Crítica: “Rocketman” é uma viagem louca e sentimental…assim como a vida e obra de Elton John!

Foto: Divulgação
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Um músico tão brilhante e exótico como Elton John não merecia um filme convencional. E “Rocketman” (idem, 2019), definitivamente, não é. Trata-se de uma viagem cheia de loucuras no estilo de “Across The Universe” (idem, 2007), mas também com arco dramático muito bem desenvolvido, honrando a imagem do artista. Nem tenta ser realista, comprovando que a criatividade em cinebiografias ainda está viva!

Inevitável a comparação com o superestimado e vencedor de quatro Oscar, “Bohemian Rhapsody” (idem, 2018), cinebiografia da banda Queen. Não apenas por contarem a história de ícones britânicos da música, mas porque o diretor Dexter Fletcher esteve envolvido em ambos os projetos. Com as polêmicas sobre abuso sexual envolvendo Bryan Singer, foi Fletcher quem concluiu as filmagens daquela atribulada produção e, aqui, teve a chance de conferir a sua identidade, algo que ainda era desconhecida, visto que ele pouco mostrou em seus longas anteriores, como “Voando Alto” (Eddie The Eagle, 2015) e “Sunshine on Leith” (2013).

Diferente do “filme do Queen”, que tem uma estrutura bem básica e tudo servia apenas de desculpa para vê-los compondo e tocando seus sucessos, “Rocketman” acerta ao construir toda a narrativa a partir da reabilitação de Elton John. Sua apresentação desde a infância, passando pela consagração e a queda pelo vício em drogas e sexo são distribuídas através das muitas internações do músico, trazendo uma carga dramática mais convincente. Já que o biografado segue vivo, optaram por um recorte de uma fase importante de sua vida.

E aqui temos um musical de fato, em que os personagens começam a cantar e dançar em situações rotineiras. Mas neste caso, os muitos hits de Elton são encaixados de maneira precisa, de modo que a letra sempre condiz com a respectiva situação, além das coreografias bonitas de ver, por mais que situações sejam trágicas. A profundidade das execuções de “I Want Love” e “Your Song” consegue emocionar, assim como a subjetividade de “Rocketman”, transmitindo muito bem o estado de espírito do protagonista durante tantos anos.

O diretor se aproveita dessa tradicional subversão da realidade para abraçar de vez o fantástico, incluindo colocar a plateia flutuando; o cantor virando, literalmente, um foguete; ou utilizando da psicodelia para simular uma orgia. E Fletcher mostra talento ao fazer algumas transições com rimas visuais (conhecidos como “raccord”), como a mudança do formato da armação normal de óculos para o formato de coração, ou o corte do disco de ouro para o palco de uma das muitas apresentações cheias de energia do showman.

Mérito também do excelente trabalho de montagem, de modo que consegue transitar entre performances surreais para o decorrer natural da trama de maneira singela. E a edição trata de transmitir o estado elétrico do músico, como em “Crocodile Rock” ou “Pinball Wizard” (em referência a sua participação no musical “Tommy”, do The Who). Os figurinos e a direção de arte, por mais que se baseiem em modelos utilizados pelo próprio Elton, são bem fiéis e variados, sempre com a preocupação de alternar as cores emulando as diferentes sensações.

Caminhando junto à direção, o roteiro de Lee Hall (de “Billy Elliot”, 2000, longa estrelado por Jamie Bell, que também está no elenco de “Rocketman”) trata de trabalhar a complexidade emocional que era a mente de Elton John nesse período de autodescoberta. Por mais que a frieza dos pais soe como maniqueísta, colocando-os como frios e intolerantes (mas ainda conseguem emocionar e revoltar, como na cena do reencontro com o pai), isso serve para fomentar a constante carência por aprovação de Reginald Dwight. O “Reggie” cresceu como um jovem tímido, apesar do nítido talento desde pequeno.

“Reggie” era um rapaz cheio de insegurança, inclusive como artista, demorando a se lançar como um frontman, atuando por muito tempo como pianista de apoio. Para embarcar no sucesso, ele criou um personagem propositalmente oposto, com roupas coloridas e espalhafatosas, algo que virou seu marketing pessoal. Mas esse conflito de identidade o perturbou por anos até compreender que ele pode sim ser Elton Hercules John, aquele que leva tanta alegria, sem necessariamente ser “um babaca”, como ele mesmo diz, com ele próprio e com os outros.

A questão da homossexualidade é tratada de maneira natural, apesar de ser um tabu na época, principalmente com os pais. Tanto que tem uma bem dirigida cena de sexo entre homens que, por mais que não tenha conteúdo explícito, deve ocasionar a saída das salas de cinema de alguns defensores da “família tradicional brasileira” (risos). A principal relação abordada pelo roteiro é a amizade, praticamente de irmãos, com Bernie Taupin (vivido de maneira segura por Jamie Bell), o compositor que o acompanha durante praticamente toda a carreira. Bernie, heterossexual, não só captava seus sentimentos para escrever suas canções, como foi a pessoa que sempre esteve do seu lado em diferentes momentos.

Taron Egerton, que não havia mostrado grande coisa em “Kingsman” e sua continuação (2014, 2017), faz o melhor papel da carreira. Ele não só canta todas as músicas de maneira admirável sem dublagem, como foge de apenas imitar Elton e capta a constante montanha russa de emoções que é a vida do seu ídolo. A cena em que ele tenta sorrir na frente do espelho antes de um show, logo após cheirar cocaína, representa muito bem essa complexidade.

Bryce Dallas Howard, tendo a oportunidade de viver uma personagem diferente das mocinhas em que é acostumada, fica engessada ao modo estereotipado como o roteiro constrói a mãe do músico. Semelhante com o que acontece com Steven Mackintosh, que vive o pai. Richard Madden (o Robb Stark de “Game of Thrones”), convence com o ar de canastrão e arrogante pintado para o empresário John Reid, um tanto diferente da versão mais contida vivida por Aidan Gillen em “Bohemian Rhapsody”.

“Rocketman” não se trata de um projeto com o intuito de transformar o retratado em lenda ou angariar novos fãs, por mais que ao longo do tempo possa servir como ferramenta para tal. Trata-se de um relato de um virtuoso músico que demorou para encontrar o seu lugar no mundo. Uma história que fala sobre perdão aos que fizeram mal a você ao longo da vida e, principalmente, perdoar a si mesmo, abraçar a sua criança interior. Pode até ter um certo excesso durante o segundo ato, mas a metáfora na reta final que indica essa lição compensa eventuais defeitos. Que figura incrível é Elton John!

Nota: 9,0