tem praticamente os mesmos poderes do Superman, com um uniforme horroroso e que nunca foi tão badalado, parecia uma ideia que beirava a insanidade. Tudo remava contra o antigo “Capitão Marvel”, que mudou de nome ao ser adquirido pela DC junto a Fawcett Comics no início dos anos 70, por motivos óbvios para não fazer propaganda da concorrente.
Mas a boa notícia é que “Shazam!” (idem, 2019) segue uma boa recuperação do estúdio, sem a preocupação de forçar um universo compartilhado. Se “Mulher Maravilha” (2017) e “Aquaman” (2018) conquistaram boas críticas, este afasta de vez o tom sombrio característico de Zack Snyder e acerta em cheio ao se assumir como uma comédia despretensiosa.
Na trama, Billy Batson (Asher Angel) é um pré-adolescente órfão de 14 anos que vive fugindo de abrigos e famílias adotivas. Mas tudo muda quando ele recebe de um antigo mago o dom de se transformar num super-herói adulto chamado Shazam! (Zachary Levi), cujo nome é um acróstico formado pelas iniciais de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio. Ao gritar a palavra, ele se transforma nessa versão e conta com a ajuda do seu irmão adotivo Freddy (Jack Dylan Grazer) para testar suas habilidades. Contudo, ele precisa aprender a controlar seus poderes para enfrentar o vilão Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong), que deseja roubar o seu dom.
Se em “Mulher Maravilha” a diretora Patty Jenkins já mostrou que funcionava ir abrindo mão de maneira gradativa do tom niilista estabelecido por Snyder em “O Homem de Aço” (2013) e “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” (2015), James Wan provou em “Aquaman” que era possível emplacar um bom filme mesmo com um personagem tão galhofa, numa produção cheia de cores e com toda a breguice que tem direito. Ultrapassou a marca de U$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais. Mesmo durante a fase de produção da aventura aquática, Wan já tinha moral com a Warner Bros. para indicar o seu apadrinhado David F. Sandberg para comandar “Shazam!”.
Com os resultados em caixa arrancando sorrisos dos figurões, Sandberg ganhou carta branca para fazer um longa propositalmente zoado de outro herói difícil de ser levado à sério. Não há mais pressa em inserir outros personagens famosos visando um grande crossover, pois parece que reconheceram a confusão que foi o tão atribulado “Liga da Justiça” (2017). Batman, Superman, Aquaman e outros existem no universo de “Shazam!”, são o tempo todo referenciados, mas desta vez como ferramentas funcionais de narrativa, puxando inclusive muitas tiradas cômicas, mas sem a necessidade de citar os acontecimentos de filmes anteriores.
Seguindo a premissa do garoto que repentinamente se torna alguém tão forte, o roteiro de Darren Lemke (“Goosebumps”, 2015) e Henry Gayden (do pouco visto “Terra Para Echo”, 2014), nomes sem expressividade, acertam ao focar no deslumbre do protagonista ao descobrir os poderes e tentando tirar algum proveito em cima disso, além de destilar referências à cultura pop (como a história se situa na Filadélfia, são muitas as citações a Rocky Balboa e tomadas nas famosas escadarias). Naturalmente acontece o amadurecimento e o início da “jornada do herói”, mas antes surgem gags envolvendo bala na cara, bebidas alcoólicas, clube de strippers e muita cara de pau.
Rir de si próprio é um grande mérito, com direito a falar mal até do uniforme (que apesar dos pesares, está bem fiel a fase “Novos 52” dos quadrinhos). O estilo leve naturalmente remete a clássicos da Sessão da Tarde, principalmente “Quero Ser Grande” (1988), que ganha a devida referência numa cena na loja de brinquedos. Tem aquela subtrama dos excluídos do colégio, bem típica dos longas de John Hughes (reparem num casaco bege igual ao que Ferris Bueller usa em “Curtindo a Vida Adoidado”, 1989), piadas de situações banais – como ao tentar ouvir o vilão à distância em pleno ar -, além de muitas quedas enquanto descobre a si próprio, ou em conversas de família tentando manter a identidade secreta.
