Crítica: “Turma da Mônica: Laços” é inocente e fofo como as revistas de Maurício de Sousa

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Não é exagero dizer que diversas gerações cresceram e tiveram o aprendizado da leitura facilitado com os quadrinhos criados por Maurício de Sousa, inspirados na própria filha e outras figuras do seu convívio, originados em 1959 e em produção até hoje, sem sinais de desgaste. Mas apesar de inúmeras animações já feitas, demorou esse tempo todo para a realização de um longa em live-action, perante tamanha delicadeza do produto. Felizmente, “Turma da Mônica: Laços” (2019) é um filme que, em sua singeleza, honra aqueles queridos personagens.

A trama é simples: Floquinho, o cachorro do Cebolinha (Kevin Vechiatto), desaparece. Então, o menino desenvolve um “plano infalível” para resgatar o cãozinho. Mas para isso vai precisar da ajuda de seus amigos, Mônica (Giulia Benite), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira). Juntos, eles irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras.

Não poderia haver decisão mais acertada para a direção do que Daniel Rezende, vindo do ótimo “Bingo: O Rei das Manhãs” (2017) e um currículo de montador que inclui “Cidade de Deus” (2002) e os dois “Tropa de Elite” (2007, 2010). Com uma visão de quem entende de edição, ele sabe conduzir planos demorados com poucos cortes e travellings estilosos na floresta. Há bons planos sequências horizontais como o Cascão andando de bicicleta e escapando de água, e ele e Cebolinha fugindo do “ataque” da Mônica, quase como um desenho animado.

Apesar de “pé no chão”, ele abraça a fantasia em alguns momentos, como na aparição do Louco (ótima participação de Rodrigo Santoro, excêntrico como alguém vivido por Johnny Depp num longa de Tim Burton), e também sempre referenciando a mídia original, como o uso de gráficos para descrever os “planos infalíveis”. A trilha sonora de Fábio Góes aplica uma orquestra que evoca aquelas aventuras juvenis oitentistas, típicas da “Sessão da Tarde”, além de remodelar o já conhecido tema da franquia para um tom icônico.

A produção investe forte no visual extremamente colorido, dando a impressão de que tudo se trata de uma enorme revista em quadrinhos. Os figurinos bastante fiéis aos originais, a ambientação pacata do bairro de Limoeiro como uma cidade do interior dos anos 70 (lembrando que a época não é determinada, ficando a ideia de atemporalidade) estão lá. Se detalhes que seriam difíceis de trazer para o mundo real, como os únicos cinco fios de cabelo do Cebolinha ou a sujeira no Cascão, aqui foram transpostos de maneira criativa e não incomoda. As crianças em cena parecem, sim, de verdade. E que fofura!

Como é possível perceber, o roteiro de Thiago Dottori (de “VIPs”, 2010, “Trago Comigo”, 2013) não traz grandes invenções, claramente priorizando o projeto para as crianças, que deve ser o maior público nas salas de cinemas. O que pode incomodar alguns adultos que levarão os filhos ou mesmo os que vão conferir pelo saudosismo, já que não há grande desenvolvimento dos personagens, tampouco conflitos ou reviravoltas na narrativa. Tudo é muito direto e simples. Para isso, Thiago pegou a graphic novel “Laços”, de Vitor Cafaggi, que dá nome ao longa, e adaptou acrescentando características recorrentes que há tanto tempo dão identidade ao universo.

Enquanto os pequenos vão naturalmente se divertir, os familiares daquele mundo irão curtir identificar o Cascão saindo de uma lixeira, Magali flertando com uma melancia, Mônica agredindo os meninos com o coelhinho Sansão, além de inúmeros easter-eggs envolvendo o Jotalhão, Horácio, personagens secundários como Titi, Xaveco, Quinzinho, Xabéu, Jeremias e até uma referência ao Penadinho. Tem uma boa piada com o fato de apenas o Cebolinha usar sapato, além de uma aparição de Maurício de Sousa no melhor estilo Stan Lee.

A ideia de amizade está lá e existe um cuidado para não cair em discursos prontos. Tudo é desenrolado a partir do egoísmo do Cebolinha, que se auto denomina um “gênio cliando” e se recusa a ouvir as ideias dos amigos. Ele, vivido de maneira bastante carismática por Kevin Vechiatto, é o real protagonista, ficando na linha de frente de todas as decisões do roteiro, incluindo a metáfora sobre tais “laços” do título, que acaba por guiar o rumo da turma. O flerte dele com a Mônica também é abordado de maneira bela e delicada. Um toque de mãos e um olhar que transmitem conforto. Tudo é muito bonitinho.

Por conta disso, a própria Mônica se torna coadjuvante do seu próprio filme, se limitando a mostrar a impaciência quando chamada de dentuça e baixinha. Uma pena, pois Giulia Benitte demonstrar ter talento e consegue emocionar em um momento em especial sem precisar dizer uma palavra sequer. Laura Rauseo e Gabriel Moreira, intérpretes de Magali e Cascão, estão ok, ainda que sejam utilizados apenas para piadas sobre seus traços marcantes, a fobia por banho e a compulsão por comida. Mesmo assim, todos entregam o conteúdo básico que cada um já carregava previamente.

O filme falha pela ausência de um vilão marcante, visto que o “Homem do Saco”, vivido por Ravel Cabral, só segue a linha cartunesca e com poucas palavras, apesar de entregar uma ótima passagem cômica ao som de “Deslizes”, do Fagner. Nomes como Paulo Vilhena, vivendo o Seu Cebola, e Mônica Iozzi, como a Dona Luisa de Souza, estão com visuais bem convincentes, mas também estão responsáveis apenas por trazer charme à produção.

“Turma da Mônica: Laços” é aquele exemplo de produção que não tenta ser maior do que é, tampouco uma tentativa de remodelação para angariar novos fãs. É bastante fiel ao mundo criado por Maurício de Sousa, sendo perceptível ali muito carinho e cautela nos pequenos detalhes. Apesar do conteúdo infantil, temos um filme inocente e cheio de carisma que consegue atingir diretamente a memória afetiva dos espectadores crescidos.

Nota: 7,5