
Quando o primeiro “John Wick” foi lançado, os distribuidores no Brasil sequer pensaram na possibilidade daquele longa virar uma franquia de sucesso, tanto que chegou com o título “De Volta ao Jogo” (John Wick, 2014). Custou “apenas” U$ 20 milhões, mas se saiu bem o suficiente para ganhar uma sequência.
“John Wick 2: Um Novo Dia Para Matar” (John Wick: Chapter Two, 2017) veio para colocar a saga num novo patamar do gênero ação da atualidade, além de resgatar o prestígio de Keanu Reeves. Agora, “John Wick 3: Parabellum” (John Wick: Chapter 3 – Parabellum) vem para consolidar esse status. Não importa a história. É raro encontrarmos sequências de matança tão criativas como as do “Baba Yaga”.
A trama começa logo onde termina o segundo filme. Após assassinar o chefe da máfia Santino D’Antonio no Hotel Continental, John Wick (Keanu Reeves) passa a ser perseguido pelos membros da Alta Cúpula sob a recompensa de U$14 milhões. Agora, ele precisa unir forças com antigos parceiros que o ajudaram no passado enquanto luta por sua sobrevivência.
Como já era de se prever, o roteiro em si pouco importa. Desde que mataram o cachorro dado pela sua falecida esposa e roubaram o seu adorado carro, o que move John Wick é a vingança contra os que causaram tal estupidez e se manter vivo diante de uma legião de assassinos hiper treinados (e que não calçam o chinelo dele). Depois que sua cabeça foi colocada a prêmio, instigando os melhores matadores do mundo, o que se podia esperar era mais um festival de cenas em que os espectadores abrem o sorriso por serem “mentirosas”.
Não há reviravoltas ou pontos para reflexão. Para apreciar, é preciso mergulhar nessa proposta do absurdo, remetendo a longas de “brucutus” dos anos 80 que andam em extinção, como Arnold Schwarzenegger no divertidíssimo “Comando Para Matar” (Commando, 1985). Para quem consegue embarcar nessa brincadeira louca, o entretenimento é garantido e esse terceiro episódio entrega a grandiosidade que era esperada.
Dirigido por Chad Stahelski, que está no comando deste o primeiro filme (o único que foi dividido com David Leitch, de “Deadpool 2”, 2018), ex-dublê e coordenador de dublês (ele inclusive foi dublê do próprio Keanu Reeves em “Matrix”, 1999), usa toda a sua experiência em longas de ação para elaborar coreografias muito criativas, com o cuidado de fugir do trivial que é visto em tantas produções genéricas. Diante de um longa da franquia, nos acostumamos com lutas e malabarismos com armas (ou o que tiver à disposição) enquanto o protagonista sempre mata inúmeros figurantes.
Aqui, tem de tudo um pouco, com direito a utilização de um livro como arma branca numa pancadaria na biblioteca contra um gigante, facas sendo atiradas (sequência divertidíssima!), cavalos dando coices (movimentos friamente calculados, como diria o Chapolin Colorado), lutas em cima de motos contra uma gangue de ninjas usando katanas, pancadarias com cachorros mordendo as partes dos capangas, tiro debaixo d’água, além de embates que têm nítida influência dos longas asiáticos de samurais. É de impressionar como Stahelski é econômico nos cortes, explorando com propriedade os planos prolongados enquanto os atores mostram suas desenvolturas.
O ritmo é bem desenvolvido pela direção, com destaque para o tiroteio no clímax ao som de “As Quatro Estações”, de Vivaldi (que vacilo terem soltado essa obra-prima no trailer!). Até incomoda às vezes a falta de respiro em meio a ação ininterrupta e algumas elipses na narrativa, como ao ver Wick migrando dos Estados Unidos para o Marrocos e depois voltando em simples transições de planos. Algo difícil de engolir se tratando de quem está rodeado de gente querendo matá-lo. São detalhes que necessitam da abstração de quem está lá para rir da violência cartunesca.
O roteiro escrito a oito mãos por Derek Kolstad (o único que voltou dos anteriores), Shay Hatten, Chris Collins e Marc Abrams, até tenta trazer algumas novidades, como a origem de John Wick, algumas sugestões sobre trabalhos do passado e a sua motivação para seguir lutando, mostrando o amor que ele sente pela sua esposa. Mas nunca são fatores primordiais e os demais personagens servem apenas como ponte para Reeves brilhar em sua trilha sangrenta.
O texto acerta ao incluir o humor nas bizarrices das cenas de ação, incluindo uma constante brincadeira sobre o status invencível do protagonista, incluindo conversas indicando respeito entre dois caras que lutam com ele. Eles são como subchefes, aqueles que nos games temos que passar para subir de nível e se aproximar do vilão principal. Os realizadores parecem ter consciência dessa brincadeira e tratam o longa-metragem inteiro como um jogo.
Sobre Reeves, ele continua com a cara de porta que o acompanha durante toda a carreira. Ele apenas cai nos papéis certos, saindo até como carismático, e aqui não é diferente. Não é de se esperar nada diferente de um matador que já perdeu tudo na vida. Aqui ele traz o ar de tristeza necessário sem precisar falar muito. Basta ele vestir o terno preto à prova de balas que sabemos que ele está cumprindo o dever. E com a ação a mil, sua performance corporal é monstruosa, no melhor sentido possível, sinal que ele é a escolha ideal para o papel.
Porém, todo o restante do elenco serve apenas de complemento para ele. Esperava-se que Halle Berry tivesse uma participação maior, mas ela é utilizada como ferramenta para transportar John, incluindo algumas excelentes cenas de ação. E ela se sai muito bem, apesar de notoriamente não interpretar os movimentos de maneira natural como Reeves já consegue. Outros que retornam, como os ótimos Ian McShane e Laurence Fishburne, apenas atuam no modo automático, repetindo o ar de soberba e aparente tranquilidade que já havia sido apresentado nos anteriores. Angelica Huston, cheia de superioridade aos seus 67 anos, é uma feliz adição.
Destaque para Mark Dacascos, veterano dos filmes de ação dos anos 90, que convence como ameaça real, até porque ele tem de fato habilidade em artes marciais, mas também traz alívio cômico ao demonstrar a admiração que sente por John Wick. Quem também figura além do parâmetro é Lance Reddick, que repete o papel do concierge Charon, e agora tem a chance de participar do tiroteio sem nunca perder a classe.
Difícil dizer se superou o brilhantismo da condução das cenas do segundo longa (inclusive a ideia do espelhamento é repetida aqui). Mas não deixa dúvida que “John Wick” é uma franquia que mostrou o diferencial e ainda deve garantir muita diversão. Não à toa, o assassino apaixonado por cachorros já matou mais gente do que Jason Voorhees, Michael Myers e Freddy Krueger. Mas fica o alerta para que a fórmula não se prolongue por tantos anos, a ponto de se degastar.
Enquanto isso, “Si vis pacem, para bellum” (ou “se quer paz, prepare-se para a guerra”).
Nota: 8,5