Crítica: “Parasita” passeia por gêneros e faz crítica social com absurda precisão

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Não é de hoje que o diretor Bong Joon Ho (“Memórias de Um Assassino”, 2003; “O Hospedeiro”, 2006; “Okja”, 2017) insere críticas sociais disfarçadas em obras comerciais, sejam elas de terror, comédia ou aventura. Um dos maiores destaques entre a crítica internacional de 2019 e que provavelmente irá figurar entre as principais premiações de 2020, “Parasita” (Parasite, 2019) é talvez o longa em que o cineasta sul-coreano melhor aplique a sua visão de desigualdade social, transitando entre gêneros de uma maneira funcional e nada fácil. Tudo é milimetricamente planejado para ter a sua função na narrativa, tornando a produção de uma riqueza rara.

Na trama, toda a família de Kim está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota da rica família Park. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha elaboram um plano para se infiltrarem na burguesia, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos.

Importante prestar atenção em toda a construção da mise-en-scène por Bong, pois nada é aleatório. Começando pelo plano de abertura, das meias num varal próximo a uma janela que fica abaixo do nível do solo. Algo simples e que posteriormente reaparece, mas é essencial para contextualizar a situação da família Kim. Logo nos deparamos com uma rotina nada agradável numa “residência” minúscula, movimentos incômodos para usufruir do wi-fi das redondezas e até o aparelho sanitário fica em uma plataforma acima da altura de suas cabeças (!).

Pessoas urinam na pequena entrada de ar do local e os moradores se viram dobrando caixas de pizzas para ganhar alguns trocados, mesmo levando na cara o veneno da dedetização. As analogias são claras ao induzir que a família está em um patamar abaixo da sociedade em que os outros pisam neles enquanto se esforçam para promover um luxo aos mais abastados por mais simples que pareça… que é comer uma pizza. Mas as cores dessaturadas, os travellings de câmera pelo local claustrofóbico, tudo é trabalhado com extrema precisão.

O total oposto é visto na imensa casa da família Park. Os planos abertos são precisos ao captar a imensidão de cada espaço, principalmente a sala e o jardim. O áudio até emite um eco nas vozes para aprofundar a ideia do tamanho. Uma única ida é suficiente para o adolescente Ki-woo (vivido por Woo-sik Choi) perceber que ali ele e sua família teriam uma chance de sair do submundo.

O processo de aplicação do plano de colocar os familiares para trabalharem para os Kim, mesmo que isso exija puxar o tapete de funcionários ali já estabelecidos, é feito de maneira dinâmica e de fácil apreciação por parte do espectador, quase como filme de assalto na linha de “11 Homens e Um Segredo” (Ocean’s Eleven, 2001). Uma peça de roupa no carro e um guardanapo com mancha de ketchup no lixo são suficientes para o sucesso da “missão” de caráter duvidoso. Tudo isso agregado a um elemento importante para a leveza da narrativa: o humor. Não é exagero dizer que o primeiro ato poderia rotular o longa como comédia.

Como mentira tem pernas curtas, não é nenhuma surpresa que a família pobre terá problemas. Mas eis que o criativo roteiro de Bong, sob argumento do seu constante colaborador Jin Won Han, trata de incluir um plot-twist que muda por completo os rumos da história (que por motivos óbvios não será citado nesta crítica) e os Kim terão que driblar adversidades em triplo para não serem desmascarados. Tal reviravolta é essencial para materializar a dificuldade de mudança de status social, colocando diferentes personagens numa mesma situação de desespero.

Se o tom humorístico vai alternando de maneira até brusca para o suspense (mas nunca chega a ser desagradável), prevalece a questão moral sobre quem faz mal a quem ali. De um lado, fica implícito que os “parasitas” do título são os relegados da sociedade, que precisam se infiltrar num outro contexto. Por mais que eles tomem atitudes deploráveis que resultem na demissão de outras pessoas que talvez sejam tão necessitadas quanto eles, eles só querem uma oportunidade. Eles estão exercendo os trabalhos que cavaram para conseguir.

Um grande mérito da produção é não tentar vilanizar ninguém. Todo o contexto está errado! Afinal, qual é o mal praticado por tal família rica? Nenhum aparente, apenas natural. É a indiferença! Para manter o alto padrão de vida, exige da mão de obra dos menos favorecidos, como a governanta que precisa cozinhar algo que nem sabe em apenas oito minutos ou o motorista estar disposto a ir para qualquer lugar. Uma certa cena de “sexo” faz uma sarcástica analogia com aquela dos pedestres que pisam na cabeça dos pobres. Comentários pontuais sobre o cheiro de tais trabalhadores ou mesmo sobre os efeitos da chuva para um dia bonito (algo que tem um forte paralelo entre as duas famílias) são contundentes.

O terceiro ato entrega a violência que estava contida até então, pelo menos na prática. Até uma referência a indígenas e o comentário de que “precisa fazer o que mando”, humilhação independente de existir remuneração, chega como um soco no estômago. O desfecho brinca com expectativas e, se dá esperanças, pouco depois fomenta a tragédia. O niilismo é um fato dentro de todo aquele contexto (e não seria do nosso?!).

O elenco como um todo está soberbo, com destaque para o veterano Kang-ho Song, presente em boa parte das produções do diretor, como o patriarca da família Kim. Talvez pela idade, ele parece ser o único que não consegue encarnar por completo o personagem que eles desenham, demonstrando em pequenos gestos e expressões o descontentamento com a forma que está sendo tratado. O casal vivido por Sun-kyun Lee e Yeo-jeong Jo incorpora bem a premissa de que transparecem pessoas amigáveis, porém, nunca pensam duas vezes ao tratarem com desprezo algum subordinado.

“Parasita” é uma produção que consegue fazer rir e criar tensão numa naturalidade que, nas mãos de alguém incompetente, falharia miseravelmente (ainda em 2019, Jordan Peele conseguiu algo semelhante, mas com uma pegada sobrenatural, no excelente “Nós”). Pode até não agraciado como o melhor filme do ano, mas toda a repercussão que ganhou e as indicações/premiações que virão serão merecidas.

Nota: 9,0