Crítica: “A Maldição da Chorona” é um amontoado de clichês de fazer chorar

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Filmes sobre assombrações em forma de mulher são produzidos aos montes pela indústria. Apesar do título parecer ter saído de um episódio do seriado Chaves, “A Maldição da Chorona” (The Curse of La Llorona, 2019) é baseado numa famosa lenda do México. O que acaba por ter pouco efeito, já que o longa-metragem não se aprofunda no folclore e se resume a uma coleção de clichês do gênero com a única intenção de dar sustos no espectador.

A trama se passa na cidade de Los Angeles da década de 1970, em que uma assistente social (Linda Cardellini), criando seus dois filhos sozinha, começa a ver semelhanças entre um caso que está investigando e a entidade sobrenatural Chorona. A lenda conta que, em vida, ela afogou seus filhos e depois se jogou no rio. Agora ela chora eternamente, capturando outras crianças para substituir os filhos.

O mais estranho desta produção de James Wan é a forçada de barra para inseri-la no seu universo compartilhado de “Invocação do Mal” (2013, 2016), que inclui os dois “Annabelle” (2014, 2017) e “A Freira” (2018). A única ligação é o personagem do Padre Perez (vivido por Tony Amendola), do primeiro “Annabelle”, que cita a tal boneca (e a direção ainda faz questão de mostrá-la num rápido e desnecessário flashback, para não deixar dúvidas que é ela mesma de quem ele está falando) e mais nada. E assim como os demais derivados, este não passa de uma produção genérica e esquecível.

O roteiro de Mikki Daughtry e Tobias Iaconis (dupla do recente “A Cinco Passos de Você”, 2019) é preguiçoso ao extremo, sem nenhum interesse em fugir do trivial. Se normalmente o desfecho é baseado em cima das origens do mistério, aqui o Padre Perez explica a lenda sobre a Chorona ainda na primeira metade da projeção e pronto, nada mais é desenvolvido a partir daí, se apoiando apenas nos tradicionais jump-scares para fazer quem assiste pular da cadeira, além de um jogo de gato e rato no apressado clímax, sem nenhuma dramaticidade.

Elementos interessantes como a perda da fé da protagonista Anna Tate-Garcia após o falecimento do marido, o significado dela trabalhar como assistente social após tantos traumas, a própria metáfora sobre os filhos diante de uma ameaça que pretende justamente reaver os herdeiros que ela mesma matou, além dos desdobramentos sobre como tal lenda mexicana atua são completamente ignorados. Se tivessem sido trabalhados ao invés de apenas jogados de maneira aleatória, poderíamos ter um terror bem interessante.

Mas clichês como a falta de inteligência de alguns em filmes do gênero seguem lá, com direito a uma tentativa da menina para recuperar a sua boneca que, de tão absurda, passamos a torcer que ela bata as botas por merecimento. E o fato de a narrativa se passar nos anos 70? Tanto não tem relevância como o design de produção para a ambientação é pouco atrativo, sem destaque. Pelo menos o visual da tal Chorona é estiloso, por mais que não chame atenção, até pela semelhança com tantas outras assombrações já vistas, como a Samara de “O Chamado” (2002).

Oriundo dos curtas metragens, o estreante Michael Chaves até mostra alguma habilidade na direção através de longos planos sequência pela casa atenuando o suspense, muitos planos holandeses (leia-se câmera na diagonal) para representar a instabilidade na situação. Mas com um desenvolvimento tão frouxo, fica difícil salvar. Afinal, a intenção é causar um susto atrás do outro, utilizando batidos recursos como travellings de câmera mostrando a criatura aparecendo num espaço antes vazio, seguido do aumento brusco dos efeitos sonoros. Depois de tantos, nem assusta mais pois fica fácil de prever. E tem até momentos em que a criança antecipa o susto que está por vir, apontando para “algo”.

Para não deixar de ficar mais batido, tem aquele exorcista (que aqui é substituído por um xamã) que vai tentar espantar o fantasma da casa da família principal. Vivido de maneira caricata por Raymond Cruz (o Tuco Salamanca da série “Breaking Bad”, 2008-2009), o personagem é difícil de ser levado à sério, pois ele próprio solta piadas descabidas em momentos que deveriam ser de apreensão. Que tal um “Ta-Dá”, após fazer uma “mágica” com ovos de galinha que sugam as energias negativas da residência? Pois é.

A única que se sai bem do elenco é Linda Cardellini (a Velma de “Scooby-Doo”, 2002, o que rende uma brincadeira na TV com isso), pois ela se esforça para trazer dramaticidade para uma personagem tão complexa, por mais que ela seja mal construída. Bem diferente das duas crianças interpretadas por Roman Christou e Jaynee-Lynne Kinchen, completamente apáticas (principalmente ela!), sem nunca transparecer veridicidade no medo que elas sentem. De tão artificiais, em nenhum momento nos importamos com o destino da dupla.

É de se preocupar que James Wan tenha confiado justamente a Michael Chaves a direção de “Invocação do Mal 3”, que estreia em 2020. Apesar dele ter mostrado potencial tecnicamente, neste “A Maldição da Chorona” ficou clara a falta de apuro quando tem em mãos um material limitado, além da fraca condução do elenco (ainda bem que Patrick Wilson e Vera Farmiga são experientes, diferente dos moleques irritantes deste). Também não seria uma má ideia se Wan optasse por focar apenas na franquia principal, pois esses spin-offs estão bem sofríveis. Mas estão dando dinheiro, então, aguardemos mais porcaria que vem por aí.

Nota: 3,0