Crítica: Novo “Cemitério Maldito” faz mudanças precisas e honra o espírito da obra original

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O livro “O Cemitério” é um dos mais macabros do “mestre do terror”, Stephen Kingg. Ganhou uma adaptação para os cinemas em 1989 que, apesar de ser lembrada com nostalgia pelos fãs, era cheia de defeitos e com interpretações piores do que muita novela mexicana. Esse remake não reinventa a roda, apesar de tomar algumas liberdades criativas. “Cemitério Maldito” (Pet Semetery, 2019) corrige alguns problemas, entrega uma aura demoníaca condizente com a proposta e agrada de um modo geral, mesmo que não seja memorável.

Na trama, a família Creed se muda para uma nova casa no interior, localizada nos arredores de um antigo cemitério amaldiçoado usado para enterrar animais de estimação – mas que já foi usado para sepultamento de indígenas. Algumas coisas estranhas começam a acontecer, transformando a vida cotidiana dos moradores em um pesadelo.

Dirigido por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer (do pouco visto “Starry Eyes”, 2014), eles não são dos mais criativos, mas não fazem feio, por mais que apelem para os tradicionais jump-scares (que, ainda bem, são poucos e até são bem encaixados) e exagerem nos flashbacks expositivos. Compreensível para a construção dos personagens. Eles mostram o valor ao conferir o suspense psicólogo em planos sequências pela casa enquanto o pai procura ansioso pela filha e alimenta essa expectativa com o surgimento da máscara de animal. O visual do gato Church (ou Winston Churchil), em que foram utilizados animais reais, está bem mais assustador.

Melhor ainda ao conferir o clima macabro no tal cemitério, com tons dessaturados, uma névoa que perturba a visão e sons não identificáveis de fundo, contrastando com o outro lado que só aparecia de dia. Eles têm até a decência com o espectador ao mostrar inúmeras vezes a rodovia onde sempre passa um caminhão, jogando um código de narrativa para tragédia anunciada, inclusive, em um desses momentos, com uma gritante paleta de vermelho (o que obviamente remete a sangue, morte).

O roteiro de Matt Greenberg (“Halloween H20”, 1998) e Jeff Buhler (do recente “Maligno“, 2019) altera alguns detalhes originais, como qual dos filhos que morre (não é spoiler, está nos trailers), mas que pouco influencia para o desenrolar. E os diretores tratam de brincar com essa quebra de expectativa de maneira bastante eficiente nesta cena trágica. A subversão do olhar de carinho com o de medo que viria posteriormente numa dança de balé infantil projeta aquela exclamação na mente. Uma pena não explorarem mais a tal procissão de crianças com máscaras de bichos, algo inédito em relação ao longa de 89 e tão utilizado nos materiais de divulgação, mas que aqui surge de maneira breve.

Além disso, o texto trata de adentrar na cabeça do casal principal e suas perturbações, mesmo que de maneira superficial, levantando suas percepções sobre vida após a morte. Ela, carrega a culpa pela morte da irmã na infância, agora retratada de maneira bem mais incômoda (positivamente falando). Ele, um total cético à respeito do post mortem, se no filme anterior tinha o fantasma do ex-paciente Victor Pascow quase como um alívio cômico, aqui ele traz uma cena visualmente chocante que contextualiza bem o estado de paranoia que Louis viria a entrar.

Quando a coisa fica tensa pra valer e o sobrenatural já está explícito até para os personagens que estão ali desesperados, há alguns momentos estilosos, um pouco de sangue, mas nada muito chocante. A maior alteração em relação ao material original foi no final. Algo que alguns apreciadores podem torcer o nariz, mas até o próprio Stephen King aplaudiu. De fato, dá uma nova roupagem sem fugir do propósito original e encerra de maneira mais mórbida.

Se o elenco do longa de 89 beirava o amadorismo, aqui pelo menos todos estão corretos e buscando trazer alguma profundidade. Como protagonista, Jason Clark (se redimindo do péssimo “A Maldição da Casa Winchester”, 2018) segue no modo automático até trazer a perturbação necessária que o personagem necessita. Amy Seimetz (“Alien: Covenant”, 2017) está muito bem, evocando o trauma que carrega nas costas durante tantos anos e culmina num drama diante da “nova” família.

O sempre ótimo John Lithgow (“Planeta dos Macacos: A Origem”, 2011) traz para Jud, o homem que apresenta o conceito do tal cemitério, o mistério que deveria ter, alternando entre a bondade e a suspeita. Mas uma grata surpresa é a menina Jeté Laurence (“Boneco de Neve”, 2017), captando a transição gradativa de inocência para a crueldade. Um momento em que ela fala algo de maneira doce após cometer um ato de atrocidade é um exemplo.

Pode até ser decepcionante a versão modernizada da música tema “Pet Semetery”, tão marcante pelos Ramones, agora pela banda Starcrawler. Mas serviu para deixar claro que se trata apenas de uma releitura bastante honesta e que se esforça para não decepcionar as ideias originais do livro. Em meio a tanto terror genérico que é lançado quase semanalmente nos cinemas, esse ocupa uma posição de respeito.

Nota: 7,5