
O título nacional “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal” (tradução livre de “Extremely Wicked, Shockingly Evil, And Vile”, 2019, algo como “Extremamente cruel, chocantemente perverso e depravado”) traduz um pouco a ironia contida nesta produção. A ideia é mostrar o lado humano e carismático de um assassino que abusou e fez diversas atrocidades com mais de 30 mulheres, num outro ponto de vista. E funciona em partes por conseguir transmitir a dualidade, dando até benefício da dúvida para aquele sujeito que sempre transpareceu charme e carisma.
A trama traz o julgamento de Ted Bundy (Zac Efron), famoso serial killer americano da década de 1970. Ele se tornou famoso em todo o país, em parte por causa da fama de sedutor, que levou a conquistar várias fãs, e em parte por ter efetuado sua própria defesa nos tribunais. Aqui, a trajetória é contada pelo ponto das mulheres: Liz Kendall (Lily Collins), com quem se casou, e Carole Ann Boone (Kaya Scodelario), amante que o apoiou durante a fase final da vida.
Esta cinebiografia ganhou repercussão após a divulgação das imagens de Zac Efron como o assassino, com visual bastante fiel. O longa foi lançado nos Estados Unidos apenas na Netflix, e, no Brasil, estranhamente conseguiu a distribuição para as salas de cinema, já que a narrativa sem urgência lembra mesmo muitas produções feitas direto para a plataforma de streaming.
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O diretor Joe Berlinger, conhecido por documentários, incluindo “Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tape”, que retrata as tão suadas confissões do próprio Ted Bundy quando já estava no corredor da morte, quis trazer algo que fugisse do trivial. Afinal, quem quisesse conhecer o histórico de matança de Theodore Robert Cowell, bastava conferir o seu projeto anterior (bem didático e eficiente, por sinal), disponível lá na Netflix.
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Essa cinebiografia é quase um romance, uma história sobre resiliência, bebendo na fonte de “Um Sonho de Liberdade” (1994) e “Papillon” (1973), que é devidamente citado. Quem espera violência e crimes banhados de sangue, vai se decepcionar. Certamente Berlinger teve o cuidado (e até ousadia) de não tentar reproduzir os fatos trágicos citados no seu documentário.
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Baseado no livro “O Príncipe Fantasma: Minha Vida com Ted Bundy”, por Elizabeth Kendall, então namorada do acusado, a narrativa capta a visão dela, que relutava em aceitar que o amado seria capaz de cometer tais atrocidades. Essa impressão é jogada para o espectador! O tempo todo o receptor está lidando com o ponto de vista dela, que nunca imaginaria o pior do rapaz que a tratava tão bem e era atencioso com a enteada.
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Ted era charmoso, bastante articulado, formado em Psicologia, estudante de Direito que tinha nítida aptidão para ser advogado. E de fato, ele aparentava amar Liz. A maneira convincente como ele alegou inocência durante anos é impressionante! Eis a ironia: era através daquela falsa impressão que ele atraía as mulheres e causou tanta comoção em seu julgamento.
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Essa mudança de ponto de vista acaba por humanizá-lo, quase que forçando quem assiste a acreditar nele. Quem não conhece a história de Ted Bundy, poderia jurar inocência daquele rapaz. Mas sabendo que ali está um sádico estuprador, fica difícil criar qualquer empatia, tampouco torcida. O roteiro do estreante Michael Werwie propositalmente cria a situação de ironia dramática, em que quem assiste tem conhecimento de fatos que os personagens não têm.
O problema é que a condução de Berlinger, tão acostumado com o didatismo de documentários, não segura um bom ritmo numa “ficção”, muitas vezes soando arrastado. A ideia de afastar da exibição a maldade de Bundy é entendível, porém, o desenrolar é como um filme de tribunal comum, sem a intensidade que o caso carregava. O que ressalta o interesse é a ótima direção de arte, com figurinos e penteados que remetem bem os anos 70.
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Quem segura mesmo a onda é Efron (sim, ele não é mais aquele moleque de “High School Musical”, 2006), conferindo uma imensidão de cinismo, quase conseguindo enganar o público. Ele traz todo o charme e desenvoltura ali necessária, mas mostrando pitadas do tom manipulador em pequenos gestos e no olhar. O auge fica para o clímax, numa cena em que o diretor Berlinger mostra habilidade ao conduzir um diálogo com um vidro no meio e uma verdadeira face é exibida com extrema discrição.
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Lily Colllins (“Okja”, 2017) entrega o sofrimento da jovem sonhadora que procura fugir de uma sombra que a persegue, quase como uma narradora silenciosa daquela versão que está sendo exibida. Kaya Scodelaro (da trilogia “Maze Runner”, 2014, 2015, 2018), que vive o outro interesse amoroso de Bundy quando este já estava preso, vive o seu oposto, uma mulher com um charme peculiar e a frieza de quem parece ter consciência de que tem atração por um maníaco.
Há participações de nomes conhecidos que trazem algum peso, porém, com pouco efeito, como o veterano John Malkovich (vivendo um juiz bem estereotipado) , Haley Joel Osment (o menino de “O Sexto Sentido”, aqui um tanto inexpressivo), Jim Parsons (vivendo um promotor que continua parecendo o Sheldon, seu icônico personagem de “The Big Bang Theory”) e James Hetfield (vocalista da banda “Metallica”, em que o diretor comandou o bom documentário “Some Kind of Monster”, 2014).
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Uma produção que pode soar prolixa e até incômoda ao ser analisada com um olhar social. Não chega a ser um desserviço, mas um alerta para conhecer o histórico do protagonista e não apenas o que ele aparentava ser. Vale a conferida se tiver senso crítico de que tudo não passa de uma enganação proposital!
Nota: 6,0