
Já fazem quase 20 anos que “X-Men – O Filme” (idem, 2000) chegou aos cinemas, ainda de uma maneira experimental, dando início a toda essa moda de adaptações de super heróis para os cinemas. Foram nada menos que 10 filmes (incluindo os três solo do Wolverine). Alguns excelentes (“X-Men 2”, 2003, “Logan”, 2017), outros muito bons (“Primeira Classe”, 2011, “Dias de um Futuro Esquecido”, 2014), uns esquecíveis mas não necessariamente ruins (“O Confronto Final”, 2006, “Apocalispe”, 2016). “X-Men: Fênix Negra” (Dark Phoenix, 2019) entra para essa última categoria e se despede da saga com nítido clima de desgaste.
Na trama, Jean Grey (Sophie Turner) começa a desenvolver incríveis poderes após um incidente no espaço. Mas tal força passa a corrompê-la e a transforma na “Fênix Negra”. Então, os X-Men precisam decidir se a vida de um membro da equipe vale mais do que todas as pessoas do mundo.
Nunca é um bom sinal quando o estúdio responsável pela produção tem futuro indefinido. Como se não bastassem os constantes comentários sobre a ida dos X-Men para a Marvel/Disney, rumores sobre a compra da 20th Century Fox pela empresa do Mickey ganharam força em 2018, sendo batido o martelo em 2019. Nesse meio tempo, “Fênix Negra” passou por refilmagens e foi adiado em quase um ano. A impressão que fica é que, cientes de que nem elenco e nem a trama seriam aproveitados pelo universo lá dos “Vingadores”, o longa foi feito rodeado de desinteresse.
Bryan Singer, idealizador do formato e diretor de quatro longas da franquia, havia sido afastado de “Bohemian Rhapsody” (idem, 2018) sob acusações de abuso sexual. Simon Kinberg, que roteirizou três filmes da saga (além do pavoroso “Quarteto Fantástico”, de 2015, dirigido por Josh Trank), ficou encarregado de estrear na direção neste derradeiro episódio. Optou por reapresentar a “Saga da Fênix Negra”, uma das favoritas dos fãs dos quadrinhos, que ele próprio adaptou no genérico “O Confronto Final”. E mais uma vez ficou apenas na vontade de trazer algo marcante.
Não que o trabalho de Kinberg seja ineficiente, ele apenas não consegue trazer nada que já fora visto em exaustão. Até tenta, transformando o preconceito da população com os mutantes em idolatria, inclusive com o Governo tendo-os como aliados. Mas pouco acrescenta. Se no longa de 2006 o dilema de Jean Grey (vivida ali por Famke Janssen) em perder o controle do poder descomunal parecia soar como desculpa, aqui ela é a protagonista de fato, mas o drama acontece de maneira rápida e pouco convincente. Sem falar que Sophie Turner (a Sansa de “Game of Thrones”) não tem carisma para levar a trama nas costas.
Os pilares Charles Xavier e Erik Lehnsherr continuam sendo o ponto alto. James McAvoy traz uma nova vertente para o professor da equipe, agora orgulhoso e satisfeito com o tão sonhado reconhecimento pelas autoridades, passando a confundir o ego com culpa. Michael Fassbender volta a conferir o peso que o Magneto tem, um vilão/anti-herói que conta com o temor e respeito de todos. Mas o eterno dilema sobre o caráter dele e qual lado ele deve ficar já não balança as impressões de mais ninguém.
Aquela nova geração de atores tem o seu valor, como Tye Sheridan, favorecido pelo fato de Ciclope finalmente receber a devida atenção do roteiro. Mas coadjuvantes como Noturno (Kodi Smit-McPhee) e Tempestade (Alexandra Shipp) voltam a ser subaproveitados, assim como Mercúrio (vivido pelo carismático Evan Peters), que desta vez não tem uma cena para chamar de sua como nos dois longas anteriores e chega um ponto em que ele é simplesmente afastado e não retorna para maiores explicações.
Se a Mística como líder dos X-Men foi algo que nunca convenceu, a atriz Jennifer Lawrence, que nunca escondeu a má vontade para com o papel, mais um vez parece estar só cumprindo tabela, apesar da importância dela para a narrativa. Outro oriundo da “Primeira Classe”, Nicholas Hoult faz um trabalho correto como o intelectual Hank McCoy, aqui mesclando com a fúria do Fera até quando está sem maquiagem. Já a competente Jessica Chastain, no papel de uma misteriosa alienígena, é limitada a ficar com a car fechada e inexpressiva. Desperdiçada.
Apesar do inflado orçamento de U$ 200 milhões, não há cenas grandiosas e fica a sensação de estarmos diante de algo menor. Alguns raios evocados pela Tempestade parecem até efeitos especiais dos anos 90, sem falar nos voos bizarro repentinos da Jean Grey, utilizando aquela técnica de tirar a atriz do plano e depois mostrar um pequeno ponto no céu. Os figurinos com os uniformes com um grande X amarelo no peito remetem bem aos quadrinhos clássicos, mas são pouco utilizados. A produção sequer tem preocupação em contextualizar a história nos anos 90.
Mas em geral, as cenas de ação não desagradam. É possível conferir a combinação de poderes no resgate da nave Apollo 11 e a sequência final num trem é bem eficiente. Ainda é divertido ver o Magneto manipulando várias armas e disparando tiros no rosto ou amassando um vagão e arremessando-o como papel. O problema é o parâmetro para comparação. Noturno ainda tem trechos interessantes utilizando o seu teletransporte, mas nenhum chega aos pés daquela épica introdução de “X-Men 2”, na Casa Branca. Simon Kinberg mostra algum potencial desde o impacto provocado no acidente de carro na cena de abertura, mas pesa a sua inexperiência. Quem sabe num futuro ele possa apresentar algo mais agradável aos olhos.
De mudança para a Marvel/Disney, mesmo que todos os detalhes estejam mantidos em absoluto sigilo, os mutantes encerram essa saga de maneira apenas protocolar e com uma narração em off que dá indício sobre tal “recomeço”. O último filme é ruim? Não. Com exceção do vergonhoso “X-Men Origens: Wolverine” (2009), nenhum exemplar desta franquia chega a ser uma decepção por completo. Mas o resultado deste “Fênix Negra” é pouco para o que esses personagens, tão queridos por gerações, mereciam.
Nota: 5,0