Por mais que não existam cenas de ação marcantes, elas aqui funcionam, principalmente por nunca deixar esquecer que é uma criança destreinada quem está lá. No lugar de coreografias criativas, os improvisos de quem nunca brigou na vida trazem um diferencial. E sem entrar em spoilers, o excelente clímax no parque de diversões explora muito bem as características individuais de cada personagem que está em cena. Quando surge o drama, também é bem desenvolvido, mesmo que por poucos minutos, com direito a uma cena específica bem pesada, essencial para a resolução dos conflitos internos do protagonista.
Oriundo dos filmes de terror, o diretor David F. Sandberg (dos bons “Quando as Luzes Se Apagam”, 2016, e “Annabelle 2: A Criação do Mal”, 2017) acerta em utilizar muitos efeitos práticos, semelhante ao das produções que “Shazam!” acena, incluindo monstros com roupa de borracha e movimentos artificiais, mas que graças ao CGI dos dias atuais, não soam obsoletos quando a ação está rolando. Claro que é uma forma de baratear o já limitado custo de produção, mas que aqui coube dentro da proposta. Sandberg ainda tem a chance de brincar, mesmo que de maneira discreta, com suas influências, como na carnificina maquiada sob uma porta de vidro num escritório.
Zachary Levi foi uma escolha bem criticada quando foi anunciado. O ator do seriado “Chuck” (idem, 2007-2012) e o Fandral de “Thor: O Mundo Sombrio” (2013), com background na comédia, poderia não ter o porte físico para o papel (inclusive os enxertos no uniforme são nítidos e incomodam às vezes), mas mostrou o timing cômico perfeito. Ele transborda carisma, não se sai exagerado quando está em êxtase e se mostra desconcertado na medida certa quando precisa ter atitudes heroicas, com poses e expressões propositalmente forçadas. Muito do mérito do longa se deve a ele, que está visivelmente se divertindo.
Na contramão, o pouco experiente Ashel Angel (da série “Andi Mack“, da Disney Channel) não parece ter captado que está interpretando o mesmo personagem, se mostrando um tanto congelado. Ele até faz um trabalho correto se não existisse esse paralelo, mas fica a impressão de distorção brusca de personalidade. Angel acaba ofuscado pelo ótimo Jack Dylan Grazer (de “It: A Coisa”, 2017), que serve como “sidekick” do herói. Mas como um fanboy viciado super-heróis, ele se diverte como função prática do roteiro ao ajudá-lo a descobrir do que é capaz, utilizando equipamentos como câmera de celular e caderno para registrar os passos. Ele convence o espectador a torcer e se encantar por ele e não pelo protagonista. Olho nesse moleque! Ele é muito bom!
O veterano Mark Strong (que inclusive viveu o Sinestro naquele péssimo “Lanterna Verde”, 2011), já acostumado a viver vilões, parece no piloto automático como o Dr. Silvana, apenas mantendo a cara de mal humorado que ele sabe bem. Pelo menos o seu personagem é bem desenvolvido, já que ele tem o seu próprio conflito e a questão familiar vai de encontro com a vivência do próprio Billy Batson. No restante do elenco, o casal de pais adotivos formado por Cooper Milans e Marta Milans transmitem a bondade que é desenhada para eles, como se eles de fato tivessem passado por tudo o que os filhos já vivenciaram e procuram compreendê-los. Se Jovan Armand é prejudicado pelo roteiro por ser introspectivo, o asiático Ian Chen, a pequena carinhosa Faithe Herman (que fofura!) e a já adulta Grace Fulton cumprem bem os papéis atribuídos a cada um.
Para quem não se convenceu com os trailers, “Shazam!” tem muito mais conteúdo não mostrado, que garante boas risadas e cenas típicas de produções de heróis de uma forma que não ofendem, além de satirizar o próprio universo com um desfecho hilariante, brincar com as expectativas. Uma ótima “Sessão da Tarde”, moleque como seus personagens, que vai agradar um público de diversas idades. E não importa o futuro. A DC está entregando entretenimento de qualidade.
Nota: 8,5