
Muitos têm a impressão de que o cinema brasileiro se assemelha a telenovelas, se apoiando na popularidade de atores famosos para emplacar sucesso. Porém, alguns cineastas se destacam por trazer criatividade e traços autorais. Desta nova geração, o pernambucano Gabriel Mascaro, de 35 anos, vem ganhando merecido espaço.
Após estreia sem muitos alardes em “Ventos de Agosto” (2014), recebeu muitas críticas positivas logo no ano seguinte, com “Boi Neon” (2015). Agora em “Divino Amor” (2019), ele volta trabalhar com temas ousados e utilizando uma estética que não busca a fácil apreciação do grande público.
A trama apresenta Joana (Dira Paes), uma escrivã de cartório, que usa sua posição no trabalho para salvar casais que chegam para se divorciar. Ela faz de tudo para levar os clientes a participarem de uma terapia religiosa de reconciliação no grupo “Divino Amor”.
O cineasta não esconde desde o início que a sua produção se trata de uma enorme sátira ao hipócrita discurso de que o “Estado é laico”, trazendo uma visão de futuro distópico do Brasil, que aparentemente não é tão diferente do que vivemos, porém, sem nenhuma maquiagem de que a religião cristã dita o comportamento dos seres humanos. Para isso, ele utiliza das imagens para trazer a sua visão propositalmente exagerada, difícil de ser levada à sério, como uma rave cristã com todos os elementos que uma festa normal tem, mas com o intuito de louvação a Deus.
Mas tudo esbarra na burocracia. Não à toa a protagonista trabalha com documentos e Mascaro trata de mostrar um plano aberto dela subindo em um elevador com milhares de arquivos compondo o fundo. Para entrar no tal grupo religioso, é necessário apresentar várias identificações (como certidão de casamento) e é proibido entrar sem o parceiro. Seriam essas regras mais importantes do que o bem-estar de cada um?
Neste contexto, o roteiro de Mascaro, que também passou pelas mãos de Lucas Paraizo (de “Aos Teus Olhos”, 2017), Rachel Daisy Ellis (que trabalhou com o diretor em “Ventos de Agosto”) e do estreante Esdras Bezerra explora muito o preceito de que as relações têm como único objetivo a reprodução, garantindo a prosperidade dos seres humanos. Tudo se torna um projeto maior para a manutenção da “família sagrada”, dentro da fé, e da fidelidade conjugal.
Mas a ironia contida nessa premissa é exibida de maneira gráfica. Não faltam cenas de nudez e sexo explícito, com planos prolongados exibindo órgãos genitais, tanto masculino como feminino, claramente com o intuito de provocar o espectador. Utilizando cores sempre vivas, dando até um tom de romantismo, tal “Divino Amor é praticamente uma “casa de swing”, em que casais trocam de parceiros uns do lado dos outros.
A dificuldade do casal Joana e Danilo em engravidar acaba por mover o principal conflito do longa-metragem, incluindo o uso de um enorme aparelho que “estimula a fertilização”, em que o homem fica de cabeça para baixo com luzes sendo emitidas para os testículos. Quando acontece o “plot twist” do filme, quando ela finalmente consegue engravidar mas não sabe quem é o pai, ela é julgada por todos que a cercavam, incluindo o marido. Fica nítida ali uma analogia ao retorno de Jesus Cristo e, talvez, o apocalipse, tendo como imagem final do filme um bebê urinando!
Apesar de transmitir com eficiência a sua ideia e conseguir chocar, “Divino Amor” não foge em alguns momentos de cair no caricato. Cenas repetidas com um “drive-thru” com um pastor parecem querer empurrar tal ironia, assim como a narração em off de uma criança (voz de Calum Rio), além de expositiva, soa bastante deslocada.
Não tem como negar que tudo poderia ser ainda mais caricato se não tivesse ali o talento da veterana Dira Paes, que praticamente carrega a trama nas costas. Ela não só exibe uma bela forma aos 50 anos, como transmite a complexa variação de nuances da personagem, sensível e convicta dos seus valores de início, caminhando para o desespero pela situação em que ela se encontra. Tanto que ela acaba ofuscando Júlio Machado, que vive o seu marido Danilo, um tanto apático.
Por mais que pese a mão além do necessário em algumas passagens, perdendo a veridicidade, é louvável que produções nacionais como “Divino Amor” trabalhem temas tão delicados sob uma condução que foge do tradicional. Algo que o ótimo seriado americano “O Conto da Aia” (The Handmaid’s Tale) faz de maneira sublime.
Nota: 8,0